Assisti a “Planeta dos Macacos: O Confronto” três vezes antes de me sentir apta a escrever esse texto. Tudo bem que dormi durante um pedaço do filme na segunda sessão (tornando a terceira ida ao cinema necessária), mas a culpa da minha desatenção em nada pode ser atribuída à espetacular produção que o telão à minha frente exibia, mas ao meu cansaço e sono incalculável bastantes frequentes após as 20h30. A questão é que tanto fui ao cinema que o filme acabou saindo de cartaz antes que eu colocasse no ar as minhas percepções sobre a obra.
Me sinto na obrigação de ser honesta ao informar que não assisti a nenhum dos outros filmes da franquia, nem mesmo ao mais recente “Planeta dos Macacos: A Origem”, de 2011. Isso não me impediu, contudo, de me sentir tocada e incitada a escrever sobre o deste ano, recém saído das salas de cinema comerciais. Portanto, perdoem-me a ausência de comparações e análises aprofundadas da obra inserida em seu conjunto maior.
Como muito já se falou de aspectos positivos como a fotografia formidável, a trilha sonora impactante e os efeitos especiais eficientes, principalmente no que concerne aos macacos, maravilhosamente interpretados por atores reais, focarei em aspectos do roteiro que me chamaram atenção e me fizeram achar de Planeta dos Macacos: O Confronto um dos blockbusters mais inteligentes do ano, assumindo o lugar que ano passado, em minha lista, pertenceu a Círculo de Fogo.
Muito além do maniqueísmo: Koba e César
Em uma abordagem superficial da relação entre o protagonista César (Andy Serkis) e o antagonista Koba (Toby Kebbell), é perceptível um maniqueísmo clichê, com César sendo o líder salvador, o herói que surpreende e se supera na defesa de seus princípios, e Koba como o vilão malfeitor impulsionado por sua própria ambição. Na verdade, a construção dos dois personagens vai muito além disso. O filme preocupa-se em mostrar as animações de cada um para os seus comportamentos. César, muito antes de ter lutado por sua espécie contra os humanos, foi cuidado e amado por um dos seus opositores. Isso fez com que nutrisse uma afinidade pelos homens que poucos conseguem compreender. “César ama os humanos mais do que ama os macacos”, é a frase de impacto de Koba. Na verdade, a grande diferença entre os dois líderes é que, enquanto o contato de Koba com os humanos limitou-se a dor, tortura e humilhação – o que lhe deixou marcas severas e lhe impulsionou para as maiores atrocidades contra qualquer um que atrapalhasse a sua sede por vingança -, a relação de César compreendia carinho, cuidado e empatia. César, na verdade, sabia que nem todos os humanos tinham uma índole ruim. E, posteriormente, também descobriu que nem todos os macacos eram bons apenas por serem macacos.
A identificação entre macacos e humanos
O personagem de César (Andy Serkis) é a representação do quão próxima é a aparentemente opositora relação entre macacos e humanos. Essa empatia é mostrada diretamente através da cena que apresenta a relação de César com o humano que lhe cuidou e lhe ensinou a linguagem de sinais para que pudesse se comunicar. Posteriormente, a relação de confiança, parceria e amizade é novamente travada com o co-protagonista Malcolm (Jason Clarke). Um dos aspectos mais positivos da narrativa é a exploração do contato entre as duas espécies, que a princípio parecem apáticas e distantes, e no decorrer do filme mostram-se muito mais semelhantes do que esperamos. Destaque para a cena em que o filho bebê de César aproxima-se de Ellie (Keri Russell), que o segura no colo como um bebê humano. Um dos grandes momentos que expõem a identificação que existe entre as duas espécies.
A “humanização” do poder entre os macacos
Um dos aspectos que mais me chamou atenção enquanto espectadora em toda a narrativa é o fato de que, apesar do esforço em reafirmarem o quanto são diferentes dos humanos, é o macaco que possui mais características “humanizadas” que é tido como líder. Apenas aquele que consegue falar é capaz de impor ordens para um grupo, é necessário entender como os homens pensam para tomar decisões. Os macacos cujo comportamento mais se assemelham aos de sua espécie são pouco importantes no contexto da narrativa, destacando-se apenas aqueles cuja construção dialoga de forma íntima com os homens. Até mesmo as armas de fogo, utilizadas pelos humanos e rejeitadas pelos macacos, passam a ser uma maneira de reafirmação do poder para estes, quando, através da “conquista” das armas, Koba impõe sua supremacia para o grupo.
A luta entre as espécies: espaço ou poder?
A princípio, ainda sob o domínio de César, a aversão entre humanos e macacos parecia ser motivada pela defesa do espaço. Humanos desejam reconstruir suas moradias enquanto macacos querem proteger o seu habitat daqueles que eles julgam poder-lhes fazer algum mal. Contudo, com a ascensão de Koba, a luta passa a ser outra e a lema que se difunde é o “dominar para não ser dominado”. O estímulo deixa de ser a proteção do espaço e assume a forma de busca pelo poder e para isso é necessário bater de frente com quem se opuser a essa ideia – seja homem ou macaco. Mesmo os companheiros de espécie que não concordam com a carnificina liderada por Koba na busca pelo poder passam a ser encarados como inimigos. E os grupos de embate, que antes dividiam-se claramente entre macacos e humanos, agora segmentam-se entre aqueles que anseiam pela tiraria de um grupo sobre o outro e os que almejam a paz entre as espécies mas que, para isso, precisam aderir ao confronto.

FICHA TÉCNICA
Gênero: Ação
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Amanda Silver, Mark Bomback, Rick Jaffa, Scott Z. Burns
Elenco: Alaine Huntington, Andy Serkis, Angela Kerecz, Christopher Berry, Enrique Murciano, Gary Oldman, J.D. Evermore, Jason Clarke, John L. Armijo, Judy Greer, Karin Konoval, Keir O’Donnell, Keri Russell, Kevin Rankin, Kirk Acevedo, Kodi Smit-McPhee, Larramie Doc Shaw, Lee Ross, Lombardo Boyar, Lucky Johnson, Steven Wiig, Terry Notary, Toby Kebbell
Produção: Amanda Silver, Dylan Clark, Peter Chernin, Rick Jaffa

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.