David Grossman é um autor israelense que escreve ficção e não ficção. Mesmo tendo escrito vários livros e tendo sido agraciado em 2001 com o Prêmio Sapir, uma premiação do país judeu concedida a uma obra literária de qualidade, apenas 11 livros de sua autoria foram traduzidas para o português pela Cia de Letras. Em seu mais recente lançamento, O Inferno dos Outros, David Grossman traz aspectos aprofundados sobre o humor, principalmente algumas considerações sobre o tênue limite entre o contentamento e a ofensa no humor.

Nesse sentido, O Inferno dos Outros narra a história de Dovale, um humorista que se apresenta com seu número de stand-up em uma casa noturna em Netanya, cidade que fica localizada no distrito central de Israel, e pede para um amigo de longa data ir vê-lo e julgá-lo ao final da apresentação. Entre risos e vaias, Dovale segue firme com seu show, que alterna piadinhas sobre política, questões sócio-culturais e sua história de vida.

Devo admitir que o livro de Grossman não foi escrito para qualquer tipo de público. A narrativa é complicada e requer muita atenção do leitor para perceber as nuances críticas que o autor faz durante a história, com as quais é praticamente inevitável fazer paralelos com algumas polêmicas humorísticas atuais. No entanto, a condução da história não é enfadonha, tornando-se bastante interessante a partir da página 98. Antes disso, tudo é muito obscuro, e parece que o leitor tinha em mãos, literalmente, um show de stand-up impresso no qual, devido à nacionalidade israelense de Grossman, o leitor pode ficar deslocado com algumas expressões e piadas.

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A partir desse ponto citado anteriormente, é justamente quando o leitor conhece um pouco mais do passado de Dovale, desde a sua infância. A história transforma-se de um show de humor para algo extremamente melancólico. Aos poucos, o leitor começa a se conectar com o protagonista e a forma de escrita de Grossman que, ora transmite a visão de Dovale, ora transmite a visão de seu amigo de infância. Vale salientar que a inserção do amigo de Novale, trazendo uma nova perspectiva, é espetacular, pois enriquece a trama.

Quanto ao final do livro, não há surpresas, nem tão pouco melancolia. Enriquecedor seria a palavra certa, pois, além dessa importante reflexão sobre os limites do humor, o leitor enriquece sua bagagem cultural. Afinal, a leitura de O Inferno dos Outros ajuda a derrubar alguns tabus, como alguns costumes israelitas, que em geral são julgados a partir de nossos conhecimentos cristãos, e do sofrimento das pessoas que viviam naquela região durante a guerra que ocorreu em 2006 entre Israel e a Palestina.

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Logo, O Inferno dos Outros é um livro recomendado para jovens e adultos que já tenham uma maturidade literária para encarar a escrita de David Grossman. Com seriedade, o leitor pode ter uma boa visão sobre a importância do autor para seu país natal e para o resto do mundo.

One Response

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    Matheus Geres

    Parece um livro e tanto, não? Me parece bastante delicado no que se trata do tema! Pelo título eu esperava ver um livro sobre humor direto, mas mesmo assim parece transmitir justamente esse linha tênue do que é engraçado e daquilo é agressivo. Quem sabe não o leio mais pra frente!

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