Conceitos como certo, errado, bem e mal são ensinados às pessoas desde pequenas. A educação feita com base na sociedade é extremamente importante para uma vida harmônica dentro dela. Porém, o que fazer quando pessoas corretas têm suas vidas abaladas pela quebra desses conceitos?

Essa discussão é posta em xeque por Denis Villeneuve (Incêndios) em “Os Suspeitos”. Na trama, os casais Keller (Hugh Jackman, Wolverine – Imortal) e Grace Dover (Maria Bello, Gente Grande 2), e Franklin (Terrence Howard, Na Estrada) e Nancy Birch (Viola Davis, Histórias Cruzadas) têm suas filhas mais novas sequestradas. Após o principal suspeito, Alex Jones (Paul Dano, Looper – Assassinos do Futuro), ser liberado pela polícia por falta de provas, Keller se vê obrigado a agir por conta própria, paralelamente à investigação do detetive Loki (Jake Gyllenhaal, Contra o Tempo).

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Numa obra praticamente irrepreensível, roteiro, direção e fotografia estão em plena sintonia. Aaron Guzikowski (Contrabando) roteiriza sua história de forma extremamente eficiente e verossímil, parecendo baseada em relatos oficiais da polícia. A trama nos apresenta personagens e elementos aparentemente triviais que, sob um olhar mais atento, se encaixam bem na investigação. O maior mérito de Guzikowski é adaptar suas personagens ao desespero crescente.

Os dilemas e conflitos das personagens ganham “cor” na frieza da câmera de Villeneuve e na pálida fotografia de Roger Deakins (007 – Operação Skyfall). A condução “quase sem vida” de Villeneuve enfatiza a dor, o sofrimento e o desespero. Além disso, a tensão, o clima asfixiante da obra e a dinâmica da investigação remetem a filmes como “Zodíaco” e, numa escala menor, “Seven”, ambos de David Fincher.

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Já Deakins recorre ao uso de cores frias que permeiam o filme todo. Cinza, azul e marrom estão presentes na maioria das cenas, seja em objetos, locações ou na vestimenta das personagens. Outro recurso fantasticamente usado pelo diretor de fotografia é o clima. O tempo nublado do início muda quando a trama se aprofunda, passando por fortes chuvas, neve e culminando em chuva de granizo justamente no clímax do filme.

Alguns enquadramentos do filme são capazes de transformar as zonas de conforto dos protagonistas em locais opressivos. Destaque para a cena da vigília em frente à casa dos Birch, onde velas acesas em primeiro plano contrastam com luzes de enfeite da casa ao fundo. Deakins usa o enquadramento e a luz inteligentemente como termômetros da situação.

Film Review Prisoners

À exceção de Maria Bello, que já não gosto de outros trabalhos e que praticamente reprisa seu papel da descartável série “Touch”, e de Terrence Howard, por representar alguém bem distante de sua persona cinematográfica, os demais atores estão incríveis.

Viola Davis com pouco tempo de tela surge de forma marcante, capaz de mostrar toda a dor de sua personagem apenas com expressões faciais. Paul Dano está perturbadoramente convincente como o principal suspeito e Melissa Leo (Oblivion) está irreconhecível como Holly Jones, a tia de Alex. Porém, os grandes nomes do filme são Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal.

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Cartaz do filme

Jackman interpreta com segurança a transição de um homem rígido, disciplinado e familiar para um pai de família desesperado que se afasta dos seus à medida que mergulha na busca pela filha. O temperamento explosivo e as ações agressivas contra Alex contrastam com a devoção religiosa de Keller, que recorre constantemente à fé tentando encontrar a solução e o perdão pela postura contraditória. Nesse ponto, Jackman é extremamente competente expondo os conflitos internos da personagem.

Gyllenhaal faz um caminho oposto ao de Jackman com um personagem aparentemente mais difícil de compor. Loki é o jovem e “implosivo” detetive responsável pela investigação. Sempre contido e compenetrado, Loki parece se identificar com o drama das garotas, impressão reiterada no diálogo com um padre pedófilo quando o detetive insinua ter vivido alguma experiência de abuso quando criança. Com a dificuldade de encontrar evidências, o detetive começa a ser atormentado pela possibilidade de não resolver o caso, o que seria inédito em sua carreira. A acentuação das excessivas piscadas de olhos, tique interessante que Gyllenhaal desenvolveu, reflete muito bem a tormenta do detetive sempre obstinado.

O filme só não é impecável por sua extensa duração. Os 146 minutos afetam diretamente no ritmo. Se o tempo de tela oferece condições dignas para desenvolver bem as personagens principais, a atenção do expectador dispersa em alguns momentos. Mesmo nos mantendo interessados durante todo o tempo, o filme dá a sensação que poderia ter sido bem trabalhado em menos tempo.

Com seu quinto longa-metragem no currículo, Villeneuve faz uma ótima estreia em Hollywood. “Os Suspeitos” é um grande trabalho técnico e um ótimo desenvolvimento de personagens. Dentre os filmes do gênero, pouco deve aos grandes e entrega bem mais que a maioria.

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OBS: Assisti ao filme no Cinemark em Natal. Cheguei faltando 15 minutos para o início da sessão e as 4 máquinas de auto atendimento estavam fora do ar por problemas no sistema. Por isso, a fila para o caixa ficou enorme e APENAS DOIS ATENDENTES estavam responsáveis pelas vendas. Uma falta de respeito com o consumidor e uma demonstração de despreparo.

Por João Victor Wanderley, especial para O Chaplin

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