Era uma tarde de domingo e coloquei na cabeça que queria ir ao cinema. Tenho dessas, às vezes, subitamente, resolvo que só serei feliz se for ao cinema e ai de mim se não for: minha alegria será comprometida pelas próximas horas, talvez dias. Eis que acesso os três sites das diferentes empresas de cinema da cidade. Já tinha visto todos os filmes em cartaz (os mesmos, nos quatro cinemas), com exceção de dois: a animação “Um Time Show de Bola” e a controversa comédia “Jackass Apresenta – Vovô Sem Vergonha”. Infelizmente, já seria inviável pegar qualquer sessão de “Um Time Show de Bola”, opção que seria mais certa e cuja porcentagem de possível frustração era menor, então restou-me a infame produção do mais infame ainda selo “Jackass”.

Confesso. Nunca havia assistido a nenhuma das produções do famigerado Johnny Knoxville, mas me recordava de alguns colegas do tempo da escola comentando entusiasmados sobre algum dos filmes. Ora, é uma comédia, deve ser apenas um filme engraçado, no máximo um pouco bobo, mas engraçado, pensei. Quanta inocência. Vá lá ser ingênua, mas não ter me dado ao trabalho de assistir ao trailer da produção antes de iniciar a minha odisseia foi, no mínimo, burrice.

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Decidida a aproveitar a viagem para conhecer também o outro novo cinema da capital potiguar, o Cinépolis do Norte Shopping, atravessei a ponte rumo ao lugar num domingo à noite, há dez dias da noite de Natal (a festividade). O drama começou no estacionamento que, de tão lotado, me fez cogitar voltar para casa. Mas minha persistência foi maior e agradeci mentalmente por ter saído de casa com um boa margem de tempo até o horário da sessão. Após comprar os ingressos (vale reafirmar que também nessa filial o Cinépolis dá um show de atendimento) e selecionar as poltronas (realmente adoro essa parte), aproveitei os minutos que restavam para o início da sessão e fui à praça de alimentação, onde comprei fast-food para jantar no cinema, já que não daria tempo fazê-lo antes do filme. Atenção, a informação a seguir é de interesse público: quando voltei ao cinema para adentrar a sessão, a funcionária educadamente me explicou que não é permitido entrar com comida que não seja comprada na bomboniere do Cinépolis dentro do cinema, mas que daquela vez passaríamos pelo fato de o público ainda não estar habituado. Fica a dica.

Estava tudo indo muito bem, até que um grupo de seis ou sete rapazes inconvenientes adentraram à sala de exibição. A partir daí começaram as piadas pornográficas, comentários exagerados e desnecessários e o barulho irritante que se propagaria por praticamente toda a sessão. A combinação do filme “Jackass” e dos “jackass” da vida real não poderia ter sido mais inapropriada. Paciência, se não der cabimento, vão parar, pensei. Achei que a incômoda presença no cinema já seria o ápice do problema, mas novamente, estava enganada.

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Em uma das primeiras cenas, Johnny Knoxville, que interpreta o avô desavergonhado de 86 anos Irving Zisman, desesperado por transar, prende o pênis em uma máquina no meio da rua. O pênis vai e volta, sendo esticado como uma borracha, por minutos a fio, o que foi estímulo para várias piadas infames três fileiras acima da minha. Perguntei a mim mesma se eu era a única a não ver graça em um pênis velho preso e sendo esticado no meio de uma rua movimentada. Talvez eu não tivesse um senso de humor tragicômico, vai saber. Em outra cena, uma mulher de pernas abertas é mostrada para o público. “Gostosa, abre mais”. “Ah, boa, cabe nós três aí dentro”. Foram os comentários mais sutis que fui obrigada a digerir.

Voltando para o filme e tentando deixar os nobres amigos de lado (esforço hercúleo), fazem parte da seleção de cenas da obra: o roubo de um supermercado por um idoso e uma criança; um velório falso de uma senhora idosa em que o marido agradece a Deus por sua morte; um bingo em que Irving engole tinta e dá em cima descaradamente de todas as mulheres presentes; e o momento que o pequeno Jackson Nicoll (Billy, o neto de Irving) precisa carregar o avô bêbado em um carrinho de supermercado pelas ruas até um drive thru de um fast-food. O pior disso tudo: a grande maioria do elenco é composto por pessoas de verdade, ou seja, elas não sabem que aquilo se trata de cenas de um filme e sofrem constrangimentos reais para só depois serem informadas da “piada”. O ápice, contudo, foi a cena da boate, onde Irving foi “caçar” algumas “black ladies”, ou seja, moças negras, e as abordava sem qualquer senso de respeito. Ainda na boate, ele tira a calça e começa a sacudir o pênis na direção de qualquer um que estivesse por perto. Aquilo foi deveras difícil de digerir para mim e minha reação foi levantar e deixar a sala de cinema pouco depois da metade do filme, corroborada é claro, pelo saco cheio das piadas escatológicas que se seguiam incessantemente.

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“Ah, que pessoa chata, vai assistir Jackass e espera o quê?”, vocês me indagam. Desculpem-me os que gostam de piadas que se utilizam do grotesco, do hediondo e de aberrações para arrancar risos. Isso sem falar das piadas politicamente incorretas, machistas, racistas e vários outros “istas”. Utilizar uma criança para esses fins me pareceu ainda mais errado. Esse era para ser um texto tragicômico, mas acabou de tornando uma expressão de revolta, perdoem-me, leitores. A verdade é que a comédia “Jackass Apresenta – Vovô Sem Vergonha” não me arrancou nenhum riso e conseguiu entrar para a minha lista das “piores merdas já realizadas no cinema”.

Quanto ao Cinépolis Norte Shopping, o serviço e o atendimento são impecáveis, só evitem sessões com teor asqueroso num domingo à noite.

JACKASS PRESENTS:  BAD GRANDPA

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