Marcelo Serrado e Alexandre Nero se destacam no filme

Crô – O Filme: comédia aposta na simplicidade e no carisma do seu personagem

A Globo encontrou um novo caminho para as pedras! Que sacada genial investir em spin-offs para o cinema de suas novelas e, assim, convocar não só apenas o seu público cativo das telonas, mas também o das telinhas para consumir mais um de seus produtos. A experiência veio com “Giovanni Improtta”, 2013, dirigido e protagonizado por José Wilker. O filme falava sobre um dos personagens mais carismáticos da novela “Senhora do Destino”, que foi ao ar em 2004. Não sei o quão recompensante foi a iniciativa para a emissora do plim-plim mas antes mesmo que o ano acabasse foi lançado “Crô”, 2013, com a direção do competente Bruno Barreto. O personagem pertencia ao núcleo cômico da novela Fina Estampa e alcançou grande aceitação pelo público. E não se enganem, ainda tem mais vindo por aí. Boatos de que, próximo ano, será a vez das Empreguetes de Cheias de Charme encherem as salas de cinema. E quem duvida de que irão?

Marcelo Serrado interpreta o divertido ex-mordomo Crô
Marcelo Serrado interpreta o divertido ex-mordomo Crô

Crô-O-filmeFui assistir a Crô sem muita pretensão. Não acompanhava a novela e conhecia o personagem apenas das gargalhadas que escutava vindas da sala de TV durante as suas aparições. O que me conduziu a querer ver o filme foi o trailer, que me arrancou alguns risos. A direção de Bruno Barreto e os trejeitos de Marcelo Serrado também em muito colaboraram. Então, na segunda semana de exibição da comédia, logo quando tive um intervalo na rotina, fui ao cinema conferir “Crô”. Posso dizer que não me arrependi e engoli, satisfeita, os receios que sempre me assolam quando vejo subprodutos novelísticos nos cinemas.

Talvez seja dispensável apresentar o personagem principal, mas vamos lá: Crodoaldo Valério, vulgo Crô (Marcelo Serrado), é um sensível e divertido ex-mordomo que se torna rico após herdar a fortuna da finada patroa Teresa Cristina. Agora ele vive em uma mansão decorada com muito bom gosto, em companhia dos empregados e amigos Baltazar “Zoiudo” (Alexandre Nero) e Marilda (Kátia Moraes). Apesar de todo o requinte e luxo, Crô ainda sente um vazio existencial e não obtém sucesso em nenhum dos trabalhos aos quais se dedica. Então, através de um sonho em que ele conversa com sua idolatrada mãe (Ivete Sangalo), Crô se dá conta de que esse vácuo só será preenchido por uma mulher: uma diva para servir e chamar de deusa. Começam então as entrevistas às candidatas a patroa, que vão desde as senhoras ricas da mais alta sociedade carioca até picaretas que querem o “melhor mordomo do pedaço” com o propósito de massagear o ego; não podemos ainda esquecer que uma cosplay de Taylor Swift e a “diva do Pará” Gaby Amarantos (que aparece descontrolada e exagerada) também disputam a vaga de “Nefertiti”.

Carolina Ferraz interpreta Vanusa, a vilã da história
Carolina Ferraz interpreta Vanusa, a vilã da história

Com o modesto orçamento de R$ 3,2 milhões, a produção de Crô foi sábia em não apostar em efeitos caros e um roteiro de difícil realização. Ao contrário, há pouca diversidade de cenários mas os atores estão entrosados e bastante eficientes em seus papéis. O roteiro, simplista e sem muitos desdobramentos, tem como ponto alto a comédia de bom gosto, usando e abusando do carisma do personagem principal. Marcelo Serrado já foi bastante elogiado por sua atuação na novela, mas seria injusto não lhe dar os devidos créditos também no filme. Chega a parecer inimaginável que o ator que interpreta Crô não seja também gay, tamanha é a entrega ao papel. Há quem diga que se trata de um personagem demasiadamente exagerado, e estereotipado, mas atire a primeira pedra quem souber quando o humor genuíno não sustenta essas características.

Marcelo Serrado e Alexandre Nero se destacam no filme
Marcelo Serrado e Alexandre Nero se destacam no filme

“Crô – O Filme” não se propõe a ser sério e inteligente. O seu propósito é, ao meu ver, atingir e divertir todos os nichos, desde os fãs de “Fina Estampa” até o cinéfilo assíduo que foi assistir ao filme com críticas afiadas na ponta da língua e se vê obrigado a engoli-las, desencorajado, quando se rende às primeiras gargalhadas provocadas pelo cativante Crô. Portanto, ao leitor que não viu e pretende dar uma chance ao filme, não se prenda à produção modesta e por vezes falha, nem mesmo ao roteiro nonsense, não espere um exercício de genialidade ou uma comédia com viés crítico ou político “à la Woody Allen”. O maior mérito do filme é ser divertido, engraçado e despretensioso, e para isso é muito bem auxiliado pelas excelentes atuações de seus atores, em especial Marcelo Serrado e Alexandre Nero. Dito isso, “Crô” cumpre satisfatoriamente a sua função de “cinema entretenimento” e é, ao lado de “Minha Mãe é uma Peça” e “Cine Holliúdy”, uma das raras produções nacionais de comédia que me agradaram esse ano.