Priscila Merizzio se prepara para lançar Ardiduras, pela 7 Letras

Priscila Merizzio é curitibana. Autora do livro Minimoabismo (Patuá, 2014), semifinalista do Prêmio Oceanos 2015, é também editora-convidada da revista Germina. Inclusive, já conversamos com Priscila, em época de sua estreia.

Agora é uma nova e bonita fase pra poeta que se prepara para lançar seu segundo livro de poemas pela editora 7 Letras: o “Ardiduras”.

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Conversamos com ela sobre esse novo momento, sobre o livro novo, e, de quebra, trazemos um poema inédito dela. Confira:

O CHAPLIN: Como você enxerga seu novo livro? Sobre o que falam seus poemas? Em relação ao Minimoabismo, o que, aos seus olhos, está diferente?

No Ardiduras burilei muito mais os poemas e, diferente do Minimoabismo, o escrevi em silêncio, não pedi opinião a ninguém. Deixei para procurar revisão e especular editoras depois que senti que havia terminado. Não tive prazo de fechamento, pois prezei bastante a liberdade e a experiência da escrita pela escrita. Levei quase um ano mexendo nele e foi este o tempo porque chegou um momento em que eu percebi que se deixasse o livro para dormir novamente, na hora que eu retornasse ele seria outro, não mais o Ardiduras. Preferi respeitar a essência primária das intenções que coloquei nos escritos. No entanto, não estipulei este tempo de edição. Aconteceu. Neste segundo livro procurei ser mais lírica, abordar um viés mais espiritualizado e reflexivo da vida. Repuxo outras lembranças, outras preocupações estéticas. Me preocupei em superar os temas do Minimoabismo. Não sei se consegui meu intento, mas tentei arduamente. Os poemas do Ardiduras não têm título. Para que eles não flutuassem de maneira confusa, criei cinco seções com títulos significativos e nelas agrupei os poemas: “candeeiros d’água”, “réstias incandescem”, “florestas de gérberas”, “excruciāre hummus” e “embaralhamentos”. Está tudo distinto do primeiro livro. Desde o processo criativo até a forma e o conteúdo.

"Ardiduras'' é o novo livro de Priscila Merizzio e sairá pela editora 7 Letras

“Ardiduras” é o novo livro de Priscila Merizzio e sairá pela editora 7 Letras

Porque no Minimoabismo, eu ainda não tinha o livro pronto quando assinei o contrato com a Patuá. Estava começando a escrever poemas realmente, estava descobrindo que a prosa era mais um hábito que eu carregava desde a infância do que um arrebatamento. A poesia foi um arrebatamento insano na minha vida. Caminhou paralelamente com as sessões de análise lacaniana, conforme consta no colofão: “quando este cardume de poemas-peixes nasceu das sessões de análise lacaniana da autora, onde ela descobriu que o desejo é, muitas vezes, perverso”. Quem é paciente do método de Lacan sabe que a fala é a via principal do tratamento. Por isso, Minimoabismo tem um tom pós-traumático, remexe em assuntos que eram doloridos para mim. Assuntos extremamente pessoais, biográficos. Na época, eu estava mais perdida do que queria realmente, pois quando procurei a Patuá e perguntei sobre as possibilidades de fazer um livro, meu desejo era o de publicar uma novela pulp que tenho engavetada, assinada por um heterônimo. E a coisa tomou um rumo diferente e misterioso.Minimoabismo é um livro enxuto, tem aproximadamente vinte e dois poemas. Firmado o acordo com a editora recolhi todas as tentativas poéticas que vinha fazendo, procurei opiniões sobre alguns poemas e rapidamente o livro foi publicado.

Concluo, então, pensando que o Ardiduras não foi um afã. Ele foi construído de forma pensada, mais madura. Ao menos assim espero. Os leitores é que dirão, eu mesma não sei dar juízo de valor. Não tenho a menor ideia de como será a recepção do Ardiduras.

13043600_1764468667099663_4299154049129561988_nO CHAPLIN: Que tem feito?

Minha rotina é comum, estável: trabalho muito, estudo, cuido dos meus bichos, das plantas, da minha casa, pratico yoga e caminho quase diariamente. Preservo e cultivo as relações com as pessoas que amo, que me fazem bem. Etc.

O CHAPLIN: O que você tem lido?

Tenho lido todas as edições da Germina, das Escritoras Suicidas, das várias revistas literárias digitais brasileiras. Tenho procurado estar atenta, portanto, à criação poética contemporânea, de poetas de todos os gêneros. Também estou estudando muita teoria literária e do cinema. Alguns ensaios filosóficos. Nas férias de janeiro reli alguns romances que marcaram minha vida. Dos poetas conhecidos: Sylvia Plath, Anne Sexton, Sophia de Mello Breyner Andresen, Wislawa Szymborska, Alejandra Pizarnik, Mario Quintana, Herberto Helder.


O CHAPLIN: Como está sendo a experiência com a 7 Letras?

Eles são muito profissionais. Têm uma pequena equipe incumbida de suas funções, de modo que o setor editorial pode se preocupar exclusivamente com a diagramação e acabamento dos livros. O contrato também é bom, privilegia o autor desde o começo com bons descontos de compra, porcentagem por capa vendida. Estou gostando bastante.

O CHAPLIN: Como você enxerga esse momento para as mulheres no meio literário brasileiro?12510381_1724284701118060_4147799684253691607_n

Importantíssimo, porque reflete o momento da mulher brasileira e suas preocupações. Cabe dizer aqui que o feminismo envolve vários recortes e é natural que haja divergência entre algumas mulheres. Estamos encontrando nosso espaço, nossa voz. Porém, existem elementos que são vitais em todos esses recortes feministas: vivemos em um sistema patriarcal que privilegia o homem branco, heterossexual, de classe média, o que traz várias discussões minuciosas sobre o racismo, a homofobia, a literatura periférica. Penso que colocar o “feminismo” e todas as suas preocupações em um único balaio é leviano.

O machismo ocorre de várias formas, é versátil, altera um pouco sua dinâmica conforme o meio social. Às vezes é mais velado, mais hipócrita, mais envernizado. E, apenas para constar que, quando digo que as mulheres sofrem de forma “diferente”, não excluo os tipos de violência presentes entre todas que é o estupro, agressão física, psicológica, pedofilia, perseguições desde que são concebidas, desde que ficam grávidas de outras mulheres – as agressões universais e recorrentes, vamos dizer assim.

O que eu quero dizer quando falo em certas distinções é que uma mulher negra de classe social abastada pode sofrer de forma distinta da mulher negra de periferia, no dia-a-dia. Uma mulher branca de classe social alta sofre de forma diferente da mulher branca que nasceu em família pobre. Tem a agressão contra as heterossexuais, gays, bissexuais, transgênero. E tem também as várias formas de machismo conforme a profissão, a cidade em que cada uma mora, o Estado, o país, suas atividades, o grupo de amigos com quem convive, a religião de sua família. As estrangeiras sofrem determinado tipo de machismo no Brasil, quando vêm para cá e nós, brasileiras, quando vamos para fora. Tem todas essas questões.

Por isso digo que é um assunto arriscado, complexo, sinuoso e cheio de adendos. Acredito que o patriarcado é mundial e não idealizo nenhum país ou cultura em detrimento da outra. Embora existam as estatísticas que apontam que tal país é mais violento, penso que não se pode fugir do machismo: ele está na estrutura do mundo, foi construído assim, de forma bem amarrada. O patriarcado é um terno feito sob medida, no ateliê da mais alta costura. No meio literário brasileiro, ele está presente como um incenso de cheiro forte e insuportável, daqueles que deixam os móveis, tapetes, roupas e a casa toda fedendo durante semanas, não importa o que se faça para tirar a catinga. Os homens de esquerda são tão machistas quanto os homens de direita. Não tenho ilusão alguma. Existem os que querem vencer o machismo, que estão dispostos, e os que fingem. Nós, mulheres que escrevemos, temos que andar atentas, com os dois olhos bem abertos. Acredito que ganharemos mais força na medida em que feministas ocupem mais espaços de liderança e de decisões, no meio literário. Porque, infelizmente, não basta ser mulher. Muitas não são feministas. E tem as que fingem que são também, afinal, está em voga falar de feminismo.

Infelizmente, pessoas agindo de má fé têm em todo o lugar. Por isso digo: temos que andar de olhos bem abertos, temos que ser ousadas e ao mesmo tempo cautelosas. É complicado demais. Na verdade, me sinto mal falando em nome de todas as mulheres, dizendo o que devemos fazer ou deixar de fazer. Temos de respeitar a liberdade individual uma das outras. Prefiro falar por mim: dentro do que me cabe, dou a mão a outras mulheres, procuro incentivar e ser incentivada nas denúncias coletivas se existe um agressor em comum, a refletir e tentar fazer refletir na representatividade da mulher nas antologias, eventos, feiras, saraus. Em como ainda somos colocadas no status de objeto sexual, de sermos os bibelôs de alguns poderosos da literatura.

Feminismo para mim também tem a ver com respeito a todas essas vozes que levantam. Constantemente fazer o exercício de escuta, de se colocar no lugar da outra: “e se fosse meu namorado dando em cima daquela mulher, o que eu gostaria que ela fizesse?”. Exercícios assim. Cedo ou tarde, grande parte das mulheres que se dizem contra o feminismo perceberão a falácia de suas afirmações. Quero acreditar em igualdade, quero acreditar no momento em que vamos transpor essa questão de gêneros para nos concentrarmos no que realmente importa, que é a qualidade literária, o enriquecimento da escrita. Mas até lá, tem chão ainda.

vou reconstruir a casa de dona Maria

para morar no passado

o chimarrão era fresco

as paixões não me incendiavam

lentamente, como mandorovás

retorcendo-se no sal

farei uma chimia de baratas

as roseiras serão cabotinas

como os pesadelos da tarde

cantarei uma ópera doida para os vizinhos

invocarei meus homens cafajestes para jantar

eles se sentarão como os discípulos de Cristo

beberemos vinho doce

na despedida, beijarão minha face esquerda

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