Em 1954, Mauricio decide que o interior não comportava mais seus sonhos. Pegou os seus tenros 18 ou 19 anos, a pasta cheia de desenhos, a coragem e a esperança e partiu para a capital, com a ideia de que seria desenhista no maior jornal do estado de São Paulo. Confirmou com pai, mãe, tio, tia, amigos e namorada a qualidade dos traços e, concordando todos que o garoto Mauricio tinha mesmo futuro, ele não estava preparado para o desestimulante retorno do diretor de arte da Folha de São Paulo. “Desista!”, disse o chefe do setor para aquele que viria a ser, um dia, o desenhista e quadrinista de maior sucesso no Brasil.

Pelos corredores da Folha, enquanto caminhava carregando cabisbaixo o seu material, Mauricio esbarrou com um jornalista, de texto e redação, que perguntou o motivo de tamanha tristeza. O jornalista, mais experiente, aconselhou o (ainda) jovem garoto a não desistir e ofereceu-lhe um emprego de revisor do jornal, para assim poder aperfeiçoar seus desenhos e manter-se por perto do lugar em que gostaria de trabalhar. Alcançar o posto de desenhista seria apenas questão de tempo.

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Durante o período na redação, Mauricio pedia que lhe encaminhassem qualquer material de HQ’s americanas que chegasse à redação e dedicou-se a, paralelamente ao trabalho, estudar o processo de produção e distribuição do mundo dos quadrinhos hegemônicos americanos. Depois de cinco anos, tendo passado também pela função de jornalista policial, além de revisor, Mauricio recordou que seu negócio era mesmo sonhar, rir e desenhar. A vida real do jornalismo (que não é tão otimista quanto a dos ídolos do jornalismo policial dos quadrinhos) já não dava mais para ele. Como podia ser jornalista policial, se não podia ver sangue? Foi a deixa para o surgimento da primeira estória em quadrinhos publicada no jornal: “Bidu e Franjinha”.

A estória foi bem aceita e o sucesso foi tamanho que logo Mauricio precisou de um auxiliar. E outro. E outro. E outro. Hoje, 54 anos depois do primeiro quadrinho, e com 77 anos de vida, Mauricio de Sousa precisa de 200 auxiliares e tem uma das maiores equipes de produção de quadrinhos do mundo.

“É o que as pessoas chamam de ‘império’, mas não é um império. É só uma equipe organizada que trabalha bem”, ele explicou para o público de milhares de pessoas, que lotaram o anfiteatro da UFRN na noite da terça-feira, 22, quando o desenhista foi uma das atrações para a abertura da XIX Cientec – Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura.

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Mais cedo, Maurício de Sousa participou de coletiva com a imprensa

Eram aproximadamente 19h30 quando a chegada de Mauricio foi anunciada. Logo entra no palco, baixinho, com um sorriso espontâneo (e que parece ser constante), trajando uma blusa quadriculada simples, calça jeans e tênis de passeio. “Que bom ver um público tão entusiasmado, colorido e bonito!”, ele comenta, parecendo surpreso.

Provavelmente, poucos artistas levaram tantas pessoas diferentes juntas às arquibancadas do mesmo anfiteatro. Mauricio de Sousa reuniu bebês, crianças, adolescentes, jovens adultos, pessoas de meia idade, idosos e universitários de Ciências Sociais amantes de literatura clássica russa. O pai da Turma da Mônica, como é conhecido, foi apresentado por Milena Azevedo, roteirista potiguar. Enquanto ela falava um pequeno (e dispensável) histórico de Mauricio de Sousa, ele parecia distraído e empolgado tirando fotos. Aproxima de Sidney Gusman, seu braço-direito e um dos grandes nomes por trás do atual sucesso dos personagens criados por Maurício, e fala, sem se lembrar do microfone, enquanto entregava a câmera fotográfica ao amigo: “Me pegue de costas!”.

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Depois das várias fotos com o público durante a fala de Milena, Mauricio assume a palavra com um discurso que, embora ensaiado, soa convincente e cativante. “Quantas Mônicas existem aqui?” Várias mãos se levantam. “Quantos Cebolinhas? Quantos de vocês têm o cabelo espetado e por vezes falam errado?” Mais tantas. “E quem é gulosa? Quantas Magalis existem?” Outras centenas de mãos erguem-se. “E Casões…?” Dessa vez, menos admitem. “O segredo do sucesso dos nossos personagens é eles se parecerem com cada um de vocês”, explica.

Mauricio começa a contar sobre o processo de criação de seus personagens. Explica que tem dez filhos, e nove deles já têm personagens. O décimo, inspirado no filho caçula, Marcelinho, já está a caminho, previsto para ser lançado ao fim do ano. “Quanto mais filhos eu tivesse, mais personagens eu criaria… o problema é que geralmente as esposas não concordam…”

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A próxima pergunta de Mauricio é sobre a quantidade de pessoas que foram alfabetizadas com a Turma da Mônica. Sinceros, ou movidos pelo espírito do momento, a grande maioria do público ergue o braço. O intuito era mostrar que os personagens criados por ele eram mais que objetos de entretenimento, mas também catalisadores para a educação informal no Brasil.

Depois de contar a história narrada no início deste texto, e sua luta contra a hegemonia estrangeira do mercado de desenho, que quase não dava abertura para artistas brasileiros, Mauricio afirma que, hoje, a Turma da Mônica Jovem, projeto que existe desde 2008, encabeçado por ele em parceria com Petra Leão, é a revistinha mais vendida no Ocidente. “E não tem kriptonita que derrube a Turma da Mônica”, ironiza.

Além de seus projetos atuais mais famosos, o desenhista também falou das graphic novels que tem produzido, mais voltadas para o público adulto, e prometeu ainda as próximas fases da Turma da Mônica, que terão como embasamento referências a acontecimentos da atualidade.

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Logo foi aberto um momento para perguntas do público, que estava afiado. As crianças, obviamente, dominaram, mas também havia fãs adultos, com suas Mônicas e Sansões de pelúcia, emocionadas pelo contato com o ídolo. Uma das primeiras perguntas foi sobre a inspiração para o Chico Bento, o personagem caipira. “Ah, o Chico Bento sou eu. Eu era assim mesmo, andava descalço, corria, aprontava…”, revela.

A certa altura, Mauricio começa a indicar os traços do visionário comercial que também é. Em meio às perguntas, alguém indaga sobre qual a ideia para a Turma da Mônica Jovem, ao que o desenhista responde que o projeto é fruto da sua percepção de mercado. “Hoje temos um público de crianças que pula a pré-adolescência e acha que a Turma da Mônica é coisa de criança”. Para acompanhar a turminha que se recusa a ler as historinhas infantis, foi necessário adaptá-las. Outra pergunta foi sobre o motivo de certos personagens não ganharem revistinhas próprias. Mauricio foi direto e sincero na resposta: “As editoras não se interessam por alguns perfis de personagens, não são vendáveis”.

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A melhor pergunta da noite partiu, contudo, de uma voz infantil e que certamente ficou desapontada com a resposta (ou a ausência dela): “Qual o melhor plano infalível que o Cebolinha já fez?” Mauricio pareceu confuso, pensou por um instante e desconversou: “Depende do número de coelhadas que ele levou!” Então prometeu ao pequeno interlocutor pensar mais um pouco e respondê-lo posteriormente. Compreensível.

Mauricio ainda falou dos projetos futuros que, além das novas fases da Turma da Mônica, incluem o filme do Horácio, o pequeno e filosófico dinossauro, um dos personagens mais interessantes que permeiam as páginas das revistinhas. O filme será o primeiro desenho animado longa-metragem em 3D do portfólio da turma de crianças mais famosas do Brasil, que já foi reinventada em várias outras mídias. “O filme será destinado também para circulação internacional com a ajuda de roteiristas estrangeiros que querem ganhar um Oscar com ele”. Se a expectativa já era grande, com o discurso de Mauricio, ela só aumentou. Segundo ele, a previsão para Horácio chegar às telonas é para aproximadamente daqui a dois anos.

O desenhista admitiu que Horácio é o único personagem do qual não consegue se desprender. Apesar de seu trabalho hoje ser basicamente ler e aprovar roteiros e direcionar as histórias criadas por sua equipe, Mauricio conta que o Horácio ainda é totalmente roteirizado e desenhado por ele.

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A “mini Mônica” Cora Letícia era uma das tantas crianças no público do anfiteatro | Fotos: Leila de Melo

Encerrou a palestra com a exibição de curtas de animação do projeto “Mônica Toy”, que consiste em filmetes da Turma da Mônica com traços diferentes daqueles que os leitores das revistinhas estão habituados. Os enredos das histórias são curtos e divertidos, fazendo a alegria dos fãs em apenas alguns segundos. Por fim, Mauricio de Sousa divulgou as mídias sociais de que faz parte e prova estar por dentro do linguajar do momento: “Estamos ligados. Estamos linkados“, garante.

Ao som de aplausos, Mauricio deixa o palco do anfiteatro, sorridente, tal como chegara, e parte do público permanece para o show que se seguiria da cantora paulista Tiê. A impressão que fica é a de satisfação e também de encantamento. Quase às portas de entrada da oitava década de vida, Mauricio continua, ao menos aparentemente, jovem em espírito e sonhos. E certamente, o “ídolo” deve ser, em alguma situação, falível. Mas não é todo autor que consegue obter tanto (ou mais) prestígio quanto sua obra. De fato, a Mônica teve a quem puxar.

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