Sobre Amy Winehouse e um desabafo

Peço-lhes um espaço aqui, no O Chaplin, para que eu possa fazer um pequeno desabafo. No dia 23 de julho deste ano, sofri uma das maiores surpresas dos últimos meses. Soube que universo apagara uma luzinha aqui, na terra, mas acendera certamente uma na eternidade. Com 27 anos, branca, judia, londrina suburbana e com “voz de cantora negra”, seu nome era Amy Jade Winehouse.

Amy Winehouse, como era conhecida publicamente, foi minha grande descoberta do ano de 2006, quando o aclamado Back To Black (segundo álbum da cantora) estava a conquistar a crítica e o público. Amy “entrou” na minha vida numa época difícil, vivia as tormentas da adolescência adubadas com introspecção e timidez. A primeira música escutada foi Rehab, aquele ritmo que me fazia quase sair do estado de inércia e dançar ao som do célebre “no, no, no”. Aos poucos fui me familiarizando com esse ritmo com nome de cor, assim como outros semelhantes. Minha admiração por Amy foi amadurecendo, e até então meu inglês não passava da conjugação do verbo to be (coisa que não me impediu de pesquisar, estudar e traduzir suas músicas), mas nos meus cadernos frases como “my tears dry on their own” já faziam parte da capa.

Cansei-me de Back To Black, tinha sede de blues, jazz, R&B, e de Amy, e por isso baixei Frank. Com Frank notei como a cantora, estripava sua personalidade e sua vida ao cantar, a essa altura já me dizia seu fã, adorava-a por ser só minha, já que pouco se sabia acerca dela no Brasil, mas eu a conhecia à proporção que ela me entendia. Foi então que ganhei sua biografia, cujo autor não me recordo agora, li-a correndo queria conhecê-la melhor, saber o que levara a cantar, qual a inspiração de tanta melancolia. Nessa época, influenciado pelos ares juvenis, me rebelava contra qualquer um que a insultasse ou a desmerecesse baseando-se em superficiais reflexões a cerca de sua vida pessoal.

Ninguém conseguia ver, suas tentativas de afogar a insegurança no palco e fazer o que mais gostava: cantar ao vivo. Via-se a bêbada, a drogada, a descontrolada. Amy era frágil, insegura e apaixonada, coisas que ela nunca escondera de ninguém. Arrasado ao saber de sua morte, fiquei mais triste quando eu soube que fora encontrada sozinha em sua casa, abandonada, negligenciada pelos pais e amigos. Amy não gostava da solidão, escutei-a uma vez numa reportagem na qual fora perguntada sobre os tantos relacionamentos falhos e os incontáveis escândalos, e ela respondeu alguma coisa como: “Eu sou como todos vocês, quero amar e não quero morrer sozinha, só tento com mais insistência”.

Com um pesar no coração, despeço-me publicamente de uma das minhas cantoras preferidas. Tenho esperanças Amy, que hoje você esteja num local de transcendência, e que estejas feliz e o mais importante, estejas em paz.

“We only said goodbye with words, I died a hundred times.” Back to Black – Amy Winehouse