Na FLiQ, quadrinista Mário Cau conversou sobre os prazeres e desafios de “Terapia”

Dentre os vários artistas que a FLiQ trouxe, estava Mário Cau, um dos autores de “Terapia“, história em quadrinhos que recebeu várias indicações e um troféu do HQMIX em 2011. Junto com Rob Gordon e Marina Kurcis, os três autores contam a história de um rapaz parecido com tantos já vistos, que trabalham e estudam, mas não se sentem felizes. De alguma maneira, o personagem principal sente que a vida que leva não pertence a ele e usa da música e da terapia como guia pra sair desse labirinto.  Conversamos com Mário Cau, que também desenhou a HQ:

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O CHAPLIN: É a sua primeira vez aqui em Natal? O que está achando da FLiQ?

Mário Cau: É a primeira vez que eu vim aqui, e assim, não posso falar muito da cidade porque não conheci tanto, mas o mar é espetacular, tenho sido muito bem recebido pelas pessoas, um carinho muito bom. E a feira é ótima! Muito legal, acho que é extremamente importante ter esse tipo de evento, nem que seja uma vez por ano, porque as pessoas que vêm acabam conhecendo coisas novas e buscam diminuir o preconceito sobre os quadrinhos. Na hora que você vê mais do que já está acostumado a ver e do que a grande mídia mostra, aí talvez você encontre algo que goste.

O2013-10-30-capa-vol01 CHAPLIN: O que “Terapia” representa pra você?

Mário Cau: Antes de mais nada, “Terapia” representa um dos meus trabalhos mais maduros e ao mesmo tempo, mais desafiadores. É um quadrinho que precisa tanto no texto quanto na arte (mas principalmente na arte) ser fora da caixa. Não pode ser senso comum, não pode ser padrãozinho, porque já é sobre pessoas normais conversando, expondo sentimentos que são universais. Se a arte for meio pé no chão e previsível, ela não traz nada pro trabalho. Então foi um desafio muito grande pra mim porque cada página teve que ser pensada do jeito menos convencional possível.

O CHAPLIN: Eu acho que vai além de pessoas normais com sentimentos universais, porque há um preconceito sobre o trabalho do psicólogo e do psiquiatra, então quando vi, achei genial falar sobre um tema tão mal compreendido.

Mário Cau: Esse é outro desafio do “Terapia” que eu queria falar, é mostrar pro grande público que psicologia não é um bicho de sete cabeças, que fazer terapia não é “coisa de gente louca”, mas sim pra pessoas que estão precisando de ajuda com seus problemas internos. É um processo de auto conhecimento, sabe? A gente usa o cenário de uma terapia e o diálogo do psicólogo com o paciente pra mostrar o universo interior das pessoas.

O CHAPLIN: Como foi o processo de criação da arte?

Mário Cau: A princípio, eu queria que o Terapia fosse uma coisa simples, era uma página nova a cada semana, então eu queria que fosse dinâmico e sem complicações, mas no meio do caminho, eu acabei percebendo que pra explorar melhor o tema eu ia ter que mexer no desenho. E aí nasceu uma página com uma composição meio diferente e pensei, “é, deu certo”, e a partir daí eu sempre comecei a buscar fazer aquilo o mais diferente possível. Chegou um momento em que o pseudonanquim e o photoshop já não davam mais conta, e eu precisava de aquarela, carvão, papel diferente, corte e colagem, então foi um exercício de reinvenção mesmo. Tentar mostrar esses sentimentos de uma forma mais poderosa.