"O amor é estranho": um filme de classificação e reflexão para todas as idades
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Maricona (ou sua redução, cona), tia e susi. Esses são alguns dos termos criados pelos gays para se referir aos seus colegas acima dos 40 anos. O teor pejorativo dessas palavras confirma o desprezo da comunidade LGBT para tratar de maneira realista a velhice. Em um submundo em que a estética e a virilidade são as categorias mais importantes nas relações (casuais ou não), a velhice é um assunto diametralmente oposto à homossexualidade.

Isso é bastante evidente na pequena quantidade de filmes gays que falam de homossexuais mais velhos. Nesse sentido, é um alento que “O Amor é estranho” (Love is Strange, 2014, EUA), filme que trata com naturalidade e convergência desses dois temas, tenha alcançando sucesso de público e crítica, com exibição simultânea em 112 salas nos EUA e em grande festivais, como o Sundance e o do Rio em 2014, além de impressionantes 98% de aprovação no Rotten Tomatoes.

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John Lithgow (esquerda) e Alfred Molina (direita) brilham no filme “O Amor é Estranho” como um casal gay de Nova York

Por aqui, o filme estreou em poucas salas nas capitais do centro-sul do país. “O Amor é estranho” é a história do casal gay George (Alfred Molina) e Ben (John Lithgow) que, após a legalização do casamento gay em Nova York, decidem oficializar a união de 40 anos em uma cerimônia bastante bonita e alegre, com a presença dos parentes e amigos. Porém, a alegria dura pouco tempo. Após formalizar o casamento, George é demitido da escola católica onde lecionava música, mesmo sendo um veterano professor. Essa é a primeira das sutis críticas que o diretor Ira Sachs (o mesmo de “Deixe a Luz Acesa”) e o roteirista brasileiro Maurício Zacharias fazem à reação das pessoas e das instituições ao amor gay. Por que uma instituição que prega o amor ao próximo demite seu melhor mestre só por causa de sua orientação sexual? O amor é estranho!

Por causa da demissão de George, os dois precisam vender o espaçoso apartamento onde moram e, enquanto buscam um lar mais barato, ficam vivendo de favores nas casas de amigos e familiares. Separados. Ben vai morar com o sobrinho Elliot (Darren Burrows), sua esposa Kate (Marisa Tomei) e seu filho Joey (Charlie Tahan); já George se acomoda na casa de dois amigos policiais, também um casal gay. O difícil momento coloca à prova, mas também fortalece o relacionamento do casal.

John Lithgow é o artista plástico Ben, que vai morar com a família do sobrinho

John Lithgow é o artista plástico Ben, que vai morar com a família do sobrinho

O grande trunfo da obra é complexificar a discussão sobre o amor, sem apontar antagonistas a não ser a própria trama de aproximação/distanciamento. No momento em que os dois personagens principais começam a conviver com aqueles que os acolheram, o filme discute a convivência próxima e a intimidade forçada com quem só era familiar e afetuoso de longe. Sachs mostra o quão estranho é esse amor à distância que, uma vez tão perto, passa a ser áspero e intruso. Esse aspecto pode ser observado na micronarrativa que mostra como o tio Ben é um estorvo para a família de seu sobrinho, principalmente para Joey, no momento da descoberta de sua sexualidade, e Kate, uma escritora que trabalha em casa e precisa de silêncio na residência.  Essa micronarrativa tem um contorno mais dramático, com espaço para discussões e as paranoias de Kate, muito bem interpretada pela atriz Marisa Tomei, garantindo alguns respiros de comédia para o filme.

Também é estranho perceber como George, que dorme cedo e é amante da música clássica e das belas artes, pode ser amigo de seus anfitriões, dada a dificuldade de se adaptar à rotina de seus amigos mais jovens que sempre dão festas em casa, fazendo com que o sofá onde dorme seja constantemente ocupado. Esse microconflito, no entanto, é mais tênue e só pode ser notado em sagazes passagens que só a parceria Sachs e Zacharias poderia proporcionar. Por exemplo, quando um dos convidados de seus anfitriões pergunta a George se ele conhece o megasucesso “Game of Thrones”, a surpreendente resposta do personagem interpretado por Alfred Molina é “nunca ouvi falar”.  No meio de tudo isso, George e Ben precisam lutar para que a distância não transforme o sentimento que nutrem um pelo outro em mais um “amor estranho” quando estão juntos.

Alfred Molina é o professor de música George, que vai morar temporariamente com amigos mais jovens após demissão

Alfred Molina é o professor de música George, que vai morar temporariamente com amigos mais jovens após demissão

A dificuldade dos relacionamentos, em contraposição à visão romanceada deles, é um assunto bastante explorado nos filmes de Sachs, desde “Vida de Casado” (2007) e “Deixe a Luz Acesa” (2013). Se a intenção é fazer uma narrativa natural, verossímil, esse é um dos vieses corretos, que é reforçado com a escolha adequada de um casal de protagonistas maduro, como Molina e Lithgow. Os dois atores entregam ótimos desempenhos, interpretando seus personagens com sensibilidade, doçura, como se realmente fossem feitos um para o outro. Além de fazer os mais jovens refletirem sobre temas como envelhecimento e ressignificação dos desejos, borbulhantes na tenra idade, a escolha de protagonistas longe do padrão de beleza vigente transformam “O Amor é Estranho” numa experiência mais emocionante.

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