“O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos” finaliza desgastante viagem à Terra-Média com um pouco mais de dignidade

Quando Peter Jackson (trilogia O Senhor dos Anéis) aceitou substituir Guillermo del Toro (Círculo de Fogo) em mais uma adaptação da obra de J. R. R. Tolkien, pareceu ser seguro apostar em mais uma aventura inesquecível pela Terra-Média. Apenas pareceu… Após quase nove horas em três filmes, a nova investida para além das fronteiras do Condado teve um desfecho até que legal, mas marcado pela viagem desgastante de uma história pequena que fora alongada desnecessariamente.The-Hobbit-The-Battle-of-The-Five-Armies

O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos (The Hobbit: The Battle of the Five Armies) começa justamente onde terminou o filme anterior. Após Smaug (Benedict Cumberbatch de O Jogo da Imitação) atacar a Cidade do Lago, Thorin (Richard Armitage de Capitão América – O Primeiro Vingador ) e sua trupe se apoderam de Erebor. Porém, a quantidade incontável de ouro e a posição geográfica privilegiada da montanha desperta o interesse de outros reinos que movem seus exércitos na direção da Montanha Solitária, culminando numa batalha entre exércitos de humanos, elfos, anões, orcs e wargs, os cinco exércitos citados no título da obra.

The-Hobbit-SmaugA última parte da recente aventura na Terra-Média errou muito ao trazer para o início o ataque de Smaug à Cidade do Lago. Além de estragar o clímax do capítulo anterior, que teve um desfecho abrupto e errado, a sequência não tem tempo de tela suficiente para se tornar memorável. Jogar uma cena de ação na cara do espectador logo nos primeiros instantes também não foi muito inteligente já que a plateia mal teve tempo de se acomodar na cadeira e acaba por não absorver a atmosfera do que está vendo.

Problemas surgidos nas partes anteriores se repetem, como a persona desinteressante de Thorin (fruto da interpretação apática de Armitage), o não desenvolvimento do grupo de anões que, após três filmes, continua difícil olhá-los e dizer seus nomes corretamente e a falta de uma trama mais elaborada, culpa da divisão da história. Armitage, aliás, não tem domínio algum sobre sua interpretação e não convence quando obsessivo pelo tesouro e nem quando tenta ser agradável. Se o rei dos anões fosse esmagado nos primeiros segundos de Uma Jornada Inesperada não faria a menor falta!

THE HOBBIT: THE BATTLE OF THE FIVE ARMIES

Já a falta de ritmo deu lugar à boa dinâmica da ação, favorecida pela estrutura clássica da dramaturgia que divide a trama em três atos. Como A Batalha dos Cinco Exércitos é o terceiro filme de uma história única, todos os momentos mais explosivos estão neste terceiro filme que funciona como um grande terceiro ato. As batalhas mostradas pelas lentes de Peter Jackson e de seu diretor de fotografia Andrew Lesnie (trilogia O Senhor dos Anéis) são espetaculares, ainda mais apoiadas pelos arrebatadores efeitos especiais e pelo lindíssimo visual da sempre atraente Nova Zelândia (sim, a Terra-Média existe!).

Martin Freeman (da série Fargo) evolui em cada aparição como Bilbo. Com um timing impecável para a comédia, o ator também mescla segurança nos momentos mais sérios e esbanja carisma em tela. À exceção de Ian McKellen (X-Men – Dias de um Futuro Esquecido), o elenco mais experiente tem pontas discretas. Cate Blanchett (Blue Jasmine), Christopher Lee (Sombras da Noite) e Hugo Weaving (Capitão América – O Primeiro Vingador) reprisam Galadriel, Saruman e Elrond respectivamente num fan service bobo. Lee Pace (Guardiões da Galáxia) faz de seu Thranduil uma figura antipática enquanto Evangeline Lilly (Gigantes de Aço) e Orlando Bloom (Os Três Mosqueteiros) funcionam como coadjuvantes nas sequências de ação com seus Tauriel  e Legolas.

Martin Freeman (Bilbo)

Martin Freeman (Bilbo)

No fim das contas, a trilogia O Hobbit se mostrou frustrante. Adaptar um livro infanto-juvenil curto para três filmes longos foi equivocado. A trama não sustenta tanto tempo de tela e não se decide entre ser um filme infantil ou adulto, mostrando-se heterogêneo ao tomar escolhas tolas (como anões lavando louça e cantando) e escolhas mais sombrias (como o sem número de Orcs decapitados ao longo das produções). Dividir a história em três pareceu desespero da Warner Bros. em lucrar e excesso de segurança de um diretor que se perdeu em seu sonho de grandeza.

Quando Peter Jackson concebeu a Trilogia do Um Anel, o mundo se debruçou sob os pés do neozelandês. Porém, como sua carreira não deslanchou, o diretor tentou aproveitar a oportunidade de revisitar um lugar conhecido por muitos na literatura e que ele ajudou a criar na sétima arte. Na tentativa de fazer algo grandioso, o homem que deu vida à obra tida como “impossível de adaptar” tropeçou numa que deveria ser mais simples. Após as quase nove horas, a sensação de saudade pelo universo de Tolkien deu lugar a de alívio.

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