Todtenbuch: a cultura egípcia sob a óptica do death metal do Primordium

Na música, quando se quer afirmar que um determinado gênero é tradicional, costuma-se falar que ele é raiz, ou de raiz. Assim acontece com o samba de raiz, forró de raiz, etc. E por que não usar esta denominação com o heavy metal e suas vertentes? Esta é a proposta da banda potiguar Primordium, que chega barbarizando com seu death metal raiz em seu debute full length, o álbum Todtenbuch.

Com mais de uma década de existência, a banda Primordium descarrega no segundo semestre de 2014 o seu debute em formato de CD, o qual além de ser uma ode à música pesada e bem trabalhada, também é uma catarse conceitual, onde o foco semântico explorado pelo grupo é inspirado no livro dos mortos do Egito antigo.

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Porém, sem mais delongas, vamos ao que interessa. A banda abre o disco com uma pequena introdução de dois minutos que carrega consigo o nome da obra, todtenbuch, cuja tradução para o português é próprio tema do disco, “o livro dos mortos”. A faixa abre as portas do templo dos deuses egípcios e prepara o ouvinte para ser absorvido na brutalidade insana e coesa da banda em meio a Osíris, Seth, Hórus e demais divindades das terras ao longo do Nilo.

Após “virar a capa” do Todtenbuch – sua faixa título – o ouvinte se depara com a já conhecida e explosiva Curse of Imhotep, cuja cadeira é cativa nos shows do Primordium. O seu destaque fica para as bem elaboradas bases de guitarra que permitem à banda cadenciar a música e fazer jus ao que trata a sua respectiva letra, a maldição do supremo sacerdote do deus e chanceler do faraó Neterket.

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Cover do disco

Logo em seguida, o ataque sonoro chega pela também conhecida Mummified, a qual não conta conversa e dispara rapidez e peso, sem contar conversa para firulas. Como o próprio nome da música entrega, a letra trata do processo de mumificação praticado pelos egípcios, onde o complexo procedimento, na composição, é descrito de forma bastante lírica.

A quarta faixa – Gates of Re-Staú – mesmo sendo a composição com o menor número de versos do disco, chega rápida e abrasadora, com riffs que se mostram bem entrosados com o baixo e bateria. Esta faixa, juntamente com a anterior, fizeram parte do EP lançado pela banda em 2012, o qual fora batizado como Gates of Re-Staú: conjuration of daemon Apopi.

Logo em seguida o Primordium dispara a excelente Legion – talvez a melhor faixa do disco – a qual adentra o conceito do disco com uma ótima introdução de riffs marcantes e doses de experimentalismos, que contam com Ariane Salgado – Terrorzone – no violino, deixando esta faixa bastante instigante.

Não se perca, agora é a canção intitulada Transcending, a sexta faixa, a qual foi a primeira faixa liberada pela banda – em meados de dezembro de 2013 – enquanto o álbum ainda estava em fase de gravação. Ela se mostra bem agressiva, fato que corrobora ainda mais com o clima que a banda tece no disco.

Dando uma pausa para respirar, eis que surge Khmunu, uma música instrumental que utiliza sopro e percussão, retomando o experimentalismo já apresentado. Esta música, caso a obra fosse gravada em vinil, serviria como um divisor no disco, onde a partir dela se iniciaria o seu “lado B”.

Após mais uma dose de experimentalismo instrumental para oxigenar a “cabeça metal”, a banda recomeça sem dó nem piedade com a Glory of Rá, uma verdadeira saudação lírico-musical ao deus Sol do Egito antigo. O destaque desta faixa fica por conta do poderoso solo executado por Lucas Praxedes, guitarrista do Comando Etílico.

Em sequência, surge de primeira Pillars of eternity, sua harmonia entre os instrumentos calibram o tom da sua execução, com direito a efeitos de um sino sendo tocado, fazendo jus aos seus versos “pillars of eternity, colossal mystic place, silent and peaceful, meditation about the past”.

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A décima faixa – Negative confession – se inicia seduzindo o ouvinte pela sua introdução e continua com uma condução muito bem cadenciada, sendo arrematada, no final da sua execução, com um belo solo de guitarra.

Eis que de repente chega a vez de Osiris (Arcanus XX), faixa que fecha o disco com chave de ouro. Com boas bases de guitarra que servem para contar a história das almas que passarão pelo crivo do julgamento de Osíris, e de suas mãos ganharão sua devida sentença.

Assim, em torno de quarenta minutos, se finda a ode conceitual do Primordium pelo Egito antigo, usando como contexto semântico o livro dos mortos, sendo distribuído em onze faixas que estão repletas de bases de guitarra arrebatadoras e magnéticas, baixo vigoroso e o “terno” espancamento incansável da bateria, pois mesmo tratando como temática o livro dos mortos, o Primordium, com seu Todtenbuch, se mostra bem vivo, figurando, com plena certeza, no panteão das bandas de metal do RN, além de marcar a sua estreia na modalidade full length com um dos melhores lançamentos nacionais deste ano.