Sobre Cannonball ou como começar mal uma carreira

No dia 10 de dezembro, Lea Michele divulgou a primeira música do seu álbum de estreia. O álbum chama-se “Louder” com previsão de lançamento para 2014. A música que foi divulgada chama-se Cannonball. Há três dias, a segunda faixa do álbum, Battlefield, também foi liberada na conta da cantora no YouTube.

Não é de hoje que Lea Michele faz estripulias vocais, que agradam a uns e aterrorizam outros. Hoje com 27 anos, a atriz e cantora já tinha uma carreira em ascensão na Broadway quando foi convidada a participar do seriado teenager norte-americano Glee, há quase cinco anos, quando eu e a maior parte do mundo conhecemos o talento de Lea como a extravagante Rachel Berry, protagonista da série. Apesar do plot adolescente, a série permitiu a muita gente identificar a competência de Michele não apenas como atriz, mas como cantora e exímia intérprete. Existe algo de Whitney Houston em Lea Michele: ela não só grita e coloca a voz aonde quer, como exala paixão e um magnetismo enquanto se apresenta (sem a necessidade de números de dança, sapateados e performances sensuais), característica que poucos intérpretes possuem,  menos ainda dentro dos Estados Unidos, onde Lea Michele (para a sua sorte, ou não) nasceu.

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Confesso que eu integro a parcela que se encantou por Lea, e esperava ansiosa por seu álbum solo, que foi divulgado em 2013. Há rumores de que a cada duas semanas uma nova música do disco será liberada, mas as duas que já saíram foram mais que suficientes para termos uma ideia  do que vem por aí.

Capa da divulgação de "Cannonball"
Capa da divulgação de “Cannonball”

Lea Michele é daquelas cantoras que merecem ser protagonistas em uma boa música. Seus instrumentos de acompanhamento devem ser suaves, que coexistam e corroborem para a sua voz, a exemplo das músicas de Adele, que se utilizam principalmente de piano e instrumentos de cordas. Há, sim, uma bateria, mas que em momento algum esconde ou prejudica a voz da cantora ou os demais instrumentos. Mas, infelizmente, não é isso o que acontece em Cannonball. Literalmente uma “bala de canhão” no ouvido de qualquer um que se proponha a escutar, o que encontramos é um pop pasteurizado que coloca Lea Michele no mesmo patamar de cantoras como Selena Gomez e Miley Cyrus.

Se você prestar bem atenção, leitor, vai encontrar a mesma batida eletrônica irritante (capaz de estragar qualquer música pop) de Cannonball em músicas como Wrecking Ball, de Miley Cyrus, Heart Attack, de Demi Lovato, e Stars Dance, de Selena Gomez. Mas o problema, na verdade, não está na batida, mas em como ela ofusca a voz de Lea na gravação de áudio original, como se os produtores da canção não confiassem na atriz como carro-chefe de sua própria música, e vissem a necessidade de entupi-la com elementos da moda da música pop para assegurar de que investir em Lea não seria dinheiro jogado fora. Isso até não seria ruim, se os elementos atuais não fossem tão devastadores, tornando praticamente desnecessária a presença de uma boa voz. Nos anos 80 existia o famoso “pianinho” e atualmente temos a batida eletrônica bate-cabelo-em-boate. A questão é que o pianinho tradicional não era tão ofensivo.

Capa do disco "Lauder"
Capa do disco “Lauder”

Vou dispensar falar da letra da música, afinal, contamos nos dedos boas letras no pop desde sempre. Temos de convir que pouca coisa é genial ou original em “I will always love you” (ou no repertório de Whitney Houston como um todo). Contudo, chega a ser deprimente ouvir Lea Michele ocupando o seu talento com a repetição incessante e insuportável de “I gotta get out”, “Light it now” e “I’ll fly” em momentos específicos da composição. Na busca por se destacar em sua própria música, a cantora grita, histérica, e se acaba no vocal, apenas complicando mais a situação que já é ruim.

Mas vamos dar a César o que é de César. Em Battlefield, última música divulgada, Lea é acompanhada por um piano em uma música mais contida, em que a voz da cantora se destaca, mas sem nada de inovador, novamente se igualando a baladas românticas modernas comuns no meio musical norte-americano. Para minha frustração, até agora, não há “alma” nas músicas de Lea Michele. Nada que a destaque do que já existe, a exceção de sua voz e performances no palco, que seus produtores fazem questão de abafar com produtos pouco coerentes com o talento da moça. Em sua estreia, Lea Michele teve a opção de ser Adele, mas escolheu ser Miley Cyrus.

Abaixo, uma apresentação ao vivo da cantora no programa da apresentadora Ellen Degeneres. Apesar da música pavorosa, a apresentação de Lea consegue sem esforço prender os olhos e a atenção de seus espectadores. Imaginem, então, o que ela faria com uma boa canção.