“Neuromancer”, de William Gibson, completa 30 anos

Por muito tempo a ficção científica foi relegada à marginalidade, o mundo da literatura enxergava com bastante preconceito essas histórias que tinham como mote o avanço da tecnologia, para muitos, fantasias que jamais se realizariam. Misturadas ao nosso cotidiano, a busca por uma verossimilhança era epígrafe desses escritores.

De certo, concordo que comparar as ficções científicas a obras de Vitor Hugo, Charles Dickens, Liev Tolstói, Jane Austen etc. parecia para a época uma ideia bastante absurda, pois estamos falando de autores que tocavam em temas de cunho político-social, tratavam de revoluções, preconceitos, conflitos, buscavam retratar suas sociedades, tentavam escrever sobre o tema no qual estavam imersos.

Contudo faço uma questionamento, querido leitor, será que autores como Júlio Verne, H. G. Wells, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dickens e William Gibson não buscavam retratar temas que estavam em voga? Será que suas mentes fantasiosas não estavam inferindo uma discussão sobre o nosso provável futuro? Será que não tratavam de uma possível revolução que estava para vir?

De fato, são perguntas complexas de responder. Não podemos afirmar que Júlio Verne, ao escolher a Flórida e o Cabo Canaveral como plataforma de lançamento do seu foguete para a Lua, estava prevendo o futuro ou mesmo interferindo na escolha da NASA. Mas podemos sim, ao analisar as historias de H. G. Wells, Júlio Verne, William Gibson e outros, concluir que os mesmos escreviam sobre os conflitos do suas épocas. Júlio Verne abordava em seus escritos o vislumbre e as possibilidades trazidas pelo capitalismo e os avanços da tecnologia; H. G. Wells, ao contrário, invoca nas suas mais fabulosas histórias as mazelas e os medos que o capitalismo poderia trazer para a sociedade.

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William Gibson

Seguindo essa asserção, podemos destacar um dos autores mais famosos da literatura da ficção científica: William Gibson, e sua obra mais famosa, Neuromancer, lançada em julho de 1984 e traduzida para o português em 1985. Há três décadas esta obra tem marcado a vida de muitos fãs da ficção científica, balizando gerações sobre assuntos que envolvem a coexistência de um mundo virtual na vida cotidiana da humanidade. Tanto que este ano a Editora Aleph, para comemorar os trinta anos da obra no Brasil, lançou uma edição especial criando um pequeno boxe conceitual e permitindo que a obra ganhe uma sobrevida. Indico a edição a todos os colecionadores e fãs do autor.

Gibson, ao escrever sua obra, estava imerso nas mais profundas discussões sobre o avanço da tecnologia computacional, tratava-se de um autor que presenciou a nova geração midiática que trazia consigo o surgimento do espectro magnético e a internet como os principais meios de transmissão de informação. Trazia em seu espírito o medo que a virtualidade poderia causar na história da humanidade, tanto que buscou desenvolver uma narrativa aonde o mundo virtual tinha como principal aspecto gerir a circulação de dados e informações do setor vital da economia e da vida sociocultural. Todos aqueles que foram banidos desse novo mundo, virtual,  eram relegados à marginalidade social, obrigados a perambular pelo mundo real buscando sua sobrevivência.

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Linda edição comemorativa de Neuromancer da Editora Aleph

O livro tem como enredo a historia de Case, um dos melhores hackers (ou cowboys como são mais conhecidos dentro do Sprawl), que muitos já haviam visto. Porém, essa fama somada à ambição e ao desejo de correr riscos fizeram com que o jovem sofresse um grande dano ao ser descoberto tentando roubar seus patrões.

Neuromancer foi um dos livros pioneiros do Movimento cyberpunk, a obra foi um dos primeiros escritos a apresentar a ideia de ciberespaço, Gibson mostra um mundo decadente,  onde o poder verdadeiro não está em governos, mas nas grandes corporações multinacionais e em seus sistemas gigantescos de computação. Percebe-se então o quanto o autor já estava em sintonia com as políticas que marcariam as próximas gerações.

Neuromancer desenvolve um cenário com tramas intricadas, delírios virtuais e reais, mercados negros nos quais o ser humano é apenas mais um console nas mãos das grandes empresas. Um livro genial no qual William Gibson, mesmos desconhecendo as especifidades do mundo da informática, conseguiu criar um enredo complexo, mas com fim coeso e estruturado.