Murakami faz chover no molhado revisitando temas antigos de sua obra em novo romance

“O ciúme — pelo que Tsukuru entendeu no sonho — era o cárcere mais desesperador do mundo. Isso porque era o cárcere onde o próprio prisioneiro prendia a si mesmo. Ninguém o forçava a entrar nele. Ele próprio entrou, se trancou por dentro e jogou a chave fora. E pior, ninguém neste mundo sabia que ele estava confinado ali. Naturalmente bastava ele próprio decidir se libertar para poder sair. Afinal, o cárcere estava dentro do seu coração. Mas ele não consegue tomar essa decisão. Seu coração está duro como uma parede de pedra. Essa era a essência do ciúme.”

Haruki Murakami

O fenômeno pop japonês, Haruki Murakami, surpreendeu há dois anos por lançar um romance surpresa logo após a trilogia 1Q84 – sucesso de vendas no mundo todo. Aparentemente, esse mais novo livro, O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (2014, editora Alfaguara), é uma volta à linguagem simples do escritor, que utiliza do típico jovem introspectivo e tímido como protagonista em Tóquio, referências à cultura pop e música clássica, e o uso do fantástico em certa dose. Pode-se dizer que seu mais novo romance é “mais do mesmo Murakami de sempre”. Poderia ser um elogio, mas não é.

Depois da série que abusa de elementos nonsense 1Q84, Murakami voltou ao estilo de algumas de suas obras antigas, como Norwegian Wood e Minha Querida Sputnik. Mas a impressão que fica é que os elementos utilizados na literatura do autor já foram explorados até não restar fôlego. Como se o leitor já conhecedor de seus livros ficasse sempre com a sensação de “já li isso antes”, muito embora a característica fundamental de sua prosa continue a mesma: mesmo nos momentos de tédio do enredo, a narrativa leve conduz nos conduz livro a dentro com rapidez.

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação conta a história de Tsukuru, que anos após um problema com seus quatro amigos de escola que ele nunca pôde entender, vê-se um adulto incapaz de adentrar definitivamente na vida adulta sem que revisite o passado, indo aos ex-amigos um a um para resolver assuntos pendentes e encaminhar o presente. Assim, parte numa jornada à sua cidade natal no Japão e até a Finlândia, por aconselhamento de sua namorada.

Gostaria de poder dizer que Murakami continua a surpreender, com seus temas existenciais dessa difícil travessia que é a pós-adolescência até a vida adulta – tema tão caro em seus romances, mas o que posso dizer, principalmente aos que não são iniciados em sua obra, é: ganha-se mais lendo seus livros anteriores à série 1Q84, como Após o Anoitecer e Norwegian Wood.