Seu Lunga, nome pelo qual Joaquim dos Santos Rodrigues ficou conhecido, faleceu neste sábado vítima de câncer. Era um famoso vendedor de Juazeiro do Norte, interior do Ceará, que ficou conhecido pelas suas respostas ríspidas, porém bem humoradas através dos cordéis. Os causos do Seu Lunga se espalharam por todo o mundo. Alguns podem chamá-lo de mal humorado, porém se tornou uma lenda cearense tão importante quanto o Padre Cícero. O blog não poderia esquecer da importância histórica e cultural que este homem tem ao Nordeste e resolvemos falar um pouco dele. Dentro do texto, haverá alguns causos dele. Seu Lunga alegava que todas as histórias são mentirosas e não gostava nem um pouco dessa fama de pessoa ranzinza.  


Seu Lunga em sua loja em Juazeiro do Norte

Seu Lunga em sua loja em Juazeiro do Norte

O Seu Lunga, figura popular da história nordestina, realmente existiu e partiu neste sábado (22) da vida terrena.  Qualquer pessoa mal humorada já foi chamada assim. Quem é este homem que parou em inúmeras histórias em cordéis?  Assim como Batman está para DC Comics, o Homem-Aranha para Marvel, era o seu Lunga aos cordéis nordestinos.

O nome dele é Joaquim dos Santos Rodrigues, nasceu no município do Ceará chamado Carriaçu, porém ele e os sete irmãos foram criados em Assaré, cidade onde nasceu outro poeta cearense, o Patativa do Assaré. Depois, ele se mudou para Juazeiro do Norte, onde casou e teve 13 filhos, três homens e 10 mulheres. Foi nesta cidade que montou a sua oficina, onde curiosos iam atrás dele para saber se a lenda realmente existia.

“No seu comércio de sucata, ele também vende outros produtos dependendo da ocasião. Uma vez tinha uma saca de arroz e um romeiro perguntou: Seu Lunga como tá o arroz? Ele respondeu: Tá cru!!!!!!” 

Sua profissão era de vendedor e recebeu um apelido por uma senhora, que era vizinha, e passou a chamá-lo de Calunga, que era o nome da loja que possuía. Depois este nome foi reduzido para Lunga.

O que o fez ficar famoso? Foram os inúmeros cordéis usando o nome dele para retratá-lo como um homem ignorante com respostas curtas para perguntas consideradas estúpidas. As histórias foram baseadas pelas tradições orais do povo de Juazeiro do Norte.

Quem nunca foi chamado de Seu Lunga, após soltar uma resposta ligeira?  Foram inúmeros cordéis e cordelistas que escreveram sobre o nordestino, alguns vão ser apresentados a seguir:

Seu Lunga é cabra de bem
Porém é muito nervoso
Em perguntas idiotas
O homem perde o gozo
Das faculdades mentais
Vira o próprio satanás
Solta um palavrão trevoso.

Certa feita ele levou
Seu cachorro prum passeio
Seu Zézinho exclamou:
“Um cachorro, eu não creio!”
Seu Lunga teve um entalo
Disse: “não, é um cavalo,
Não está vendo o arreio?”

Lunga foi ao restaurante
Puxou o banco e sentou
Veio um gentil garçon
Com fineza o perguntou:
–Senhor, vai querer comer?
–Não, vim aqui me benzer
No peito, um credo, cruzou.

Lunga foi a padaria
Comprou dois litros de leite
Um velho lhe perguntou:
–A bebida é pro deleite?
Ele disse: “não senhor,
Essa joça eu quero por
Na estante como enfeite”.

O velho, ressabiado
Pôs-se logo a se explicar:
–Calma meu nobre senhor
Perguntei por perguntar
Queria puxar conversa
A coisa ficou dispersa
Não precisa se estressar.

Deu a besta fera em Lunga
Mais nervoso ele ficou
–Quer saber pra que é o leite?
Ele ao velho perguntou
–É pra lavar meu cabelo
Costas, ombros, pelo a pelo
Ali mesmo se banhou.

Lunga estava em um boteco
Tomando uma água-ardente
Sua esposa ali chegou
E em meio a toda gente
Disse: — Lunga, seu safado,
Por que tá embriagado?
Eita cabra inconseqüente!

Lunga chegou até ela
Trôpego a cambalear
Com o bafo de cachaça
Começou a esbravejar:
— Tomei dois litros de Fanta
Não está vendo, sua anta
O que vim fazer no bar?

Um belo carro de luxo
A famosa limosine
Chegou à concessionária
Tava exposta na vitrine
Lunga disse: –eu quero aquela
Dou até minha costela
Por aquela lamborguine.

O vendedor, à socapa,
Riu do momento bizarro
–Meu senhor, está enganado
Trocou o nome do carro
Lunga, bufando de raiva
Encorporou o Saraiva
Não adimitiu o sarro.

–Olhe aqui fi da broboinca
O automóvel é meu
Vou pagar com minha verba
Se entupa, seu fariseu
Dou o nome que eu quero
Joaquim, Chico ou Homero
Também ponho o de Romeu.

Uma semana depois
Lunga, no estacionamento
Foi saindo com o carro
Até passar por tormento
O alarme disparou
A polícia o abordou
Não teve nem argumento.

Era um carro igual ao dele
Não mudava nem a cor
O modelo, a capota
Pneu e radiador
Calota, marcha e breque
Iguais ao seu calhanbeque
Principalmente o motor.

Lunga tomou providência
Ali, no calor da hora
Pra não mais se confundir
Tirou da bota a espora
Riscou toda a pintura
Disse: –olhe que belezura
Quero ver trocar agora.

Em uma liquidação
De artigos para o lar
Vendia elétro-doméstico
Cama e mesa de jantar
Lunga estava à reboque
Conferindo todo o estoque
Para ver o que levar.

Foi então que o locutor
Percebendo o movimento
Anunciou aparelhos
De umas marcas de sustento
No uso do microfone
Disse: –esse DVD Sony
É último lançamento.

Lunga gritou:– abestado,
Deixe de ser mentiroso
A Sony não vai fechar
Não seja fantasioso
Diga assim, seu demente
Esse aqui é o mais recente
Senão fica duvidoso.

Este acima foi criado por Thiago Barbosa, em seu blog. Porém, como foi falado anteriormente, não sabemos ao certo há quantos anos existe essa homenagem ao Lunga. Um dos cordelistas mais famosos por divulgar a fama do Seu Lunga foi Zé do Jati, que é conhecido por cantar os problemas do Ceará e dos nordestinos. Ele tem um livro que traz uma compilação das histórias de Lunga e suas respostas ríspidas.

O uso das redes sociais, como Facebook e o finado Orkut, fez com que os famosos causos do personagem fossem proferidos para outros cantos do Brasil. Hoje existem fanpages e sites com diversas frases.  Até perfil no Twitter fizeram para ele.

“Lunga estava tirando goteiras, defeitos das telhas de sua casa, um curioso passou e perguntou: Tá tirando as goteiras seu Lunga? Ele responde: Tô não, tô é fazendo – e ai saiu feito louco a quebrar as telhas.” 

Uma vez o jornal cearense “O Povo” lhe encontrou e falou a verdade sobre o que ele achava dos inúmeros cordéis em sua homenagem e sobre a fama de ignorante. Sem papas na língua, ele respondeu: “Você fica satisfeito com o cabra te chamando de fresco? De ladrão? Maconheiro? Sem vergonha? Então, eu não gosto dessa fama.” Depois, uma ação judicial feita pelo próprio vendedor fez com que os cordelistas da região ficassem proibidos de escreverem sobre sua pessoa.

“Seu Lunga resolve andar um pouco e sai com seu chapéu grande e antigo. Durante sua caminhada ele resolve coçar a cabeça sem tirar o chapéu, então uma conhecida dele pergunta:
-Oxe seu Lunga, num tira o chapéu pra coçar o cabelo não é?
Seu Lunga então responde:
-E a senhorita tira a calcinha pra coçar o tabaco?”
 

Lunga tinha 87 anos e estava internado no Hospital São Vicente de Paulo, em Barbalha, onde tratava de um câncer de esôfago. Ele também era poeta e divulgou alguns poemas, como este aqui, recitado para o jornal “O Povo”:

“Disse o pobre do velho mais a velha, quando vão se deitar, a colcha toda rompida / E um puxa e o outro puxa / E viver aquela sina dá desgosto na vida”. Agora eu fiz uma poesia que diz assim: “Quem não mora muito longe, morando perto é vizinho / Encostado a esta mata, mata que tem espinho / Cada pau tem o seu galho, cada galho tem um ninho / Não vou morar nessa mata por causa dos passarinhos”. Agora tem outra que diz assim: “Morava bem em Juazeiro / Me transportei daqui e fui morar em Salgueiro / Lá existe uma fazenda que só existe um mateiro / Existe também um boi, que é um grande boi madrugueiro / E eu montado em meu cavalo, cavalo muito ligeiro / E eu vou derribar o boi, cavalo, boi e vaqueiro”

Cordel, o que significa

É um folheto, com poema escrito na forma rimada, originado em relatos orais e depois impresso em folhetos.  Foi inspirado no período renascentista quando popularizou a impressão de relatos orais.  O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas. No Nordeste, o nome foi herdado e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, desenhos feitos numa base de madeira e depois gravados em um papel, como se fosse um carimbo. Estas também podem ser usadas nas capas dos cordéis.  As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos.

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