No Coração do Mar. E dos Homens.

Ron Howard sempre gostou de contar histórias baseado em fatos reais. Foi assim com Apollo 13, Uma Mente Brilhante, Cinderella Man e Rush. Dessa vez ele vai um pouco mais longe, se baseando nos relatos que inspiraram o romance Moby Dick, mas sem fugir do fio que sempre norteia suas histórias: o lado humano.

A narrativa é contada pelo olhar de Thomas Nickerson, um marinheiro de primeira viagem que embarca no baleeiro Essex, capitaneado pelo rico e inexperiente George Pollard enquanto Owen Chase, um experiente primeiro imediato que espera por sua chance de virar capitão, é quem realmente tomas as rédeas da viagem, criando uma situação tensa para a tripulação.

O artifício narrativo do filme, que consiste em um personagem que conta uma história do passado para outro personagem, não é novo (Forrest Gump é um exemplo clássico), mas é eficiente. A fotografia se equilibra entre tons de azul e sépia, dando a sensação de um relato histórico, de imagens que pulam das páginas de um livro antigo.

Além da história de uma baleia que ataca incessantemente um navio e sua tripulação, mesmo após o naufrágio, No Coração do Mar tem entre suas metáforas tópicos importantes e atuais, como a busca pelo sentimento de pertencimento e reconhecimento de um individuo a um determinado grupo ou nação (Owen é lembrado constantemente de que tem o nome de um forasteiro), da prevalência do dinheiro sobre os valores (qualquer semelhança entre os ricos donos de baleeiros e os grandes magnatas industriais de hoje não é mera coincidência) e por fim do prevalecimento da natureza sobre os interesses humanos (Jurassic Park já batia nessa tecla quando Ian Malcom disse ‘a vida encontra um meio’), o que nos faz pensar – especialmente em tempos de documentários como Blackfish – até quando vamos brincar com a natureza inconsequentemente?

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Como todo filme que se passa no oceano, No Coração do Mar tem seus momentos enfadonhos, os quais não teria sido um erro acelerar um pouco mais. O filme, no entanto, ganha pontos por não ser um puro espetáculo exibicionista da baleia branca. O animal é usado de maneira calculada, apenas quando necessário (mesmo se tivesse aparecido mais um pouco não seria nenhum pecado), mantendo a aura de terror e mistério que o envolvem. Mais do que o ataque de uma baleia a uma tripulação, o tema do filme é a volta para casa. Isso é bem pontuado quando Owen recebe de sua esposa um pingente antes de partir e deixa com ela a promessa do retorno.

A cena mais tocante do filme é quando o personagem de Chris Hemsworth troca um olhar com a baleia. Naquele momento, vendo todas as cicatrizes que ela carrega e sentindo as suas próprias, Owen Chase e ela são um só. Num sentido mais profundo (e voltando ao tema de como tratamos a natureza), Ron Howard esfrega na cara da audiência que cada ataque que cometemos contra os animais e o meio-ambiente são ataques contra nós mesmos e não passarão sem consequências.

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No Coração do Mar tem jeitão de clássico, de filme antigo. Usa bem menos efeitos especiais do que a maioria dos filmes atuais, não possui nenhuma inovação narrativa nem conta com uma das fotografias mais surpreendentes dos últimos anos. Obrigado, Ron Howard, por me lembrar que um filme não precisa disso para ser bom.