O Poço: Uma mensagem crítica ao individualismo

Dentro de um sistema prisional desigual, os recrutados tentam sobreviver ao experimento social onde se encontram em uma prisão vertical de vários níveis. Assim, uma plataforma com um banquete passa pelos níveis superiores aos inferiores, enquanto os que estão acima conseguem garantir alimento suficiente, aos que estão abaixo restam apenas sobras, sendo cada vez mais escasso a cada nível, deixando os prisioneiros que ocupam os últimos andares em um completo caos.

Lançado recentemente pela Netflix, o filme espanhol de estréia do diretor Galder Gaztelu-Urrutia, O Poço é uma daquelas produções que pouco se importam de encher o espectador com informações sobre a narrativa, dando todo espaço as interpretações que venham a surgir.

Apesar do roteiro apresentar alguns momentos mais descritivos nos primeiros minutos, como acontece no primeiro diálogo entre Goreng (Ivan Massagué) e Trimagasi (Zorion Eguileor), o que permite entender a proposta da história, no decorrer do longa os acontecimentos partem para momentos cada vez mais mais sombrios, enigmáticos e propícios a interpretações, explorando de maneira formidável o potencial que o enredo possui.

Pois nem todas as mensagens são óbvias, O Poço utiliza do simbolismo do enredo para propagar uma crítica quanto ao individualismo de classes sociais dos que estão ocupando os níveis superiores ao se esbaldar com o alimento, enquanto os que estão abaixo buscam por soluções atrozes para sobreviver. Apesar do longa não parecer surgir desta proposta, pela época de sua estreia em tempos de pandemia, é possível fazer ligações com o individualismo, o consumo desenfreado e a ausência de solidariedade espontânea com a condição de seus próximos.

Filme de estréia do diretor Galder Gaztelu-Urrutia, mistura ficção e críticas sociais.

Visualmente, o filme parece trabalhar características mais minimalistas ao usar um único cenário em sua maior parte, o que passa ainda mais a sensação de prisão e agonia, principalmente em situações em que há alguma figura que possa causar ameaça. O aspecto cinzento do cárcere, além do enorme poço ao centro aumentam ainda mais a noção de um ambiente mórbido e perigoso, em conjunto a uma trilha sonora inquietante.

O elenco entrega performances proporcionais e condizentes às situações extremas e psicologicamente conturbadas em que seus personagens se encontram, resultado de um trabalho visceral. Destacando as atuações dos já citados Ivan Massagué, intérprete do protagonista Goreng, e o ator Zorion Eguileor, como o veterano Trimagasi. Além deles, o ator Emilio Buale como Baharat e a atriz Antonia San Juan no papel de Imoguiri.

O final pode não agradar muito, já que o filme pouco se propõe a dar explicações exatas ou óbvias dos rumos tomados aqui, mas este pode ser o aspecto que de fato melhora o seu desempenho, com uma direção propícia a interpretações permitindo ao espectador pensar para além da obra. Confira o trailer!