“Quatro Soldados”, de Samir Machado de Machado: cadê a Pátria que estava aqui?

Ambientado na instável fronteira sul do Império português na América, Quatro Soldados, de Samir Machado de Machado, aproveita-se das lendas e da nebulosidade da região para lançar uma boa história de aventura. Publicado em 2013 pela simpática porto-alegrense Não Editora, o livro segue o caminho de quatro soldados por um período em que se podia, por exemplo, dormir como uruguaio e acordar como brasileiro; o século XVIII, durante a Guerra Guaranítica.

Samir Machado de Machado | Divulgação
Samir Machado de Machado | Divulgação

A região é o que atualmente compreende desde Sacramento, no Uruguai, até Laguna, em Santa Catarina. E os soldados do título pertencem ao regimento de dragões de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Apesar da sinopse, não se trata exatamente de literatura histórica. Além da disputa de territórios entre as coroas lusitana e espanhola, eventos como o advento do iluminismo e o famoso Terremoto de Lisboa são abordados, mas a intenção parece ser apenas de contar uma divertida história no estilo “capa-e-espada”.

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É uma leitura leve e percebe-se logo nas primeiras páginas que estamos diante de um escritor que gosta de video-games e RPG, e talvez o leitor ideal desta história também seja. Em certos momentos dá a impressão que se lê o roteiro de um jogo de aventura, e aqui reside o ponto mais fraco do livro, que poderia ter uma trama mais livre, menos apegada ao desejo de parecer entusiasmante a qualquer custo.

Há de se destacar o belo acabamento gráfico do livro, e o narrador intruso que conta a história tal qual um português da época em que os acontecimentos se passam, além de personagens carismáticos. Bastante recomendado para curiosos de história (ávidos compradores de livros), gamers e rpgistas. Ou ainda para quem busca uma leitura leve e divertida. Mas apesar da intenção de fazer “literatura de entretenimento”, senti que a volatilidade dos homens e das fronteiras (esta é a questão que me atraiu no livro) ficou um pouco mal explorada.

São estrangeiros em uma terra sem fronteira e identidade definida, mas não quis fazer um romance regionalista. Ninguém ali é gaúcho, mal podem ser chamados de brasileiros ainda“, disse Machado. Talvez querendo fugir do rótulo de regionalista, o autor tenha largado mão de um enredo mais rico e interessante. Mas não quero com isso dar início à velha discussão “literatura séria versus literatura de entretenimento”, se é que há mesmo um confronto aqui. A intenção do autor foi alcançada: é um bom livro. Espero que se popularize.