Não é de hoje que tenho um problema sério com feriados, especialmente aqueles prolongados advindos de comemorações populares que, nem sempre (ou nunca) têm um significado realmente relevante. Mas vá lá, tudo bem, que cada um tenha o seu motivo pessoal de comemoração. Meu problema com o Carnaval é mais embaixo e está relacionado muito mais com mudanças comportamentais que com a ausência de um significado (deixemos essa discussão para o Natal).

O Carnaval historicamente tem sua relação com máscaras e fantasias extravagantes. O grande problema, ao meu ver, é que temos trocado as máscaras concretas por máscaras sociais e me parece que tudo o que fazemos no Carnaval é perdoável porque, enfim, é Carnaval. Mais parece que essa época do ano é realmente um período para extravasar, como enfatizam as canções e publicidades associadas à data. As pessoas bebem feito filhotes de gato famintos; não se importam de serem inconvenientes, de estarem sujos, fedorentos e ainda assim esperarem receber um “sim” de uma dama ou cavalheiro companheiro de farra; as relações parecem se liquidar nessa época do ano, já tive conhecimento de casais que acabam seus respectivos namoros apenas para estarem “livres” durante o esperado Carnaval, mas depois o sério e fortificado relacionamento é retomado e as mágoas são perdoadas em nome das boas memórias carnavalescas; sem contar que os amigos não respondem a mensagens e raramente atendem os telefonemas, pois não querem ser incomodados durante aquele período de submersão nos prazeres que apenas aquela semana, de todo o ano, vai lhes trazer. O Carnaval é como um retiro espiritual às avessas.

As pessoas não costumam pensar muito nesse período, elas só vivem. Passados os cinco (seis, sete?) dias, as reações vagueiam entre 1. preferir não lembrar nada do que aconteceu, pois não fariam nada daquilo normalmente se não estivessem sob o efeito do Carnaval 2. lembrar de tudo, nos mínimos detalhes, saudosamente, como um época que não mais voltará, apesar de as pessoas, as bebidas e os lugares não terem sido extintos após o Carnaval 3. rir descontroladamente todas as vezes que a palavra “Carnaval” é mencionada 4. enrubescer fortemente quando alguém comenta os acontecimentos daqueles dias.

Além da síndrome de fim do mundo, em que todos agem como querem, sem medir consequências, no Carnaval tudo para. É justificável o atraso em um compromisso porque, obviamente, é Carnaval. É completamente plausível não responder emails importantes, os serviços não funcionarem, e as pessoas sumirem do mapa para qualquer assunto que não seja exatamente relacionado à festa em questão.

O Carnaval, assim como toda festa de massa, me parece uma comemoração supérflua. Um motivo para se libertar da rotina, como se as pessoas não gostassem de suas vidas e precisassem de qualquer razão para se ver em uma posição diferente da que ocupam por alguns dias, que seja. E não julgo àqueles que desejam “fugir” de suas rotinas. Eu mesma o faço – o tempo todo. A diferença é que não preciso de um Carnaval para tanto e, por esse motivo, não espero ansiosamente e contabilizo os dias para a chegada da data em questão.

Mas não me entendam mal, leitores. Já gostei muito do Carnaval. No idos da minha menor idade, já me fantasiei de índia, cigana, bruxa, e muito provavelmente outros adereços dos quais não me recordo para estes fins. Acho até que não faz mal sonhar, fingir que somos super heróis, personagens de cinema, odaliscas, palhaços… mas tenho a impressão que esse objetivo tem sido alcançado de forma mais competente no Halloween (vejam só a ironia). Para o Carnaval, sobram (em geral, é sempre importante lembrar que há exceções) as fantasias sociais: machistas viram “virgens”, homofóbicos viram “quengas”, puritanas se permitem fazer o que seus valores (ou amarras pessoais) não lhes permitiriam normalmente, tímidos viram “pegadores”, mulheres que em dias normais seriam tidas como “imorais” por saírem às ruas nuas se tornam inquestionáveis modelos, e os problemas de todas as vidas, milagrosamente, desaparecem pelo simples motivo de que é Carnaval. Ponto.

E como, diz a sabedoria popular, tudo tem seu lado bom, o Carnaval também traz algumas melhorias para a vida: o supermercado está mais vazio, o cinema mais seleto, as ruas mais tranquilas, a vizinhança mais silenciosa… usufruamos, então.

Sobre o(a) autor(a)

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

Postagens relacionadas

Deixe um comentário

Your email address will not be published.