Com o final da Segunda Grande Guerra, a Itália mergulha em uma crise econômica, política e social. Ocorre um grave aumento não só na divida externa, como também na inflação o que gerou uma desvalorização da moeda. Todos esses fatores fizeram com que o desemprego se alastrasse de tal maneira que as condições já miseráveis dos operários e camponeses cresceram ainda mais, provocando agitações populares contra o governo.

Esse baque econômico também foi sentido na indústria cinematográfica italiana que agora passava por profundas transformações estéticas, psicológicas e financeiras. Os diretores agora procuravam empregar uma nova poética nos filmes, que tinha como princípios a realidade do cotidiano na busca de “revelar e compelir os espectadores a se envolverem com as questões sociais e éticas exploradas”, assim como afirmava a autora Laura E. Ruberto. Nesse contexto surge o movimento cinematográfico que ficou conhecido como Neorrealismo Italiano, um movimento cinematográfico antagônico ao cinema em vigor, tanto tecnicamente quando esteticamente.

O Neorrealismo trouxe como principais inovações para o cinema aspectos técnicos como o uso frequente de atores não profissionais, filmagens fora do estúdio, aproveitamento de restos de filmes e pedaços de rolos, e pouco uso de artifícios de edição, como iluminação artificial e construção de cenários, não só pela falta de recursos para a utilização de tais ferramentas como também pela busca da simplicidade e com o intuito rebelde e revolucionário de quebrar os paradigmas vigentes. Além disso, podemos perceber adição posterior de som, pois, devido à qualidade das filmagens fora do estúdio, os sons diegéticos e até os diálogos de certas cenas precisavam ser refeitos posteriormente.

A característica mais marcante dos filmes e que remete ao Neorrealismo está na trama, em que podemos perceber as condições de vida do povo italiano no pós-guerra. Para isso, Vittorio de Sica usa três temas para desenvolver um contexto que remeta às condições sociais do país, que é a miséria, falta de perspectiva e o desespero representado no personagem Antônio do filme “Ladrões de Bicicleta”, patriarca de uma família italiana que está desempregado e se vê em uma situação difícil para sustentar sua mulher e filho, assim como boa parte da população italiana no pós-guerra.

Outro fator característico do Neorrealismo são as filmagens em locações externas reais, se propondo a sair dos estúdios com o intuito de nos fazer perceber as consequências que a guerra trouxe ao povo italiano: um cenário sujo, pobre e, em alguns momentos, destruído. Para reforçar essa ideia, Vittorio De Sica coloca situações miseráveis em cada local visitado por Antônio e Bruno no decorrer do filme, onde podemos testemunhar vários outros exemplos de famílias pobres, dando a ideia de que a família principal retratada no filme é só uma no meio de tantas miseráveis: vemos uma senhora que vive num pequeno quarto com outras três pessoas; um velho que depende de missionários para se sustentar; dois meninos mendigando por trocados; o próprio Bruno, que em vez de ir à escola, trabalha de engraxate para ajudar a família.

Podemos perceber também o uso frequente de planos conjuntos durante o decorrer do filme e uma recusa de uso de efeitos visuais características marcantes do movimento Neorrealista, atrelado a isso identificamos no filme um caráter documental, pois a câmera muitas vezes tinha como objetivo registrar em vez de alterar a paisagem. O intuito era estampar na imagem como a Itália se encontrava estruturalmente e isso é reforçado por uso de atores não-profissionais e muitas vezes pessoas do local onde se estava sendo filmada a cena, uma iluminação praticamente ambiente e um roteiro flexível que poderia ser alterado dependendo das locações a serem filmadas, princípios esses que foram bastante utilizados por outros diretores do Neorrealismo, como Michelangelo de Antonioni, Roberto Rosselini, Luchino Visconti etc.

Um dos pontos mais marcantes que me fez escrever tal analise é perceber que todos os movimentos cinematográficos “modernos” se basearam no Neo-Realismo: podemos encontrar as mesmas características na Nouvelle Vague, Cinema Novo Brasileiro, Cinema Novo Alemão, Cinema Novo Japonês etc.

One Response

  1. Alba

    Adorei sua análise.Adoro os cineastas e filmes do NeoRealismo italiano. Já fiz curso sobre a histório do Cinema no MIS Campinas.

    Parabéns Cícero, e sucesso em sua carreira

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