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Pedro Tostes tem 33 anos, é carioca mas mora em São Paulo. Além da cara de mau, esse cara é um puta poeta e já publicou os livros de poesia ”o mínimo” (Ed. Ibis Libris, 2003), ”Descaminhar” (Annablume, 2008) e, agora, vai lançar o livro de poesia que está sendo muito esperado pelos leitores: ”Jardim Minado”, pela Editora Patuá, que vem ganhando a cada dia mais espaço na cena literária brasileira. Conversei um pouco com o Pedro e sua trajetória, sobre a poesia atualmente, e sobre, claro, o Jardim Minado. Confira:

1796493_10152306678567376_476139567_nO CHAPLIN: Seu novo livro, Jardim Minado, sai agora pela Editora Patuá. Antes, você participava da Poesia Maloqueirista. Por que essa mudança? 

Resolvi editar pela Patuá por acreditar no trabalho que tem sido feito pelo Eduardo Lacerda, meu amigo desde 2004. Livros muito bem feitos, com um editor que conhece o que publica e trabalha em parceria com o autor.

O CHAPLIN: O que mudou no seu texto do Descaminhar pro Jardim Minado?

Acredito que entre o “Descaminhar” e o “Jardim Minado” houve um amadurecimento natural da dicção poética que vinha desenvolvendo desde “o mínimo”. Agregando novas influências, trilhando com maior segurança os caminhos do verso. Também é um livro mais duro, cáustico, devido às opções que tomei para chegar na obra.

foto: Carla Hernandes

foto: Carla Hernandes

O CHAPLIN: Falando sobre a capa que fez pro seu livro, Leonardo Mathias declarou: “Jardim Minado: algo belo, mas que, se tocado, pode explodir”. E você, como define este seu Jardim?

O “Jardim Minado” é um livro em que, propositadamente, pesei a mão. Utilizei um vocabulário mais vulgar, escatológico às vezes, abusando de imagens fortes, mas dando espaço para alguns respiros no meio do caminho. O Jardim Minado é este campo lírico sujeito a explosões. Suas flores são decadentes, com paisagens ácidas de fundo. É um universo desajustado, em queda, e por isso mesmo, mais humano, anti-asséptico. Neste cenário desolador é que a poesia insiste em tentar achar beleza, ou ao menos bom humor, aonde não existe. Não tento dourar a pílula e fazer da poesia um ponto de escape da realidade, pintar o mundo com cores que não estão ali. Mas, sim, buscar a o lirismo e o humor na degradação, mostrar que é possível reagir às opressões nossas de cada dia.

É também um livro que escrevi em um momento de crise na minha vida: desempregado, recém-separado, com 30 e poucos anos, tinha acabado de sair da Poesia Maloqueirista, completamente sem rumo na vida. Em geral esses são os momentos mais profícuos para se produzir: quando somos obrigados a fazer um balanço da nossa vida e nos reinventar. Acredito que falo de coisas que todos passaram ou irão passar. Não faço uma poesia distante da vida, mas uma poesia sobre a vida. Acredito que o pessoal é também universal. A boa poesia consegue captar nossas experiências e torná-las em algo que dialoga com os outros. É possível ser individual e ainda sim transmitir algo para a alteridade.

O CHAPLIN: Em São Paulo há uma grande difusão, cada vez maior, dos saraus, slams e eventos de literatura em geral. Você freqüenta esses eventos? O que acha deles?

Gosto de frequentar os saraus de São Paulo. É um movimento que cresceu muito desde que cheguei aqui, em 2002. Hoje você tem dezenas de eventos acontecendo em todos os lugares, centro e periferias. Acho extremamente saudável que surjam saraus pela cidade. É sinal de que as pessoas estão buscando na poesia uma forma de expressão, uma voz que as represente nessa polifonia urbana. E a procura da sua voz poética é um ato de resistência profunda nessa sociedade de hoje em dia: significa que essas pessoas entenderam que é muito mais importante ser do que ter. Que aquilo que desenvolvemos dentro de nós, que nos alimenta a alma, é algo que jamais poderá nos ser tomado à força, nem pela polícia.

O CHAPLIN: Os poemas existentes no Jardim Minado foram escritos especialmente para o livro?

Acho que o Jardim Minado eclodiu naturalmente na minha obra. Foi fruto da busca de algo mais pesado, agressivo até. Produzi vários poemas já pensando nesse livro, como “Hard Porn”, “Poética”, “O coro dos contentes”, outros surgiram naturalmente pesados, refletindo um momento da minha vida, como “Jardim Minado”, “Desova”, “Negativado”, e alguns poemas eu resgatei de arquivos antigos, poemas que não couberam no “Descaminhar” exatamente porque eram pesados ou densos demais para o livro, como “Cicuta” e “O que digo” e até mesmo resgatei um poema oral que jamais havia sido escrito, que eu recitava sempre “meio de improviso” que é “O processo”. Mas o principal foi a busca de um recorte dentro da obra que expressasse o conceito e a dicção que busquei pra esse livro.

O CHAPLIN: O que você curte ler na parte de poesia? 

Gosto de ler de um tudo na poesia. Mas é preciso ter atenção para que as nossas leituras não sejam pautadas pelas grandes companhias editoriais. Existe muita poesia interessante sendo publicada nas editoras menores, que requer uma atenção. Tento ler tudo que chega à minha mão, ver o que está sendo produzido. O que não quer dizer que viva só de contemporâneos: nos clássicos sempre encontramos formas de nos renovar e ganhar vigor, novas referências e influências.

O CHAPLIN: Quais são os planos pro Jardim Minado? Onde você espera que ele chegue?

Meu plano com o Jardim Minado é continuar a boa e velha guerrilha literária: circular bastante, conhecer novos espaços, novas pessoas, plantar sementes explosivas por todo esse Brasil. Quero botar esse livro debaixo do braço e voltar pra estrada, sair desse eixo Rio-SP para ver o que que tá pegando no nosso imenso país. Sempre lutei contra essa imagem do poeta que escreve no alto de uma torre de marfim, distante do mundo e do leitor. Gosto de poder olhar nos olhos de quem me lê, conversar, me alimentar da vida real. Esse feedback é riquíssimo, é a minha escola. Aonde eu espero que esse livro chegue? Quero que ele exploda na mão de muitos leitores.

foto: Carla Hernandes

foto: Carla Hernandes

O CHAPLIN: A Editora Patuá vem conquistando muitos leitores e artistas em geral nos últimos três anos. Como aconteceu o contato com a editora, para a publicação do seu livro?

Eu conversei com o Eduardo Lacerda [criador e editor da ed. Patuá], a quem conhecia há muitos anos, e enviei meu livro. Ele acreditou no projeto e resolveu bancar essa aposta. A Patuá é uma das editoras que mais dá atenção ao autor independente hoje em dia. Faz um trabalho honesto e de guerrilha, assim como o que eu faço. Acredito e espero que a química com a editora renda bons frutos.

O CHAPLIN: Muitos poetas vêm surgindo e muitos poetas vêm desparecendo. O que você acha da poesia brasileira atualmente?

Estamos vivendo um momento de abundância na poesia, depois da sua última morte, decretada ainda no fim dos anos 90. De certa forma, ser poeta está na moda. Por um lado isso é positivo: acredito que dessa enorme quantidade de poetas inevitavelmente surgirão alguns bons poetas. No entanto isso também gera muita vaidade, uma tendência a exaltação do ego que não é saudável. O que tem que brilhar é o verso, e não o escritor. E também surgem muitos oportunistas que querem utilizar a poesia apenas como trampolim para ganhar uma visibilidade, ou mesmo pra comer alguém. Mas o tempo é implacável quando se trata de poesia: quem não é poeta de verdade não aguenta nem o segundo round. E que a luta prossiga e a força dos versos defina quem vai ser quem no fim, quando soar o último gongo.

O ”Jardim Minado” já está disponível pra pré-venda!

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