Nicolas Nardi: escrevendo como quem grita

Nicolas Nardi é poeta. Técnico em química. Começou os cursos de Letras, Publicidade e Teatro – e não terminou nenhum deles. Ele fez muitos livros artesanais e fanzines, entre eles sanduíche de amortadela não é macdonalds e Chá feito. Natural de Novo Hamburgo (RS), o poeta de 20 anos deixou sua terra natal e, desde então, colou poema em poste, participou de antologias e leu poesia em alguns lugares pelo Brasil. Atualmente, Nicolas está divulgando seu mais recente livro de poemas – Ninguém comprou ingresso para o meu enterro -, lançado pelo selo doburro, de São Paulo. Conversamos com ele sobre poesia, publicações e sua vida. Confira:

img_6020O CHAPLIN: Você é inquieto, Nicolas? Produz muito, faz várias coisas… e não conclui os cursos? 

NICOLAS NARDI: Eita. Que nada. Nem produzo tanto assim. Queria produzir mais. Sempre fico me cobrando isso, mas rola sempre fazer uns fanzines. Uns desenhos “loki”. Dá pra se divertir. Faculdade é uma coisa que eu ainda não entendi. Canso muito rápido. E sempre se produz pouca arte. No teatro tem um pouco disso também. Galera tem tempo pra produzir coisas coletivas e não rola muito pra mim. Me coloco no meio disso tudo. A gente fica inventando burocracia.

O CHAPLIN: E como você chegou na poesia – ou como ela chegou até você? 
NICOLAS NARDI: Eu fazia música quando tava na oitava série pras meninas. Queria mostrar todo aquele meu amor teenager pra elas. Aí fazia musica e mandava, mas era bizarro. Mal sabia tocar e cantar muito menos. Pra poesia não precisa ser afinado, aí achei mais tranquilo.
 
O CHAPLIN: Antes de lançar o Ninguém comprou ingresso para o meu enterro, você publicou muitos fanzines, antologias, imprimiu seus poemas pela cidade… E de onde surgiu a necessidade pra publicar esse livro? E como você chegou até o Burro, uma editora de São Paulo?
NICOLAS NARDI: Cansa fazer fanzine. É uma das coisas que mais gosto de fazer, mas é um saco. Chega nos rolés e ninguém dá valor. Ninguém quer comprar. Não quero ficar rico com isso – tenho noção da vida (risos) – mas quero divulgar meus trampos, e não da pra ser de graça. Quis mudar a estética da coisa toda, fazer livro, ver qual ia ser o retorno. Não tem jeito. Livro a galera bota mais fé, mesmo no rolé independente. O livro te valida. Acho esquisito e é mais caro. Tenho que vender a 25 os mesmos poemas que vendia nos fanzines a 5, ou dava pras pessoas de graça. Às vezes fico puto mesmo e digo “peguem essa merda aqui e leiam, por favor, obrigado. Continuem gastando seus dinheirinhos em cerveja e dizendo que não tem grana, mas leiam isso aqui”. A gente tem que ter uma autoestima da porra pra dar esses roles, tem que acreditar muito no trampo que a gente faz. Se não, não vai durar. É foda ficar questionando o tempo inteiro se o que tu faz é tão ruim assim que não vale uns trocos. No fim é a galera que não lê porra nenhuma mas paga de toda alternativo que me irrita. Acabo usando isso de material pra escrever mesmo, que alivia um pouco. É bom fazer um poema que diz tudo que a gente quer gritar na cara das pessoas. Só que é trabalho da porra: ampliar um simples “vai se fuder todo mundo”. Porque a raiva resume tudo. E escrever é isso: pegar essa raiva e não deixar ela acalmar. Tem que ir domesticando ela. Ensinar ela a falar a tua língua e te dizer exatamente o que ela quer. Quando eu consigo isso, me sinto um deus doido. É poder demais.
O selo doburro chegou pela Balada Literária mesmo. Esse foi o meu terceiro ano. Já conhecia [o selo] desde a primeira vez e achei do caralho. Foi um choque chegar em SP em 2014 e ver todo agito que tava rolando. Toda galera que tava movimentando literatura. No rolé independente em Porto Alegre, eu me sentia meio sozinho. Pouca gente agita por lá; a galera fica muito em casa produzindo e deu. Aí tava com o livro pronto e dei pro Minchoni [editor do selo doburro], que leu e topou lançar o livro. Pedi ajuda pra Larissa, minha ex namorada, para fotografar a capa – e ela nem é fotógrafa – e ela arrasou no trampo. Pensamos juntos na ideia e ela clicou.
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O CHAPLIN: Seus textos são bem humorados, eu diria. Você os considera assim? 
NICOLAS NARDI: Ser poeta tem um tanto de desespero, de buscar alternativas pras pessoas lerem o que tu escreve. Uso o humor porque acho que ele é mais amigável e não deixa de ser reflexo de como eu tento levar a vida. Não tem jeito: o humor abre mais portas. É o jeito que achei de xingar na poesia sem ser rude. E gosto também de usar o humor pra fuder com tudo depois, fazer a pessoa achar engraçadinho e aí vem alguma coisa que deixe o poema denso. O humor me deixa mexer nos meus fantasmas tomando um cafezinho e comendo chocolate.
O CHAPLIN: Como definiria seu estilo? E suas referências? 
NICOLAS NARDI: Eu sei lá o que é esse lance de estilo. Não sei se tenho, mas tento buscar a minha maneira de ver as coisas. Uma vez, um professor de literatura na faculdade me falou uma coisa que sempre lembro: depois do modernismo e da possibilidade do verso livre, parece que fazer poesia ficou mais fácil, já que não tem métrica. Aí ele mesmo negou isso. Que o problema do verso livre é que tu precisa achar teu próprio pulso, a tua própria métrica. A tua maneira de dizer aquilo. É bem isso. Cada um tem que achar o seu jeito. A gente precisa ser real consigo mesmo na hora de escrever. E isso é difícil, porque tem poeta que te deixa contaminado com o pulso dele e aí tu sai escrevendo que nem o outro.
A poesia do Nicolas Behr é um berço pra mim. Eu admiro muito o trabalho dele. E ele ter feito a orelha do meu livro foi muito foda. Fiquei emocionado dele ter topado e ter pensado em algo loki. Orelha é sempre meio blasé. Outras referências são Mutarreli, Miró da Muribeca, Marcelino Freire, Campos de Carvalho e Biagio Pecorreli, que são dessa nova geração de poetas e mandam muito. Adilia Lopes entra nuns tetos que acho lindo. É claro, os clássicos Drummond e Bandeira sempre são referências, não tem jeito. Arnaldo Antunes, durante algum tempo, sempre acabou me cutucando no que escrevo. Foi um dos primeiros caras a me abrir portas na cabeça pra pensar a escrita.
Saindo da literatura para o cinema, Charlie Kaufmann pra mim é foda (salvo os filmes que ele foi diretor e ele viajou de ruim mesmo) e Lars von Trier (Os Idiotas é um dos filmes mais loki). Além deles, os desenhos surrealistas do troche e tudo que é experimental e bizarro, tudo que é do it yourself e tosco. Por favor. O tosco é o melhor lugar.
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Foto: Camila Boff

O CHAPLIN: Há muito de morte no que você escreve. Desde o título até as próprias temáticas, os próprios poemas. Você repara nisso? O reconhecimento enquanto poeta antes e depois da morte, do qual você trata super bem humorado nos textos, é uma questão para você? 

NICOLAS NARDI: Minha mãe é mãe solteira. Meu pai era casado com outra mulher e ela teve um caso com ele. E disse que queria ter um filho e foda-se ele. Precisava só de um homem pra fazer euzinho aqui. Então via pouco meu pai, só que ele era depressivo pra porra. Até ele morrer, uns três anos atrás, eu o ouvi o tempo inteiro dizendo que pensava em se matar. Ele vinha me visitar uma vez por mês, a cada dois meses. E era uma bad da porra. Imagina: eu, criança, ouvindo isso. Cabeça de criança é esponja e não deu para não absorver isso. Quando ele morreu foi foda. Por isso, escrever sobre a morte é libertador pra mim. Porque eu tinha medo. Fiquei pensando se um dia eu ia ficar pensando tanto na morte como ele pensava. E agora penso mesmo. Mas ser poeta é um pouco disso: é descobrir a merda que te atormenta. Foi difícil chegar nela e assumir. Mas eu não tenho como fugir disso e acho que ninguém tem. A morte é muito relacionada com a fama nos tempos de hoje. Morrer é um sucesso. Tava tendo uns tetos esses dias que viver só tem sido bom porque um dia vou morrer e alguém vai ler minhas coisas e achar irado. Morrer valida mais que publicar livro.