O Desequilíbrio de “Koyaanisqatsi”

Desde a origem da humanidade, percebemos que o homem sempre continuou em uma escala evolutiva. Através de mudanças ideológicas e comportamentais, a forma como o mesmo atua ou age no mundo é gradativamente modificada. Enquanto sociedade, deixamos nossa passividade de lado e, a cada passo dado, nos tornamos seres mais ativos na reformulação do meio em que vivemos. Contudo, o fato de termos nos tornado ativos perante o espaço físico nem sempre trouxe benefícios. De um certo modo, existe a possibilidade de nossa evolução ter causado um certo desequilíbrio na natureza e é exatamente levantando esse hipótese que Godfrey Reggio lança em 1982 o primeiro filme da “Trilogia Qatsi” intitulado Koyaanisqatsi.

O título da obra “Koyaanisqatsi” remete a um termo do vocabulário hope, língua de nação indígena dos Estados Unidos da América. O termo tem como significado “a vida em desequilíbrio”. Ao assistirmos o filme, somos induzidos a refletir sobre os aspectos da vida moderna e contemporânea que fazem com que vivamos em desarmonia com a natureza e o espaço em que estamos inseridos, dentre esses aspectos, podemos perceber a pressão exercida enquanto sociedade, pelo ineditismo e pelas inovações tecnológicas que tomam conta do cotidiano das pessoas, de forma cada vez mais rápida e ativa.

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Tais aspectos citados anteriormente podem ser vislumbrados nas cenas onde vemos várias torres de eletricidades cruzadas de maneira excessiva nos vales americanos, assim como nas cenas de implosões de vários edifícios em diversas cidades do mundo. Em algumas dessas implosões podemos estabelecer nesse momento uma relação de desequilíbrio social causado pelas mudanças das necessidades de uma cidade ou de uma sociedade, que agora tem como principal busca novas forma de produções e vivências com o meio em que se relaciona.

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Godfrey Reggio utiliza alguns elementos bem interessantes no filme como o uso de “situação-reviravolta-deslance”, por exemplo: em determinada parte da obra fílmica, o mesmo coloca para representar a situação imagens do mundo natural com o equilíbrio estabelecido; simultaneamente, a reviravolta é representada por imagens de quando o homem inicia a interferir no equilíbrio do mundo e o deslanche é mostrado na apresentação da profecia Hopi que vislumbra um apocalipse causado pela “intervenção do homem no mundo natural”. Porém para a criação e o desenvolvimento desse elemento, Godfrey Reggio tem como auxilio a trilha sonora composta pelo músico Phillip Glass, já que é a música que dita o ritmo da narrativa. Fica perceptível que a montagem de cada segmento do filme segue de maneira sincronizada o ritmo sonoro, buscando, dessa maneira, dar fins narrativos a música principalmente quando cada melodia tem como objetivo chamar a atenção para acontecimentos distintos.

Podemos perceber que, ao mesmo tempo em que imagens de paisagens naturais são passadas, partes das músicas com ritmo lento as acompanham, de forma calma e tranquila, ao meu ver, para passar a ideia de tranquilidade e harmonia; à medida que as imagens vão se modificando, passando a retratar o caos, o desenvolvimento tecnológico e a superlotação de indivíduos nos ambientes urbanos, paralelamente a música vai também modificando-se, tornando mais acelerada, rítmica e desarmoniosa.

A obra Koyaanisqtsi torna-se de grande importância para o estudo da simbologia no cinema devido à forma como foi desenvolvida a narrativa fílmica. Trata-se de um filme sem diálogos e sem narração, composto sonoramente apenas pela trilha, as imagens são basicamente documentais, as informações contidas no filme são passadas somente pela disposição de imagens e som, dois elementos narrativos da obra que interagem entre si por todo o filme. A forma e o espaço de tempo como às imagens são mostradas, casando com o desenvolvimento das músicas, desenvolvem uma linearidade subjetiva que tem como proposta fazer o espectador pensar sobre a maneira como ele está inserido no meio em que vive.

Por Luana Medeiros de Arruda, especial para o blog O Chaplin