O Festival Literário da Pipa (FLIPIPA) é um dos festivais literários mais bem consolidados, bem-sucedidos e atrativos do Nordeste. Além de difundir a literatura e outras manifestações artísticas, o festival é um ponto de encontro entre público e artista num ambiente que beira o paradisíaco. Já passaram pela FLIPIPA nomes como Mia Couto, Zé Miguel Wisnik, Chacal, Antônio Cícero, Jorge Mautner, Jards Macalé, Marina Colasanti e Marcelino Freire, além de um grande número de artistas locais.

A programação do festival em 2016 já está sendo divulgada, e não se pode deixar de atentar para a expressiva falta de representatividade de mulheres entre os nomes convidados. Já estão confirmados, entre os nomes ditos mais relevantes: Gregorio Duvivier, Ronaldo Santos, Charles Peixoto, Estevão Azevedo e Lira Neto. Ou seja, dessa cota dos mais ”famosos”, nenhuma mulher.

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Principais atrações divulgadas pelo evento: não há nenhuma mulher em destaque

Na programação de 2015, entre os 40 nomes divulgados, apenas 8 eram mulheres, sendo apenas uma conhecida a nível nacional: Marina Colasanti.  Já no festival de 2014, entre os 8 nomes de destaque, apenas 1 era de uma mulher.

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Entre os oito nomes de destaque da FLIPIPA 2015, apenas 1 era de uma mulher

A partir da compreensão que um festival literário é uma porta aberta para um primeiro contato com a literatura, e também compreendendo a importância da representatividade feminina em todos os espaços, é impossível não discutir e trazer à tona essa questão. Se uma criança chega na FLIPIPA nessas condições, por exemplo, provavelmente vai se perguntar se aquele é um espaço proibido para mulheres. E vale lembrar: o festival é um espaço para manifestações diversas, como poesia, romance, biografia, pesquisa acadêmica, teatro e performance. Deixaremos mesmo, então, que as crianças cresçam sem saber quem são as mulheres? E, por consequência, muitas delas não saibam quem são, quem podem ser?

As mulheres estão produzindo ativamente, ganhando prêmios, fazendo formações culturais, experimentando várias formas de fazer arte. Cobrar a participação das mulheres é apenas pedir que se abra um leque de visão e se deixe de enxergar mulheres como ”musas” ou ”roubadoras de cena” – porque, na verdade, a cena deve ser de todos e para todos.

Mel Duarte

Mel Duarte critica o machismo, racismo e a cultura do estupro em apresentação na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

Na edição de 2016 do Festival Literário Internacional de Paraty (FLIP), a poeta paulista Mel Duarte deu um show ao recitar seus poemas na cidade fluminense; em 2015, Matilde Campilho foi a campeã de vendas de todo o festival.  E, em tempos nos quais Elza Soares lança um álbum da potência de A mulher do fim do mundo, Campilho está na 5ª edição portuguesa de Jóquei, seu livro de estreia, e a homenageada da FLIP é Ana C., persistir com a exclusão das mulheres nos espaços de debate culturais, políticos e participativos é assinar um atestado de cegueira e machismo.

Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Maria Rezende, Bruna Beber, Alice Sant’Anna, Adriane Garcia, Laura Liuzzi e Conceição Evaristo são poetas do mais alto nível. E o que falar de Ana Elisa Ribeiro, que além de poeta é professora, cronista, pesquisadora? E Clara Averbuck, um importante nome, inclusive, dos debates feministas nacionais? É triste não conhecer Micheliny Verunsck, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura. É triste não conhecer Luiza Romão, Roberta Estrela D’Alva, Carina Castro, Carla Diacov e Lu’z Ribeiro. Por que não trazer a poeta e filósofa Viviane Mosé? Adélia Prado? E por que não ouvir Alice Ruiz, que além de todos seus maravilhosos poemas e composições, contribui fortemente para festivais com suas oficinas de haikai? Vamos conhecer Silvana Guimarães, da Escritoras Suicidas? E Priscilla Merizzio, um nome indiscutível da nova geração?

É também inadmissível não olhar pra o que temos aqui, no Rio Grande do Norte. A poeta Sinhá, por exemplo, que também é artística plástica. E Anna Zêpa, que é atriz. E o que falar de Themis Lima, da Editora Tribo? Luiza de Souza, uma jovem quadrinista de talento e esforço inegáveis?  Não é importante olhar para as muito jovens Bárbara de Medeiros, Carol Vasconcelos e Monalisa Silvério? Adelia Danielli, Letícia Torres, Iracema Macedo, Olga Hawes, Silvia Macedo, Ana Mendes? E ouvir Michelle Ferret lendo seus poemas e falando de cinema? Alice Carvalho, que é cronista, já escreveu um romance e faz parte da primeira websérie potiguar? Beatriz Madruga, contista?

Olhar para as mulheres e reconhecer sua capacidade artística, política, profissional e intelectual pode ser difícil para todos nós, que fomos acostumados a olhá-las através, geralmente, da sombra de um homem, sob um estigma de musa, sob nenhuma expectativa de capacidade. Mas, além de difícil, é necessário e bonito que se quebre essas práticas machistas. É necessário que se veja as mulheres do mundo e desse país fazendo as obras mais robustas de que se tem notícia. Porque não conhecer as mulheres é não conhecer absolutamente nada.

Retificação

A cronista Alice Carvalho, que também escreve romances e faz parte da primeira websérie potiguar, foi confirmada como uma das atrações do VII Festival Literário da Pipa (FLIPIPA).

Resposta da assessoria da FLIPIPA 

“O Festival Literário da Pipa vem esclarecer a publicação do portal o “O Chaplin” e a manchete “Onde estão as mulheres na Flipipa 2016?”. O Flipipa informa que nesta 7ª edição estão confirmadas: Bianca- “Ana Bolenna” (MG), Andreia Galvão (RN), Alice Carvalho (RN); Marta Barcellos (RJ); Sheyla Smanioto Macedo (SP) – Livro Desesterro; Daniela Fossaluza – Cordel Animado – Mariane Bigio (PE) e Bárbara Cristina (RN).

Já passaram pelo Flipipa, Heloísa Buarque de Hollanda, Ana Miranda, Nélida Piñon, Marise Castro, Diva Cunha, Joyce Pascovitch, Danuza Leão, Marina Colasanti, Thelma Guedes, Salizete Freire, Vânia Gicco Tatiana Salem Levy e Luisa Heisler.”

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