Quando o cinema fala de si: a metalinguagem no contexto cinematográfico

Ao ser composta, toda linguagem dispõe de um sistema de signos e códigos específicos, que deve produzir uma interação entre o seu produtor e o receptor, para que se processe significação. Nesse sentido, o uso do sistema verbal para uso comunicativo também necessita de relação compreensível entre locutor e interlocutor. Esse processo, que tem cunho cognitivo, se faz necessário para entendermos e aprendermos a linguagem em questão e, para isso, as atividades linguísticas de fala e da escrita são essenciais.

O sentido, considerado sob esse aspecto, decorre da propriedade reflexiva das línguas naturais. Para o linguista, assim como para o usuário comum da língua, o sentido não é mais do que sua tradução para um signo no qual está desenvolvido de modo mais completo. É com esse conceito de interpretante que Pierce estabelece o caráter linguístico da semântica. O signo – em particular o signo linguístico, como dizia ele, para ser compreendido, exige não só que dois protagonistas participem do ato de fala, mas, além disso, exige um “intérprete” (NASCIMENTO, 1990, p.117).

"O Artista": filme sobre filme ganhou Oscar em 2012
“O Artista”: filme sobre filme ganhou Oscar em 2012

Para conseguimos realizar todo esse processo linguístico de maneira clara e eficiente, deve-se estudar e compreender o código por meio de um processo denominado de metalinguagem. Compreende-se como metalinguagem quando o ato de se comunicar faz uso da linguagem para falar da própria linguagem. Os principais exemplos são o dicionário e a gramática (livro físico), pois o objetivo de ambos é explicar o uso dos símbolos.

A Função Metalinguística
A Função Metalinguística

A arte cinematográfica que surgiu no final do século XIX e que tomou grandes proporções a partir do século XX sempre apresentou como uma de suas características mais marcantes a capacidade de autorreflexão, de buscar nela mesmo novas formas e assuntos. O cinema como forma artística moderna por excelência não poderia deixar de se autorreferir, ao que os teóricos do discurso denominam metalinguagem.

Nos filmes, a metalinguagem tem como principal função revelar as estratégias narrativas usadas pelo cinema para explicitar o seu código e remeter-se à sua própria estrutura, seja através de citações intertextuais ou mesmo na relação do espectador com o reconhecimento do discurso cinematográfico. Na indústria cinematográfica, esse recurso ganha bastante destaque em filmes que desenvolvem uma dramaturgia específica na qual o discurso cinematográfico é explicitado em sua própria estrutura, e a ênfase temática dos filmes se refere ao universo cinematográfico. Temos como principais exemplos os filmes “A Noite Americana” de François Truffaut, “Memórias” de Woody Allen e “8 ½” de Federico Fellini.

Em “A Noite Americana” acompanhamos a história das filmagens do longa “Je vous présente Pamela”, que conta a história de uma jovem inglesa que troca o marido francês pelo sogro. Ferrand (François Truffaut) é o diretor; Alphonse (Jean-Pierre Léaud), o inseguro galã; Séverine (Valentina Cortese), a diva perto da aposentadoria e Julie (Jacqueline Bisset), a protagonista – Pamela – sempre à beira de um ataque de nervos. Parece um hospício, mas são os bastidores de um set de filmagem. O filme busca mostrar um pouco da relação entre a indústria e a criação de um filme. O foco se dirige ao papel de um diretor que lida com todos os processos de mimese de uma produção. Criando brincadeiras que envolvem os cenários, a noção de simulacro e simulação (eu acho esse filme um grande estudo sobre Baudrillard), o próprio conceito do título original (Day for Night, que cria uma relativização até do tempo dentro do cinema) vão se agregando, numa obra prima de várias camadas e ganhadora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1974.

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Cena de “A Noite Americana”

Já o filme do diretor Woody Allen, “Memórias”, traz uma critica diferente cujo principal foco da discussão é um “auto-pensar” único, no qual o retrato estabelecido é sobre o artista autoral versus a indústria. Nesse retrato, vemos a angústia de um diretor cinematográfico cansado de ver sua obra sempre analisada pela crítica especializada como um objeto de mensagens subliminares, buscando grandes questões em certas coisas que podem não necessariamente ser objetos de tantas análises semióticas. O filme é uma grande homenagem a obra “8 ½”, do diretor italiano Fellini, com o uso da comédia com toques fellinianos.

Woody Allen em "Memórias"
Woody Allen em “Memórias” (1980)

E por falar na obra de Fellini, no próximo texto, irei analisar o filme 8 ¹/²  levando em consideração a metalinguagem. Até lá!