O que nos faz homens? ou a crise carcerária e empática da sociedade

Lembro-me bem da cerimônia inicial de um Clube do qual participava no Ensino Médio. Sob a coordenação de um sábio e intrigante professor de literatura, reuníamos para discutir fenômenos sociais e cultura. No início, todos de pé.

“O que nos faz seres?”, indagava o mestre.

“A ciência”, respondiam os pupilos.

“O que nos faz homens?”

“A arte, a cultura e o saber”.

Apenas a última indagação (e sua respesctiva resposta) importa a este texto. Ora, torna-se evidente que há uma mediação no processo de tornar-se ser humano. Muito além de nascer e ser concebido no contexto de determinada espécie, é preciso ter acesso aos três pontos colocados por meu estimado professor para ser alçado à posição de “homem” propriamente dito.

 “O homem não nasce homem, ele se torna homem.”

A frase é da professora e historiadora Elizabeth Badinter, num inteligente trocadilho à máxima de Simone de Bevoir (“a mulher não nasce mulher, torna-se”). Badinter faz referência ao fato de que o homem é um sujeito sociável e cultural e que, apenas com apoio da percepção e consciência com as quais nossa espécie foi munida, e acesso à educação e aos meios corretos de socialização poderá ser considerado, de fato, “ser humano”, e não um animal com potenciais de lá chegar.

Logo, ocorrendo a esta jornalista e ao leitor o consenso de que a linha de pensamento apresentada é sensata, o quão insensato pode parecer cobrar humanidade  de seres que tiveram pouco ou nenhum acesso à arte, cultura e saber? A mim, soa obtuso. Tão quanto a possibilidade de julgar igualmente o comportamento de pessoas advindas de contextos desiguais.

Dito isso, quero aqui responder às indagações constantes que surgem entre amigos próximos, conhecidos e desconhecidos acerca dos últimos eventos relacionados à crise do sistema carcerário no Rio Grande do Norte. “Você acha justo a população ser colocada em risco por causa desses bandidos que não se importam com nada? Você não apoia que a polícia entre lá e mate todos que não colaborarem com a ordem?”, perguntam.

Não, respondo por fim.

Explico.

Quantos de nós se preocupam com a formação humana daqueles que são alcunhados de “bandidos” como forma de legitimá-los como a escória da nossa espécie? Quantos de nós, ainda, importam-se em oferecer condições decentes ao princípio básico do direito penal, a oportunidade de ressocialização, em vez de apenas desejar o sofrimento infindável àqueles que são condenados por uma infração?

Posso garantir que a resposta numérica a essas indagações é inversamente proporcional à quantidade de “pessoas de bem” que não quer ser incomodada por tumultos que têm como estopim a falência do sistema prisional e que propõem a morte àqueles que, desumanizados, são cobrados a agir como seres humanos.

Típico da nossa espécie. Clamar por direitos antes dos deveres. Pensar no próprio umbigo antes de praticar a empatia com o outro. É como esperar que alguém que nunca aprendeu a ler seja capaz de escrever um livro. É como esperar que você, cidadão médio que não teve dinheiro para pagar um curso de idiomas e sofreu nas aulas de inglês do ensino básico, possa repentinamente tornar-se um poliglota sem sotaque. É como esperar que seu avô, que cresceu em meio ao tradicionalismo rústico do semi-árido seridoense, enxergue com naturalidade a condição de um transgênero. Nenhum dos exemplos citados são impossíveis, nem devem ser tratados como se fossem, mas carecem de construção e tempo.

Logo, convido você, que se dispôs a ler esse texto até o final, a fazer o esforço de colocar-se na posição de um homem advindo, em geral, de um contexto sofrível em que “arte”, “cultura” e “conhecimento” não passam de palavras bonitas e utópicas, e que, por motivos quaisquer, foi condenado a ter a liberdade privada, e desde então, é mantido em condições desumanas de vida. E falo, seguramente, que você também se rebelaria. Você, que não teria mais muita coisa a perder, também tentaria chamar atenção, de formas que só podem ser imaginadas por quem passa por uma situação semelhante.

E digo mais: você, no auge da sua ofensiva, desejaria, acima de tudo, que alguém lhe tratasse como gente. Para que você pudesse finalmente começar a sê-lo.