Certas escolhas na vida podem te fazer gastar mais energia do que você está acostumado, então quando fiz a escolha de me dedicar a este site e buscar coisas legais para quem o lê, foi decidido. Ser repórter, fotógrafo e jornalista não é nada fácil, mas tudo tem suas recompensas, tudo tem seu lado positivo e posso dizer: vale muito a pena. É uma paixão, é buscar o novo ou o velho que se renova, é estar no meio da cultura, é tentar ouvir tudo ao que está ao seu redor ao mesmo tempo e poder parar alguns minutos do seu dia e prestar atenção mais uma vez em um detalhe.

O saldo depois de um festival cansativo, para quem vos escreve, foi muito positivo. Apesar de o evento ter durado apenas três dias (de 26 a 28 de novembro), das 19h às 22h, foi tempo suficiente para as pernas, joelhos e corpo doerem, mas é uma dor que valeu a pena. Ouvir bandas novas (às vezes nem tão novas assim) pela internet pode soar muito bom, contudo pode soar falso também, afinal de contas um bom estúdio, produtor e tecnologia resolvem qualquer falha na música (não é exagero não), tudo pode ser consertado, basta querer. Um festival que coloca uma banda no palco, um público e jurados ao lado, torna mais difícil tentar inventar, como é possível dentro do estúdio.

Então voltemos ao dia 26 de novembro para saborear o que rolou de melhor durante o festival. O dia foi aberto pelo som do garage rock dos Coyotes, uma das bandas que soam bem em estúdio e conseguiram transmitir a mesma mensagem ao vivo. O carisma de Júlio Cardoso (vocalista) foi um dos pontos altos, com seus cabelos cacheados e compridos, não parou um só segundo, fazendo com que o público realmente curtisse aquela “vibe” que só o rock n’ roll sabe transmitir. Coyotes pode agradar ao público que espera aquele som mais pesado, ao som mais leve, devido a sua pegada mais clássica e raiz dentro do rock n’ roll, que não soa genérico e muito menos mais do mesmo. São pontos positivos a serem destacados, mas também há aqueles que precisamos levantar como negativos. Durante a passagem de som tudo ocorreu bem e durante a apresentação uma porção de problemas aconteceram (que foi muito bem servida, diga-se de passagem). Mas os rapazes do Coyotes souberam lidar bem com isso.

Coyotes em sua apresentação no primeiro dia

Coyotes em sua apresentação no primeiro dia | Foto: Matheus Geres

Em seguida uma das bandas que eu mais aguardava no festival, aquela que tinha um som mais pesado, vivendo o bom e velho hard rock em suas músicas, Santa Vingança era a minha aposta da noite. Os integrantes possuem uma energia muito forte, não economizam em volume e pulos. A apresentação mostrou-se forte, firme, com um vocalista que possuía uma excelente disposição em se comunicar com o público, passar o seu recado em forma de música (com muita boa música, por favor). Apesar de toda dedicação, o pouco tempo de passagem de som, a banda foi a mais massacrada (eu não consigo pensar em outro adjetivo, é o primeiro que vem a minha mente, me desculpem jurados que lerem isso). A banda foi mal julgada por todos os membros do júri, por motivos bizarros: som alto, muito pulo, má equalização. Por mais que alguma coisa se “sobreponha” a outra, o som foi claro e direto para quem queria ouvir, uma pena que os jurados não captaram a musicalidade apresentada e muito menos a intenção.

Abro adendo (mesmo que polêmico), ali teve uma falha astronômica quanto à escolha dos jurados para aquele dia, quem estava ali eram pessoas acostumadas ao pop rock, sertanejo, axé e samba. Pelo amor de Deus! Não se deve falar de algo que não se conhece, é pedir para fazer uma grande burrada ou ser mal criticado por falar besteira. Deixo minha revolta (Rioooot!) acerca disso, Santa Vingança era uma banda para passar para a final sem dúvida alguma, mas foi injustiçada por um júri que não entendia do velho senhor rock n’ roll, acabo aqui meu protesto.

Santa Vigança, a segunda banda do primeiro dia

Santa Vigança, a segunda banda do primeiro dia | Foto: Matheus Geres

Depois de passado no palco do festival duas excelentes bandas, que os jurados gostaram até a página cinco, era a hora de uma banda com sonoridade completamente diferente se apresentar, Demoroots com seu som cheio de ritmos muito bem por seus amantes da década de 60. O reggae tinha espaço dentro de um festival que até então tinha veia dentro do rock. Percebe-se então o cuidado da banda em querer agradar o júri ali presente, não exagerando em volume ou presença de palco (que acho um desperdício se foi feito pelo motivo da crítica da banda anterior), então Demoroots colocou aquele clima de paz e amor naquele auditório. O gingado do corpo agora era diferente daquele que apreciávamos nos Coyotes. Cada instrumento foi cuidadosamente regulado, fazendo a banda ter apreciação dos jurados, além dos gritos histéricos das fãs, que não eram poucas para uma banda que começou há pouco tempo. Este show foi até então o mais contagiante para o público, apesar de um vocalista acomodado em se movimentar somente junto ao ritmo da música, conseguiu embarcar com sua voz e som os jurados e público ali presente.

Demoroots no palco com o seu gingado

Demoroots no palco com o seu gingado | Foto: Matheus Geres

O cansaço já tomava conta de um corpo que trabalhou o dia todo, mas a banda que se apresentaria naquele palco, faria qualquer enfado cantar junto com suas letras bem escritas e sua sonoridade moderna, como a de The Killers, The Strokes, Coldplay, etc. Dec 04 foi uma banda competente, o melhor “frontman” que se apresentou até então, chamando o público para cantar junto, para curtir aquela “vibe” junto com todos da banda. Ícaro, apesar de seus poucos anos de vida, mostra-se um vocalista competente, que permite entrar em destaque, dar espaço também aos outros integrantes da banda, e levar cada pessoa que assistiu ao seu show a desfrutar o máximo.  De certo que a banda mereceu estar entre as finalistas, a energia e a sinergia com todos naquele auditório fizeram os jurados acreditarem naquele som que tem a cara do Dec 04.

Dec 04 encerrando o primeiro dia de festival

Dec 04 encerrando o primeiro dia de festival | Foto: Matheus Geres

O primeiro dia foi cheio, era necessário descansar para o próximo dia que tão logo chegou. No segundo dia de festival, as bandas seriam ainda mais extremistas em seus sons, então logo subiu ao palco um homem com seu banquinho e violão, Fernando Zanda. Eu não acompanhei de muito perto o som que ele fazia antes de comparecer ao festival, mas confesso que me agradou e muito. Fui surpreendido com uma sonoridade simples, que está fundamentada na MPB e no reggae, não teve um que não se apaixonou por aquele som tipicamente brasileiro, com letras que falam sobre nossas vidas, sobre a simplicidade dela, as ondas do mar, a chuva que caí à tarde e aproveitamos cada instante. Apesar das críticas dos jurados que sentiram falta de uma banda, vejo que Zanda subiu com a banda toda (se é que você me entende), uma banda para o som que ele fez naquela noite não faria sentido algum. Claro que é algo que ele pode pensar no futuro, mas aquelas músicas são completamente preenchidas com violão e voz, isso é tudo.

Fernando Zanda Abrindo o segundo da

Fernando Zanda abrindo o segundo dia | Foto: Matheus Geres

Luneta Vinil trouxe uma verdadeira torcida organizada para o show (o que é isso, minha gente!). A sonoridade indie rock e experimental pareceu ser um tiro certeiro para conquistar quem estava naquele auditório, a banda mostrou-se jovem, carismática, com a voz grave de Elis que levava a todos a levantarem suas mãos e cantarem juntos. Os problemas técnicos foram novamente coisas que atrapalharam o show, mas que pareceram ser rapidamente driblados pelo carisma que a banda trouxe para o palco. Mais uma merecida banda que passou para as finais, contando com apenas 6 meses de história, a trupe mostrou que ama o que faz e demonstra esse amor com música e muita simpatia.

Luneta Vinil foi a segunda banda da segunda noite

Luneta Vinil foi a segunda banda da segunda noite | Foto: Matheus Geres

O Reggae voltava para aquele palco, com o projeto do artista Ottah. Apesar de ter alguns anos na estrada, o seu projeto é bastante novo e teve o festival como principal motivação para concretização. Ottah gravou sua primeira música em estúdio graças ao festival. O que é muito bom, né? Com dois violões e voz, o reggae ainda mais raiz que do Demoroots foi ecoado naquele auditório; interessante ressaltar que a sonoridade das duas bandas são completamente diferentes. O som desta vez era mais acústico, com violões que estavam bem equalizados, deixando a voz se mostrar com bastante qualidade. Foi bem elogiado pelo júri, pelas ressalvas de um projeto bastante novo, onde sempre é possível melhorar diversos pontos importantes.

Ottah em sua apresentação

Ottah em sua apresentação | Foto: Matheus Geres

Chorão não morreu! Chavão, não é mesmo? A presença de Tchello foi impressionante, não simplesmente por ser competente, mas por possuir as características e a presença de palco muito parecida (senão a mesma) que Chorão tinha enquanto em vida. Tchello impressionou com sua voz ao fazer covers unânimes do Charlie Brown Júnior, que levou o público ali presente ao delírio, cantando cada música junto do vocalista. A banda estava em sintonia, e tocaram com bastante qualidade, contudo, pecaram em sua música de trabalho. Enquanto nas primeiras músicas, Chorão estava vivo, nas outras músicas ele se foi embora. Há muito a melhorar, mas de início, talvez a raiz da banda seja seguir o caminho skater e a trilha deixada pelo eterno Chorão.

Tchello levando a galera para pular

Tchello levando a galera para pular | Foto: Matheus Geres

A banda que fecharia o segundo dia de festival traria para aquele auditório o som mais pesado do festival: Savant Inc com seu metal core e post hardcore mostrou que chegou para fazer novos fãs (inclusive eu), uma sonoridade que pode parecer estranha para quem não está acostumado, os vocais guturais, os vocais líricos, guitarras pesadas, baixo forte e uma bateria mais que mostrou que a banda, apesar de fazer parte do movimento underground, é profissional de primeira categoria. O som alto, pulos e gritos foram ainda mais altos do que no Santa Vingança, o que gerou para mim certa insegurança quanto a receptividade ao som, mas por certo neste dia o júri possuía gente especializada. Apesar de algumas críticas, os jurados aceitaram muito bem a postura e sonoridade da banda. Diga-se de passagem, para qualquer headbanger, ver um som daqueles, é pedir para gostar muito do grupo e logo sair atrás das camisetas pretas da banda. Assim terminou o segundo dia de festival, com passagens distintas de som e proposta, resultando nos finalistas: Demoroots, Dec 04, Fernando Zanda, Luneta Vinil e Savant Inc. Só coisa fina, minha gente.

Savant Inc fazendo a galera pular ainda mais

Savant Inc fazendo a galera pular ainda mais | Foto: Matheus Geres

O terceiro dia de festival seria o replay dos dois primeiros dias, onde as bandas finalistas poderiam tocar mais uma vez e corrigir os erros cometidos na primeira apresentação, o que foi muito positivo, porque no terceiro dia o som soava perfeito, bem equalizado e as bandas estavam menos nervosas do que na primeira viagem, obviamente. Talvez tudo que eu possa comentar sobre as bandas no terceiro dia possa parecer retórico, mas o fato é que elas melhoraram muito no quesito de preocupação com a parte técnica. O som saiu melhor para todas as bandas e isso foi muito bom. Quem gostou quando ouviu pela primeira vez, certamente adorou quando ouviu pela segunda vez um som ainda melhor.

Fazendo também participação especial, a banda “Indocentes”, formada por professores da faculdade Eniac, teve uma apresentação que fez a galera cantar junto clássicos da música brasileiras do rock n’ roll ao pop, foi uma apresentação memorável, não havia ali preocupação com sons perfeitos, mas sim em se divertir em cima do palco e a quem os assistia, objetivo cumprido!

Depois de muita especulação as bandas vencedoras foram anunciadas (claro que sempre da terceira para a primeira), então os vencedores foram: Savant Inc (terceiro lugar), Fernando Zanda (segundo lugar) e Dec 04 (primeiro lugar). O terceiro lugar recebeu a premiação de mil reais, o segundo de dois mil reais e o primeiro de três mil reais.

Savant Inc em terceiro lugar

Savant Inc em terceiro lugar | Foto: Matheus Geres

Fernando Zanda em segundo lugar

Fernando Zanda em segundo lugar | Foto: Matheus Geres

Dec 04 em primeiro lugar

Dec 04 em primeiro lugar | Foto: Matheus Geres

O festival saiu com um saldo positivo (principalmente para mim), conhecemos pessoas, bandas e sons novos. Às vezes nossos ouvidos estão atentos ao cenário mainstream e nos esquecemos que no alternativo e independente também há muita coisa boa, boa mesmo!

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Fotos: Matheus Ferreira Geres

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