Ricki and the Flash é melhor do que o que dizem por aí

Assisti a Ricki and the Flash: De Volta Para Casa (Jonathan Demme, 2015) duas vezes na última semana. Minha primeira percepção, quando saí da primeira sessão, foi a de um filme raso e insuficiente, em que tudo era razoável e nenhum aspecto realmente relevante era colocado à tona para o público. É verdade que não estava no melhor dos meus humores no dia em questão e acabei superestimando o filme e criando expectativas maiores do que aquelas que a própria obra se propunha. A minha segunda experiência, contudo, me trouxe uma visão um pouco diferente: sim, Ricki and The Flash continua sendo um filme relativamente raso, que não se aprofunda muito em nenhuma das tramas que apresenta, mas com alguma atenção, o espectador não terá dificuldade em perceber e até emocionar-se com as valiosas relações que se desenrolam no decorrer dos 100 minutos de filme.

Sim, é bem verdade que Diablo Cody (que assina o roteiro de Juno) não fez um trabalho tão profundo em Ricki and The Flash. Mais verdade ainda que o diretor Jonathan Demme não ganhará um Oscar por este filme, façanha que realizou em 1991 com o clássico do suspense psicológico, O Silêncio dos Inocentes. Mas quem disse que essa era a intenção quando uniram forças – e um elenco competente – para a realização de Ricki and the Flash?

meryl

O filme é despretensioso. E será muito melhor aproveitado se entrarmos na sessão com essa ideia na cabeça, e não com a pressão de uma película com tantos “oscarizados” envolvidos, fato que se torna, admito, difícil, quando se tem a promessa de uma Meryl Streep como uma roqueira que adentra na terceira idade equilibrando a manutenção do seu sonho e a tentativa de reconquistar o afeto de sua família. E com números musicais (saudades, Mamma Mia).

É preciso estar livre de expectativas e pré-conceitos para entender a complicada relação de amor e rancor que existe entre Ricki e sua fila, Julie (Mamie Gummer); é preciso ter o coração aberto e evitar os julgamentos quando se trata do triângulo sentimental entre Ricki, Pete (Kevin Kline), seu ex-marido, e Maureen (Audra McDonald), a atual esposa de Pete, que ocupou o papel de mãe dos três filhos de Ricki em sua ausência; e, principalmente, é preciso conseguir enxergar a complexidade e a beleza do amor que se constrói, a cada cena, entre a personagem principal e Greg (seu companheiro de banda e namorado).

Mamie Gummer é destaque na película.
Mamie Gummer é destaque na película.

Isso porque, é verdade, Ricki por si só não é uma personagem que podemos classificar como encantadora. Trata-se de uma mulher que parece perdida no tempo, que vive a vida de uma forma que por vezes lhe parece suficiente e, em outras, lhe frustra, com apegos sentimentais que parecem nunca ir embora, e assuntos inacabados que não tem certeza se quer resolver. Quem nunca, não é mesmo?

Desnecessário dizer que Meryl Streep cumpre o seu papel de forma satisfatória, embora a minha percepção tenha sido a de uma atriz deslocada em algumas cenas. O grande destaque, entretanto, fica para a sua filha (na trama e na vida real), Mamie Gumer, ainda pouco conhecida nas telonas. Mamie chama atenção desde a sua primeira cena, peita a mãe e entrega uma interpretação mais impressionante que a de Meryl, com sua emocionalmente debilitada Julie. Ainda completam o elenco principal do filme, em boas atuações, Kevin Kline (Pete), o carismático Rick Springfield (Greg) e a belíssima Audra McDonald (Maureen).

A relação de Greg e Ricki é um dos eixos da trama.
A relação de Greg e Ricki é um dos eixos da trama.

Ricki and the Flash não traz à tona nenhum assunto considerado polêmico na nossa sociedade, e nem dramatiza em excesso os assuntos que aborda. Trabalha, entretanto, questões comuns da vida real e que já banalizamos (ainda que não mereçam ser banalizadas), daí a desatenção e decepção de parte das opiniões que assistiram ao filme. Ricki and the Flash não chega a ser um grito, não ofende, não incomoda, e é sutil em suas bandeiras, mas elas estão lá, claramente, para quem tiver a sensibilidade de notá-las: o papel da mulher na sociedade, a fragilidade dos vínculos tradicionais, e a veracidade que existe nas relações mais improváveis.

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Andressa Carvalho
Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).
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Andressa Carvalho

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).

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