O novo Hobbit e a desolação da Terra-Média

Peter Jackson (Um Olhar do Paraíso) cravou seu nome na história definitiva do cinema com a trilogia O Senhor dos Anéis. Se existe algo ruim nisso é ele ter consciência de sua relevância, o que, claramente, tem interferido em sua nova trilogia.

Baseado na obra de fantasia O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, a segunda parte da nova (e megalomaníaca) trilogia de Jackson chega aos cinemas com O Hobbit: A Desolação de Smaug. Na trama, Gandalf (Ian McKellen, X-Men: O Confronto Final) e Bilbo (Martin Freeman, Sherlock) ajudam um grupo de anões, liderado pelo herdeiro real Thorin (Richard Armitage, Capitão América: O Primeiro Vingador), a recuperar seus reino e tesouro tomados pelo implacável dragão Smaug (Benedict Cumberbatch, Além da Escuridão: Star Trek).

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Para adaptar O Senhor dos Anéis, a equipe de Peter Jackson transformou os livros, que variam de 300 à 500 páginas (dependendo da edição), em filmes entre 170 e 200 minutos de duração. Mesmo com filmes tão longos, muito material foi cortado. Nove anos e 17 Oscar’s depois, o competente diretor volta ao universo de Tolkien com o sonho (ou seria obrigação?) de fazer algo tão grande quanto a saga do Um Anel, o que pesou negativamente.

Transformar um livro de aproximadamente 300 páginas em 3 filmes desgasta a trama reduzindo-a a esboços de roteiros para filmes de orçamentos milionários. Em A Desolação de Smaug, que custou U$ 270 milhões, é visível o esforço que Fran Walsh, Philippa Boyens (ambas da trilogia do Um Anel), Guillermo del Toro (diretor e roteirista de O Labirinto do Fauno) e o próprio Peter Jackson fazem para preencher o enredo. Porém, o filme apenas infla com cenas longas, pouco desenvolvimento da trama central e subtramas lamentáveis, como o raso triangulo amoroso entre Legolas (Orlando Bloom, Os Três Mosqueteiros), Tauriel (Evangeline Lilly, Lost) e Kili (Aidan Turner, The Tudors).

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Dentre as tentativas de esticar os acontecimentos da película, não entendo porque o roteiro “ignora” o grupo de anões. Bilbo apresenta confiança e coragem maiores que as do filme anterior devido ao Anel, enquanto Gandalf continua sendo o grande personagem da trilogia. Em contra partida, é uma dificuldade para o espectador reconhecer qualquer um dos anões que não seja Thorin. As únicas informações que temos do grupo são a posição de Thorin como o herdeiro legítimo do trono e a necessidade do grupo em recuperar o reino. E essas informações foram jogadas, de forma nada didática, em Uma Jornada Inesperada. Desafio qualquer um que viu o filme sem ter lido o livro a lembrar os nomes ou alguma característica dos 13 anões! O grupo do herdeiro real ocupa o papel de escape cômico, assim como os minions de Meu Malvado Favorito.

Já a inerte interpretação de Armitage faz de Thorin um personagem insípido e sem carisma, incapaz de fazer o espectador se cativar com sua situação, diferente de Aragorn (Viggo Mortensen, Senhores do Crime), seu equivalente na trilogia anterior.

Apesar dos problemas, A Desolação de Smaug tem pontos positivos. Mesmo achando que a trilha de Howard Shore (A Invenção de Hugo Cabret) destoa dos seus trabalhos anteriores dentro do mesmo universo, sua obra neste filme é muito competente ao criar toda a atmosfera dramática.

THE HOBBIT: THE DESOLATION OF SMAUG

O zelo de Peter Jackson e do diretor de fotografia Andrew Lesnie (Um Olhar do Paraíso) ao dar vida a Terra-Média é louvável. Planos lindíssimos e inspirados nos fazem acreditar que o mundo criado por Tolkien realmente existe. Produção, direção de arte, figurino e cenografia compõem os elementos palpáveis deixando tudo o que vemos em cena o mais próximo do crível. Destaque para a Cidade do Lago, lindamente inspirada em Veneza.

Filmado com a tecnologia de 48 frames por segundo (HFR), A Desolação de Smaug tem um surpreendente tratamento de imagem, resultado deste recurso que substitui os habituais 24 frames. Apesar de alguns efeitos bem artificiais, a tecnologia valoriza a ótima utilização do CGI na maior parte do filme, como na sequência dos barris ou no design do dragão. Da aparição de Smaug no primeiro filme à sequência no fim deste segundo, os efeitos evoluíram absurdamente. É possível ter noção da espessura da pele de Smaug! A escolha do ator para a dublagem e a captura de movimentos do dragão não poderia ser melhor. Em alta com Hollywood, Benedict Cumberbatch é dono de uma impostação vocal incrível. Mesmo com uma excessiva alteração na voz do ator, que dificulta seu reconhecimento em alguns momentos, Cumberbatch é muito feliz em sua interpretação.

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Peter Jackson é um grande diretor e grande fã de Tolkien. Porém, na tentativa de dar ao Hobbit as mesmas proporções épicas do Senhor dos Anéis, o cineasta acabou transformando uma obra amada em roteiros frágeis. O segundo terço do Hobbit é um filme sem ritmo definido, longo e cansativo. Não que o filme seja ruim, mas a decepção pelo que deveria ter sido é maior do que seus acertos.

Por João Victor Wanderley, especial para o blog O Chaplin