Acho sempre muito difícil falar sobre pessoas pelas quais tenho afeto… acho que por medo de ser passional, meloso demais e não conseguir dizer o que quero. Por isso, aviso logo: vou falar sobre alguém de quem gosto muito e por quem tenho “um apreço imenso” – Vitória Lima -, ou seja, estou sobre o risco de incorrer em tudo o que disse anteriormente. Outro dia, pedi sua mão em casamento e fui, elegantemente, rejeitado numa festa em que ela celebrou a cerimônia de casamento mais linda que já vi – cheia de poesia e citações de textos maravilhosos. Mas, saindo do campo das minhas frustrações amorosas, quero falar sobre seu trabalho poético, reunido em dois livros, infelizmente, esgotados: Anos Bissextos (1997) e Fúcsia (2007).

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Nessas duas obras, Vitória construiu um verdadeiro caleidoscópio, muito rico em cores e formas; os livros apresentam uma vastidão de possibilidades poéticas. Vários dos poemas dialogam com textos de outros poetas, como é o caso de ‘Fantasia para uma visita ao supermercado’, inspirado no poema ‘A supermarket in California’ do norte-americano Allen Ginsberg, com versão em português de Eduardo S. Nasi. De modo geral, pode-se dizer que suas composições são pequenos retratos, fragmentos de vida escritos com o momento presente, nos quais predomina o tom vibrante e feliz fúcsia. Há, contudo, espaço para outros tons, que revelam amores, dores, alegrias, tristezas, fantasias, anseios e percepções de um sujeito presente em cada momento da vida, um sujeito que promove a criação de uma mistura incrível entre vida e arte, que só poderia ser alcançada por alguém que, confessando-se, divide com o outro suas impressões sobre a vida. Não há imparcialidade em relação aos seus versos, ora suaves e acolhedores, ora fortes e duros. De algum modo, em algum momento, faz-se uma conexão e a mágica está feita – você se reconhece representado.

Vitória-LimaComo já disse anteriormente, a admiração que temos (escrevo esse trecho junto com Thays) por ela vai além de sua poesia. Tivemos o prazer de conhecê-la e de com ela conviver nos últimos dois anos; o prazer de conversar, tomar café na cantina da universidade, dialogar sobre a vida e compartilhar ideias. Assim, a paixão foi só aumentando e, por isso, quando Vitória resolveu aposentar-se, de imediato, soubemos que precisávamos marcar esse afastamento com alguma coisa especial. Foi quando começamos a pensar em fazer um primeiro sarau com suas poesias.

Em abril deste ano, realizamos o sarau “Entre cores e versos” que ocorreu no bar “Largo da Bohemia”. A preparação para este e para os outros que viriam, acabou gerando uma série de encontros literários que passaram a acontecer coordenados pelo Ariel Coletivo Literário, sendo o último no XIV Festival de Artes de Areia. Todos esses encontros foram marcados por muita alegria, descontração, sensibilidade e leituras muito bonitas dos textos selecionados por alguns amigos, colegas de trabalho, e alunos (algumas pessoas são tudo isso ao mesmo tempo).

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Dessas reuniões, surgiu a ideia de gravar um CD, editado por Gregg Mervine, com alguns dos poemas. O áudio da seleção de 29 poemas está disponível no perfil do soundcloud do Ariel Coletivo Literário. Dos vinte e nove, destacamos a brincadeira metalinguística de Apelo, com versão também em espanhol, o efeito de encontro de vozes de Rodopio, a força da mulher vanguardista de Menina mal comportada, a crítica e a dor de 11 de setembro, e a leveza Descompromisso. Cada um dos poemas tem a sua beleza, acessem e aproveitem. Destacamos ainda Alegría, Cadê e Waiting. A vontade que temos é colocar links para todos os poemas, mas… Só pra finalizar, queremos agradecer a Stive Anderson, que gentilmente criou o canal do grupo e dizer que os nomes dos leitores estão disponíveis nas próprias faixas.

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Sobre o(a) autor(a)

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Professor de línguas e literatura inglesa, apaixonado por literatura, música, cinema e por tudo aquilo que se pode fazer a partir disso. Escuta a mesma música milhares de vezes e adora viajar. Capricorniano com ascendente em aquários, vive uma permanente confusão entre a estabilidade e a racionalidade do primeiro e a imprevisibilidade e imaginação do segundo. Em outras palavras, é um caos.

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2 Responses

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      Vitoria Lima

      Tenho amigos sensíveis e generosos que me fazem carinhos como este que Tiago e Thays fizeram, e apoiados por Solha. sou uma mulher e uma poeta feliz. Obrigada, amigos

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