Os garotos de Birmingham voltaram

Geezer, Ozzy e Iommi

Formate em sua cachola a visão de um ambiente desprovido de sol, onde fumaça berra a todo instante das chaminés de fábricas e o trabalho pesado ou a birita são as propostas mais viáveis de vida. É nesse calabouço que uns doideiras cabeludos da cinzenta cidade de Birmingham, no Reino Unido, dão origem no final dos anos 1960 a uma das mais reverenciadas e conhecidas bandas de rock de todas as eras, na humildade, falamos do Black Sabbath.

Ozzy Osbourne (vocais), Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) deram início a todo esse papo com o álbum homônimo de 1970. O nome do grupo foi uma sacada de Geezer: ele tinha assistido ao filme I Tre Volti Della Paura” (no Brasil, “As Três Máscaras do Terror”) ou “Black Sabbath” (título em países de língua inglesa).

Adiantando um pouco as coisas, vamos deixar de lado os outros “discaços” (ou não) do grupo, os arranca rabos homéricos, idas e vindas de integrantes, a montanha de substâncias ilegais consumidas, e tentar descrever a última passagem do grupo pelo Brasil, em especial a visita do Sabbath ao solo carioca.

No final de 2011, o site oficial do grupo anunciou a reunião da formação original. A coisa ficou mais séria pois os planos incluíam além de uma turnê, um disco inédito com a formação original, coisa que não acontecia desde 1978. Sem o baterista Bill Ward, e com Iommi na peleja contra um maldito câncer, o grupo conseguiu lançar “13”, que contou com a produção do barbudo Rick Rubin (um amigo jura de pés juntos que ele “alisou” no trabalho e o disco poderia ter sido melhor).


Olê, olê,olê,olê… Ózzê, Ózzê!

A turnê “Reunion” foi programada para atravessar quatro capitais brasileiras: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Outro nome de peso no metal, o Megadeth, ficou responsável pela abertura dos espetáculos. Como é comum, o papo de cabeleireiro nas redes sociais começou mais cedo: Ozzy, na apresentação da Argentina, mostrou uma bandeira do Brasil, sil, sil, irritando os metaleiros de lá e atiçando os bacanas daqui, uma bobagem, diga-se.

O bloco do Sabbath toma a Sapucaí  | Foto: Antonio Laudenir

30 mil pessoas assistiram ao show do Black Sabbath em Porto Alegre e como a real preocupação era o deslocamento ao Rio, nem me dei ao trabalho de pesquisar alguma coisa. De nota, lembro que o G1 escreveu uma nulidade qualquer sobre um carinha pedir a namorada em casamento durante o show. Na terra da garoa o bicho pegou. 70 mil figuras atolaram o tal do campo de marte. Com o fim da apresentação, a turma desceu o farrapo e malhou geral a organização do evento: “som baixo”, apertos, buracos (!?) pela pista, “Megadeth tocando sem tesão” e outras situações constrangedoras. A julgar pelo sorriso nas fotos de uns chapas que estiveram por lá, fica difícil imaginar tudo isso.

Fila foi o que não faltou para entrar na praça da apoteose, local escolhido para a apresentação no Rio. Vendedores de cerva duelavam na rua estreita onde a moçada da pista/arquibancada estava. De umas casas caindo os pedaços, os moradores nem ligavam para o mar de camisas pretas que ali estava e seguiam tomando cerveja e fumando ao som de bregas e funks. Se ali, todo ano, o couro come por conta do carnaval, acredito que não seria um show de rock que iria atropelar isso.

Dave Mustaine tava nem aí e sentou a mão ao lado de seus companheiros de Megadeth. O lourão (ou ruivo, sei lá) doido apresentou um show competente, capaz de animar a moçada que aloprava na quantidade de birita que saía dos bares. Por conta do carisma (que palavra) e da doação no palco, o grupo merece um trocadilho básico com aquele ambiente: “Estação Primeira de Megadeth, nota 10!”.

Megadeth e Mustaine | Foto: Antonio Laudenir

A voz de Ozzy saltou no escuro e esse foi o cartão de visitas do Black Sabbath. Sirenes anuciavam que “War Pigs” iniciaria a noitada. Dali em diante, uma sequência de lapadas como “Into the Void”, “Under the Sun”, “Every Day Comes and Goes” e “Snowblind” mostrariam que mesmo estando Ozzy com suas sequelas e Iommi com equipe médica do lado do palco, eles fariam ao lado de Butler e do baterista Tommy Clufetos um show pesado, sem firulas e sem tempo de mimimi para ninguém.

Acompanhado de um matemático e de um skatista motion designer, pude reparar nos animais que não acreditavam no show que testemunhavam. Do local de onde ouvíamos (em alto, grave e cristalino som) cada pancada do Sabbath, tudo correu na maior tranquilidade para um show de rock. Teve “roda punk”, uma casual troca de tapas, gente se acabando de vomitar e um tio (que depois ficou conhecido como “o garra”) que sacava do bolso, a cada meia hora, um cigarrinho da paz. Famílias, casais e tranqueiras de todas as idades exibiam um longo sorriso no meio da cara.

Ninguém acredita no que vê? | Foto: Antonio Laudenir

Outros clássicos e canções do “13” foram executadas nas quase duas horas de show. Esqueçam a imagem mazelada de Ozzy naquele reality show “The Osbournes”. Inquieto, não parou um segundo sequer e honrou a imagem construída nos mais de 30 anos de batalha. Iommi foi um imortal em cada nota que saía da guitarra e Geezer, o totem espiritual de sempre. Sobre Tommy Clufetos, podemos dizer que o músico bateu em sua bateria como se aquele instrumento fosse um mamute que depois seria assado.

O fim chegava com as notas de “Paranoid”. O pano preto desceu e com ele o Black Sabbath se despedia da Sapucaí e do público carioca. O Brasil ainda os verá pelas Minas Gerais, na última parada brasileira da reunião. Três dias depois, este pequeno relato ficou pronto, o que comprova que os garotos de Birmingham continuam foda.