Foto: Regina Azevedo

Rarefeito: a poesia densa de William Soares dos Santos

William Soares dos Santos é professor da UFRJ, escritor e tradutor, graduado em Letras (português e italiano), Mestre em linguística aplicada e Doutor em Estudos da Linguagem. Seu primeiro livro, ”Rarefeito”, recentemente publicado pela Ibis Libris, reúne poemas de 1990 até 2014.

Em rápida passagem, rarefeito significa ”pouco denso”. Um conceito que, certamente, deixa de ser levado ao pé da letra após a leitura de alguns poemas do volume. À primeira vista, os poemas não parecem esconder nada. Parece não haver camadas, parece que tudo já foi dito. É bem verdade que os temas são extremamente recorrentes, mas o poeta usa imagens e quebras de raciocínio que fazem o leitor mais atento sentir algo semelhante àqueles sonhos em que acordamos ao sentir que estamos prestes a cair.

O tema central dos poemas seria, provavelmente, a observação de cenas, de acontecimentos (muitos em meio à natureza) e uma precisa descrição de cenários. Nada passa despercebido e as conclusões são, em sua maioria, necessárias.

Outro tema recorrente é o existencialismo, a condição humana que é exposta pelo eu lírico, de forma escancaradamente frágil, vulnerável e pulsante, como em ‘os girássois’:

”os girássois/ se abrem/ na madrugada.// as árvores sinalizam um/ vento que não sinto.// morro de sede/ diante do poço da existência.// choro/ diante da lua// tenho de/ cruzar/ o umbral/ do oeste.”

11996988_977920098925177_1970220473_nO poeta diverte o leitor ao narrar uma história comum, mas escrita com um ritmo interessante, no poema ‘lady sings the blues’:

”vi-me desenhando setas na madrugada,/ todas de cores/ quentes,/ fortes,/ e densas.// lady canta, / mas você não estava aqui/ quando eu acordei na escuridão.// sometimes i’m happy/ sometimes i’m blue/ but my disposition/ doesn’t depend on you./ i don’t know why, / but i’m feeling so sad/ talvez porque/ a manhã está chegando/ e com ela/ o porvir.”

Talvez  sinta-se falta de  mais poemas em que o eu-lírico faz piada de si mesmo – algo que, óbvio, cria uma identificação direta -, como em ‘copacabana’:

”copacabana tenta,/ desesperadamente,/ me enganar:/ com a sua praia disfarçada de limpa,/ com as sas meninas que/ me sorriem facilmente, / com as suas lojas com o seu/ ”tem de tudo”.// eu, no entanto,/ só vejo o seu andar confuso,/ o seu barulho/ ensurdecedor,/ o seu custo de vida alto, / seus desafetos e desamores.// tenho pena de quem se/ ilude com copacabana,// tenho pena de mim/ que tenho sido devorado/ por ela.”

Por fim, ”Rarefeito” é desses livros que devem ser lidos atentamente. Deve-se ser tal qual o eu lírico: vulnerável, peito aberto. Assim, descobriremos que estamos diante de um livro denso.