Lembro a primeira vez que assisti “A Lista de Schidler”. Foi por volta de de 1997, quando o SBT, após longos seis meses alardeando sobre a importância do filme, o exibiu na recém criada “Tela de Sucessos”.  Assistir a fita para mim foi de um esforço intelectual hercúleo, pois com 10 anos de idade, a história da Segunda Grande Guerra para mim não era nada mais que um vulto pouco patente;  portanto,  os aspectos históricos que norteavam a narrativa e a motivação dos personagens me deixaram envolto em uma bruma de total dubiedade, o que me conduziu para uma pesquisa em relação aos fatos apresentados no filme.

Quando confirmei a veracidade do Holocausto – e que a conduta do povo alemão em relação aos judeus naquele época foi algo sem precedentes na história moderna – me perguntei como uma nação pôde ter renunciado a moral civilizatória e adentrado em um inconsciente coletivo prevalecente de sadismo e crueldade.

Ao longo dos anos que se seguiram, reassistir a “A Lista de Schindler” se tornou um ritual para mim. A história do industrial Oscar Schindler, e de como salvou mais de 1000 judeus dos campos de concentração, é uma obra que vai além dos limites da ressonância moral e apresenta uma estética deslumbrante, que abarca desde uma emotiva trilha sonora até uma exuberante fotografia em preto e branco, que hora “estoura” na tela, como uma forma de nos mostrar que os personagens estão a ponto de “explodir” sentimentalmente, tal sensível é a natureza da conjuntura em que os eventos se desenrolam.

Spielberg foi corajoso ao fugir do maniqueísmo típico das biografias; o Schindler no início é um empresário oportunista e inescrupuloso, que vê na guerra a chance de fazer fortuna, e usa da bajulação para angariar influência entre os nazistas. Por outro lado, na segunda metade do filme, o personagem ganha uma aura paternal, objetivamente no que diz respeito ao trato que tem para com os “seus” judeus; a relação desses últimos e Oscar Schindler é algo que remete às metáforas pastorais presentes no Antigo Testamento, em que os israelitas, em tempos difíceis, aguardam pela vinda de um salvador que os libertará de seus flagelos; uma visão comumente na mitologia judaica, e Spielberg, como bom judeu que é, soube utilizá-la magistralmente.

Mesmo com uma narrativa fincadas sobre sólidos fatos históricos, o filme não é isento de um certo revisionismo no que diz respeito a biografia de Schindler; infelizmente, a trama omitiu o papel fundamental que Emilie – sua esposa – teve nos esforços para salvar os judeus; outra distorção, é o fato de Schindler ter se valido dos subornos para benefício pessoal, e não exclusivamente para garantir a segurança de seus empregados. Mas tais coisas não enfraquecem a mensagem principal do filme, que é sobre como a compaixão pode se manifestar mesmo em tempos de crueldade – seja pelas mãos dos reprimidos ou de seus opressores.

Até hoje, lembro do que estava escrito na contra-capa do VHS duplo disponível em uma finada locadora de vídeo da minha cidade: “Esse não é um filme sobre nazistas maus e judeus bons…é um filme sobre o ser humano…”. Se somos naturalmente bons ou ruins, são as circunstâncias mais árduas que nos dão essa resposta; “A Lista de Schindler” é sobre isso.

FICHA TÉCNICA
Título original: Schindler´s List
Direção: Steven Spielberg
Ano: 1993
Gênero: Drama / Guerra
Duração: 197 min / EUA: 194 min
País: Estados Unidos
Língua: Inglês / Hebraico / Alemão / Polonês
Cor: Preto & Branco

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