Por que "Dois Papas" é um dos melhores filmes do ano
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3.3

Quando Joseph Aloisius Ratzinger assumiu a cadeira de papa da Igreja Católica, em 2005, uma piada começou a circular na rede social da época, o Orkut – a semelhança entre Bento XVI, nome assumido por Ratzinger, e Anthony Hopkins em seu papel mais famoso, o de Hannibal Lecter do filme “O Silêncio dos Inocentes”. A piada perdurou por um tempo e depois foi esquecida. Não por mim, que tão logo fiquei sabendo da estreia de “Dois Papas” na plataforma de streaming Netflix, em dezembro de 2019, glorifiquei em tom de vitória: “Meu Deus, o papa é o Hannibal!”. O fato de Hopkins interpretar um dos protagonistas do filme foi, admito, o gatilho para o meu interesse, que foi, com o passar dos 126 minutos de exibição, recompensado de várias outras formas.

Dois Papas é classificado como um drama fictício, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e escrito por Anthony McCarten, com base na obra de McCarten, “O Papa”. É estrelado pelos veteranos Anthony Hopkins (Bento XVI) e Jonathan Pryce (Papa Francisco), que fazem um trabalho de atuação e sintonia digno da cereja do bolo de suas longas e brilhantes carreiras. O filme mostra diversos encontros entre o então Papa Bento XVI e o então cardeal de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio, futuro papa Francisco. Baseando-se em fatos reais, os encontros não ocorreram da forma como foram retratados no filme, as discussões filosóficas entre os dois são formas de colocar em cena as questões pelas quais a Igreja Católica está passando no início do século XXI. Importante ressaltar que a ausência de verossimilhança com os fatos reais não torna o filme menos relevante – ao contrário, é aí que reside a sua genialidade.

A polêmica principal no entorno de “Dois Papas” concentra-se justamente na imagem construída sobre os dois personagens principais da obra. Críticos e figuras importantes do Vaticano têm questionado o maniqueísmo claro presente na obra (papa “bom” e papa “mau”) bem como o teor das conversas retratadas no filme de Meirelles. De fato, é complicado não confundir as bolas, mas “Dois Papas” deve ser visto como o que é: um filme de ficção unicamente baseado em fatos e personagens reais que em nenhum momento compromete-se totalmente com a realidade, embora seja inspirado por ela.

Vi “Dois Papas” duas vezes no espaço de tempo de menos de uma semana. Poucos filmes provocam esse efeito em mim. A direção sulamericana e sensível de Meirelles faz total diferença. O roteiro de McCarten é envolvente e remete a um cinema dialogal em extinção nas grandes telas. Os diálogos, interpretados com genialidade e perfeição por Hopkins e Pryce, são o ponto alto do filme. Eles são um convite a uma discussão ideológica necessária nos dias de hoje. Apesar disso, tudo é feito com leveza, bom humor e a impressão de que não somos melhores ou piores que os dois papas ali tão humanamente representados – mas que mesmo assim, podemos aprender com eles, como eles aprendem um com o outro.

A direção do brasileiro Fernando Meirelles faz a diferença no longa

Já no início do filme, a dicotomia entre Ratzinger e Bergoglio é muito sutilmente apresentada e dita o tom para todo o filme. Os, então, cardeais, encontram-se rapidamente em um banheiro e o argentino assovia “Dancing Queen”, do ABBA, canção que faz sucesso universal desde os anos 70. Em sua representação fechada e conservadora, o alemão Ratzinger não reconhece a música e pergunta “qual hino é este” que Bergoglio entoa. Parece surpreso com a resposta de que não se trata de um hino religioso, mas uma música pop. Esse é o ponto de partida para o desenvolvimento de um Francisco popular e progressita e de um Ratzinger erudito, tribalista e fechado durante toda a obra.

Outros sinais são apresentados: um Ratzinger que prefere o silêncio e a solidão, até mesmo nas refeições; um Bergoglio piadista e tão apaixonado por futebol quanto qualquer argentino médio; um Ratzinger apegado às tradições; um Bergoglio questionador; um Ratzinger dogmático; um Bergoglio freireano (em uma cena, há de relance o livro “A Pedagogia do oprimido”, de Paulo Freire, como uma das leituras de Bergoglio); entre outras diferenças que tornam clara a construção antagônica dos personagens.

A trilha sonora, em alguns momentos, dita um tom que mistura humor e ironia. Quem já imaginou a reunião de cardeais para o conclave ao som de Dancing Queen? Ou a descida de um papa do helicóptero ao som de Bella Ciao, que se tornou um hino anticorrupção na Itália (além de uma oportunidade de merchandising para outra produção da Netflix, “La Casa de Papel”)?

Cena fictícia da final da Copa do Mundo de 2014, a cereja do bolo, em que as diferenças coexistem com simplicidade e bom humor ao final da obra

Apesar do claro paradoxo ideológico entre os dois protagonistas, é justo dizer que a grande mensagem do filme é a da possibilidade do respeito entre as diferenças. “Eu não acredito ou concordo com quase nada do que você diz, mas por algum motivo acho que você é o que a Igreja precisa agora”. Essa frase dita por Bento XVI no filme traduz essa relação. A amizade e o respeito, e até mesmo a admiração e a confiança, tornam-se possíveis apesar das diferenças. E não é isso que precisamos nos dias modernos?

“Dois Papas” é uma refinada obra de arte, feita com sensibilidade, e que deve ser vista como o que é: um adaptação livre de fatos reais, em vez de um retrato documental.

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