Sangue Marginal: um olhar por dentro do cinema underground brazuca

O que é preciso para se fazer um filme? Desejo, puro e simples desejo para fazê-lo. Esta é a resposta que vem a mente após assistir ao documentário Sangue Marginal – Relatos de Cinema e Video Underground (2013), uma produção independente assinada pela “Cachorro Filmes”, a qual tem como tema a visão dos principais nomes a frente das produções cinematográficas do underground brasileiro ao longo dos últimos cinquenta anos.

Banner digital de apresentação do documentário Sangue Marginal

O documentário, na verdade, fora fruto de um trabalho de conclusão de curso da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas e Comunicação (FCSAC), sendo a direção assinada por Bruno Russo e Marco Vaz. O filme fora lançado pela primeira vez em 2009, o qual condensava em um pouco mais de quarenta minutos nomes de peso do cinema underground nacional como José Mojica Marins (O Zé do Caixão), Peter Baiestorf, Coffin Souza, KapelFurman, Gurcius Gwender, Fernando Rick e Marcelo Appezzato, entre outros.

 

Peter Baiestorf, ícone dos anos 90 nas produções independentes nacionais.

Entretanto, após o seu lançamento, foram divulgados rumores de que o documentário seria reeditado, no formato de longa, para um futuro relançamento, o qual teria o acréscimo de outros respeitáveis nomes do underground cinematográfico brasileiro para abrilhantar o conjunto da obra.

 
Cena do curta “Sozinho” de André ZP da Cromosso3

Os rumores, passados quatro anos, se tornaram verdade e agora em 2013, Sangue Marginal foi relançado no formato de longa, conforme fora especulado, bem como disponibilizado no YouTube, há pouco mais de uma semana, e o melhor de tudo, contendo novos depoimentos de figuras ímpar no cenário das produções cinematográficas do país, como é o caso do genial Ivan Cardoso, o qual é responsável por películas preciosas como “As sete vampiras”, “O escorpião escarlate”, “O segredo da Múmia”, entre muitos outros clássicos “marginais”.

 

Zé do Caixão e Ivan Cardoso na gravação do documentário “O universo de Mojica Marins“, de 1978
Pôster do curta “Gato”, premiado em 2010 como Melhor
Curta Latino Americano no Festival Montevideo Fantástico

A película, em seu formato documental, traz como pano de fundo as experiências cinematográficas dos entrevistados, sejam elas amadoras ou profissionais, através de recortes argumentativos que variam entre a discussão sobre cinema de gênero no Brasil, com ênfase no terror/ horror, o eficaz uso da internet para a divulgação das produções, mas em alguns aspectos inoperante quanto a sua comercialização, e o tabu estético-moral, ao longo de décadas, com o livre uso do corpo nos filmes.

No geral, Sangue Marginal consegue propor ao seu espectador o quanto o cinema underground do país coexiste, facilmente, frente às grandes produções comerciais brasileiras e hollywoodianas, sem participar de editais de incentivo cultural e com baixo ou nenhum custo, mas que em momento algum perde no tocante a criatividade e qualidade dos filmes produzidos, pois conforme afirma Ivan Cardoso, “Felizmente nós temos esta formação underground, sabemos nos virar muito bem. E adoro ter que duelar somente com uma bala no revólver”.