Há quem diga que a identidade cultural da América Latina é a desgraça. Levando isso em consideração, os dois primeiros romances do mexicano Juan Pablo Villalobos, publicados pela Companhia das Letras, que fazem parte de uma trilogia sobre seu país, também nos dizem muito sobre uma realidade bem brasileira. Nota-se isso rapidamente. Coincidência ou não, Villalobos atualmente reside no Brasil.

villalobos

O primeiro romance dessa trilogia sobre o México é o ótimo e breve Festa no Covil (2012). Narrado de forma bem-humorada pelo garoto Tochtli, filho de um poderoso narcotraficante que vive isolado num palácio no meio do nada. Um olhar inocente sobre a violência e a brutalidade que já fazem parte de sua rotina. Chama atenção como o garoto sempre se refere aos mortos quase que somente pela palavra “cadáver”. Um exemplo da proximidade com a morte em seu ambiente sórdido. “Sórdido” que é uma das palavras favoritas de Tochtli, junto a Nefasto, Pulcro, Patético e Fulminante.

Festa no Covil“Hoje apareceu um cadáver enigmático na tevê: cortaram a cabeça dele, e nem era um rei. Também parece que não foi coisa dos franceses, que gostam tanto que cortar as cabeças. Os franceses colocam as cabeças numa cesta depois de cortá-las. Vi isso num filme. Na guilhotina colocam uma cesta bem debaixo da cabeça do rei. Aí os franceses deixam a lâmina cair e cabeça cortada do rei cai na cesta. É por isso que eu gosto dos franceses, sempre tão delicados. (…)

Os mexicanos não usam cestos para cabeças cortadas. A gente entrega as cabeças cortadas numa caixa de brandy reserva. (…) A cabeça era de um cadáver da polícia, um chefe de todos os policiais ou algo parecido. Ninguém sabe aonde estão as outras partes do cadáver.”

Sensacional.

Mas nem só da ironia sobre um país refém do crime organizado se trata Festa no Covil. Há traços de um romance de formação, do garoto sem mãe, que precisa se mostrar um “macho igual a um charro mexicano” a todo o tempo, que recebe pelo pai o diagnóstico de seus problemas psicológicos como frescura, “coisa de maricas”. É bem desenvolvido como Tochtli busca refúgio nas roupas de samurai, em seus chapéus, e em sua obsessão por hipopótamos anões da Libéria – presente que ele pede para que o pai compre, para decorar o palácio em que moram. Um ótimo romance de estreia.

Se há traços de um romance de formação em Festa no Covil, no segundo volume da trilogia de Villalobos, Se vivêssemos em um lugar normal (2013) nos deparamos diante de uma obra tipicamente do gênero. Novamente de forma bem-humorada, uma narrativa em primeira de pessoa, a do garoto Orestes, durante os anos 1980. Ele que mora no alto do morro da Puta Que Pariu, numa cidadezinha do México, onde há “mais vacas que pessoas e mais padres que vacas“.

normal

Se vivêssemos em um lugar normal já não é um romance tão breve, e conta a saga de Orestes com um olhar tragicômico da pobreza em meio a uma família enorme – e seus irmãos de nomes gregos(Aristóteles, Arquíloco, Calímaco, Castor, Pólux e Electra), em decorrência de ter um pai fascinado pelo período helênico.

Se realmente vou contar as coisas que aconteceram, vou ter que mandar um monte de gente tomar no cu. Juro que não existe outro jeito, porque a história ocorreu no lugar onde eu nasci e cresci, em Lagos de Moreno, nos Altos de Jalisco, uma região que, para piorar, está situada no México.”, nos avisa Orestes.

À medida que avançamos na história, muito do cotidiano narrado por Orestes nos soa bem familiar. A incompetência(ou ingenuidade?) devota-católica essencialmente latina, a desilusão com o mundo lá fora após uma tentativa de desbravá-lo, e a incompreensão diante das coisas de seu país, confusas demais. Até o próprio título do livro se aplica bem ao que sempre estamos lamentando.

Certamente, ao fim da leitura desses dois romances de Juan Pablo Villalobos, não resta apenas uma ansiedade pela obra de desfecho de sua trilogia, mas uma bem maior curiosidade por sua carreira. Morando no Brasil ou no México, escrevendo em português ou espanhol, ele fala a nossa língua.

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