De autoria da apresentadora, jornalista e escritora Paula Dip, “Para Sempre Teu, Caio F.” conta a história de Caio Fernando Abreu, um dos mais importantes escritores brasileiros. Caio Fernando – tal como Clarice Lispector, Ana Cristina Cesar e outros poucos escritores contemporâneos – provou o mel e o fel da vida. Sua literatura, mais do que uma confissão íntima, é um relato firme e maduro da juventude que lutou e abriu caminhos para movimentos de contracultura e libertação sexual entre as décadas de 60 e 70.

Os detalhes da obra ficam por conta dos textos, cartas para os amigos, matérias de jornais e relatos de pessoas que passaram e/ou permaneceram até a sua morte, em 1996, todos cuidadosamente selecionados pela autora. A linguagem do livro é simples e fácil de ser compreendida. Assim como a marca registrada de Caio, Paula escreve como quem conversa, confidencia ou sussurra a convivência que teve com o escritor desde 1979, quando o conheceu na redação da editora Abril.

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O que mais chamou atenção na obra de Paula Dip é o engajamento político de Caio Fernando. O escritor nunca se conformou com o destino que seu país estava tomando após o golpe de estado em 1964; a gravidade da sua insatisfação veio em 13 de dezembro de 1968, com a instauração do Ato Institucional n° 5 (AI-5), que estabelecia a censura prévia para jornais, revistas, livros, peças de teatro e músicas. Ato que, para um escritor engajado e libertino como Caio, significava a limitação obrigatória das suas ações como agente revolucionário.

O Manifesto

O manifesto do coração partido é o título que dou a mise-en-scène de Caio, sempre tão in – insatisfeito, indagado, indigesto – pela situação política e social do país –, mas sempre crente, assim como Chico Buarque de Hollanda, que quando o galo insistir em cantar e o jardim florescer, amanhã vai ser outro dia. Símbolos de esperança para um novo tempo junto à geração de 70.

Relacionando Caio ao vício insaciável e abrasivo da escrita de Gabriel Garcia Márquez, Paula inicia o primeiro dos dois capítulos que trabalham a persona política do escritor. Flashback é o título perfeito, pois o capítulo busca nas recordações dos amigos e nos primeiros livros de Caio a forma pra exibir sua visão clara sobre os tempos de cólera no Brasil, metáfora a um dos sintomas da doença que podem deixar os olhos turvos. E deixar a visão turva sobre os acontecimentos no país era a principal função do AI-5.

Caio iria lutar ao lado da sua geração com a ar(ma)te que melhor impunha em sua mão: a escrita. Não por acaso seu primeiro romance, Limite Branco, é publicado em 1970. Em sua obra, Paula afirma que o romance é uma despedida da adolescência, da imaturidade; uma chegada dura e ferina à consciência adulta, o “enxergar” de uma realidade conservadora e restritiva.

Papai me provocou à hora do almoço, como sempre, mas não reagi. Baixei a cabeça, continuei comendo sem dizer nada. Aí ele parou com a agressão, começou a ser muito gentil e tudo. Então me deu muita raiva. Por que não pode me tratar bem sempre? Será preciso que eu baixe constantemente os olhos para que ele não me magoe? Se for assim, vai me magoar a vida inteira, porque não quero — nunca — baixar os olhos para ninguém. (ABREU: 1970)

Caio não abaixaria os olhos pra ninguém mesmo, nunca.  O pai na obra pode ser visto como um representante do poder dentro da figura familiar, equivalente à sociedade, onde todos os membros da família devem respeito e ordem. O eu-lírico, figura substancial dos revolucionários – e alter ego de Caio –, é decisivo quanto a sua posição. Não muda, não mudará, enquanto o sistema permanecer o mesmo do mesmo: fechado, recluso, num eterno passer sous silence.

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On the Road é o título do segundo capítulo que aborda os mesmos questionamentos políticos do escritor, com uma diferença. Como o título escolhido pela autora sugere, Caio F. agora questiona a vida com o pé na estrada. O escritor teve uma vida desregrada, rebelde, cheia das mais variadas experiência, assim como um dos escritores que tanto admirou – e particularmente eu também –, o norte-americano Jack Kerouac.

Existem dois tipos de escritores: aqueles que, como Borges, trabalham sem sair do escritório e criam uma existência imaginária, e outros como Jack Kerouac, que vão atrás das histórias e vivem com o pé na estrada. Eu admiro os primeiros, mas, sem dúvida, pertenço à segunda categoria. (Caio Fernando Abreu)

Paula também viveu sua fase de estrada. A família, o casamento e outros valores conservadores eram palavras de ordem em plena ditadura, mas a autora não iria se submeter a valores impostos. Paula era livre – foi nisso que acreditou, em 1974. A autora situa a vida andarilha de Caio durante a década de 70. “Caio sempre viveu on the road”, afirma. Em 71, sempre abandonando Porto Alegre atrás do lugar ideal para viver, o escritor volta mais uma vez para o Rio. “Foi nesse Rio de Janeiro efervescente que Caio escreveu grande parte dos contos que integrariam seu terceiro livro, O Ovo Apunhalado”.

O Ovo Apunhalado se tornou, na minha opinião, o registro mais visceral das ideologias de Caio Fernando Abreu diante da ditadura. Na mesma época a censura endurece e tudo o que é publicado passa por uma pesada análise e os contos do livro são proibidos, lidos como uma metáfora do sufoco que amordaça o país. Em entrevista à revista gaúcha Inéditos, em 1977, Caio diz:

Os contos giram em torno dessa unidade vital, o ovo, sangrando pelo punhal do cotidiano seco, pelas muitas formas de opressão, a vida violentada, você é um ovo apunhalado, eu sou um ovo apunhalado. De onde escorre uma gota de sangue maduro.

Ao mesmo tempo em que se tentava reestruturar padrões sociais conservadores, uma flor nascia em meio ao asfalto, furando o tédio, o nojo e o ódio; parafraseando Carlos Drummond de Andrade, é assim que surgia no Brasil os movimentos hippie e tropicalista. Esses movimentos trariam grandes influências no Brasil, e Caio não seria uma exceção. O escritor se tornou disposto, mais do que nunca a denunciar um Brasil fora dos modelos turísticos, onde o samba é de melancolia, o medo é o confete do Carnaval e os novos sonhos nunca entram no gol da pelada que os meninos da periferia jogam em cima do morro.

Abreu & Dip

Caio F. foi um escritor empenhado em documentar o período em que (sobre)viveu. Paula realça esse esforço do escritor em dois capítulos tenros onde perpassa as indagações e vivências do amigo paralelo as suas próprias experiências na mesma época. E aí está outra característica importante que tanto chama atenção e provoca a obra, pois enquanto a jornalista descreve a amizade com o escritor, busca também contar um pouco da sua própria história. Deixo bem claro que são de suma importância os relatos das experiências de Paula Dip, atendo na figura do amigo escritor uma forma caleidoscópica, revelando um ser profundo e intenso.

Caio Fernando Abreu e Paula Dip

Caio Fernando Abreu e Paula Dip

E talvez esse seja o grande mérito do livro de Paula Dip: ela nos convida a sermos íntimos de Caio, ao mesmo tempo em que nos apresenta um quadro histórico sob o viés daqueles que “viveram” intensamente aquela época, nos expondo a um ambiente poético e de meta-ficção narrativa. Esse esforço da autora é digno de uma sobrevivente, de uma artista “oitentista” que, ao explorar a escrita de Caio Fernando, constrói relações contemporâneas sensíveis e afetivas sem perder a efervescência daquela geração irremediável.

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