Reconheço um poeta pelo suor. É importante saber que palco e microfone, além de oportunidade, são responsabilidade.

Emerson Alcalde, 32, paulista.  Não é por essa descrição que você vai conhecer esse grande poeta, esse grande lutador. Alcalde é jovem, coordena projetos do Núcleo de Ação Cultural do CEU Três Pontres e (des)organiza o Slam da Guilhermina, um dos saraus brasileiros mais bonitos.

No fim de 2013, ele ganhou, concorrendo com outros quatro grandes poetas brasileiros, o Slam SP, um campeonato de poesia falada que reuniu os ganhadores de cinco slams de São Paulo. Com essa medalha, ele ganhou portas abertas para a Copa do Mundo de Poesia da França, que aconteceu ainda agora, em junho de 2014.

Na competição, 20 poetas de 20 países. Quatro chaves com cinco países, duas semifinais e uma final com seis poetas. Lá, ele ficou logo na chave mais difícil: EUA, Canadá e Quebec. Ficou em 2º lugar. Quem ganhou foi o canadense, mas, pra muita gente, Emerson é primeirasso.

Bati um papo bem bacana com ele, que você confere logo abaixo.

Emerson Alcalde, poeta brasileiro, na França

Emerson Alcalde, poeta brasileiro, na França

O CHAPLIN: Como funciona o Slam da Guilhermina?

Existe desde fevereiro de 2012 e segue as regras internacionais de Poetry Slam. 3 minutos, sem acompanhamento musical, proibido a utilização de adereços e figurinos. É mensal: toda última sexta do mês às 20h

O CHAPLIN: Como você se preparou pra ir a outro país?

Já havia estudado francês e entrei num curso para poder me comunicar melhor.

O CHAPLIN: Houve algum medo de ser prejudicado pelo idioma?

Com certeza. Era minha dúvida até começar o evento. E, numa medida muito pequena, sim, me prejudiquei.

O CHAPLIN: O que contribui pra fazer uma boa performance num evento de poesia oral? Existe algum treino/exercício que ajude nisso?

Não existe regra. Eu me preparo como se fosse entrar em cena no teatro, eu me aqueço, faço exercício vocais, respiração, medito, não bebo álcool, durmo cedo.

O CHAPLIN: Quais as maiores inspirações no quesito slam? O que você curte, de técnica, truque e mestre?

O teatro, o rap. Uso tudo que aprendi no teatro para interpretar e no rap para escrever.

10403005_683254721745601_6929652419676226355_nO CHAPLIN: Nos 3 minutos máximos de cada poema, sua vida poderia mudar. Como ter confiança em cada texto?

Esses 3 minutos são uma eternidade. É muito tempo. E tudo precisa estar contido ali. Eu me preparei muito. Estava seguro, sabia da minha capacidade, mas é claro que fiquei ansioso. Mas eu confio nos meus textos e na ordem que escolhi.

O CHAPLIN:  Enquanto você estava na França, dezenas de pessoas se manifestaram a favor da sua vitória, formando uma torcida linda pelo Brasil. Como ficou o coração, do lado de lá?

Fiquei emocionado. E ao acordar e acessar o Facebook meus olhos se encheram novamente de lágrimas ao ver a campanha #somostodosdaleste, #alcaldemerepresenta, #vaibrasil. Postagens de fotos que tiraram comigo no passado. Que loucura. A responsabilidade aumentou, assim como a alegria. Ver tantos amigos, amigas, conhecidos, desconhecidos e alunos da minha professora do ensino médio com cartolinas abraçando a campanha. Nossa senhora… Eu não podia fazer outra coisa a não ser vencer. E fui convicto ao Teatro de Belleville. Fui com a camiseta do Santos F.C. (os africanos conhecem e torcem para o Santos, sabem e respeitam a história do glorioso alvinegro praiano.)

O CHAPLIN: Fala um pouco sobre o poema e a campanha “Somos todos Da Leste”.

Este poema eu escrevi depois de alguns dias que o MC Daleste havia falecido. Ele morava no meu bairro. E depois de ouvir um funk que fez no violão fiquei com vontade de chamá-lo para fazer um poema-som juntos. E quando soube de sua morte só pensava nisso. E escrevi a minha parte na Argentina. E a poesia fala desse momento, deste genocídio da população pobre, negra e periférica. Que já perseguiu a capoeira, o samba, o rap e hoje persegue o funk. E o pessoal da Zona Leste aproveitou este poema para fazer a campanha do Brasil na Copa do Mundo de Slam com o título da poesia Somos Todos da Leste.

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 O CHAPLIN: Dos 20 países presentes, 4 eram africanos. Por que você acha que nenhum dos 4 passou de fase?

Não saberia responder, mas esta foi uma questão que fiquei me perguntando. Eles eram muito bons. Literalmente griots. Isso quer dizer algo em relação como os franceses veem a imigração africana em seu país.

O CHAPLIN: Você, brasileiro, 2º lugar na Copa do Mundo de Slam de Poesia 2014. O que isso representa pra literatura nacional?

Mostra que o Brasil está no mesmo nível com países de primeiro mundo. O que estamos fazendo nos saraus, slam, rap… é tudo arte de ponta.

O CHAPLIN: De volta ao Brasil, em que você quer ser 1º lugar?

Quero ser o primeiro lugar para a minha família.

* Você pode adquirir o livro (A) Massa, de Alcalde, e também o CD e o DVD do Slam da Guilhermina na Livraria Suburbano Convicto e na Loja Beatz.

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