Nessa sexta-feira (27), para minha surpresa, os cinemas potiguares começaram a exibir um dos fortes candidatos às premiações de cinema norte-americanas, o filme “Álbum de Família” (August: Osange County, em inglês). O veterano diretor John Wells reuniu um elenco estelar para compor a família Weston, da premiada peça do dramaturgo Tracy Letts, vencedor do Pulitzer em 2008. Estão no elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Chirs Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Juliette Lewis, Benedict Cumberbatch e Abigail Breslin.

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Barbara (Julia Roberts), Violet (Meryl Streep) e Ivy (Julianne Nicholson)

Diferente do retrato de família perfeita, pais estáveis e filhos bem sucedidos que são o orgulho da família, vendidos em produções enlatadas dos EUA, “Álbum de Família” é cru, calorento e incômodo. Não se passa na costa ensolarada da Califórnia, nem na loucura de Nova York, mas sim em Oklahoma, no meio oeste norte-americano. Os pais não são exemplos de caráter ou mesmo integridade, cada um com seus vícios: Bev (Sam Shepard) é o patriarca da família, um poeta alcoólatra; já a mãe, Violet (Meryl Streep), é uma viciada em ansiolíticos e pílulas das mais diversas. Os pais, que são a formação e a base de toda família, em “Álbum de Família” não inspiram a menor confiança, pelo contrário, são perdidos, problemáticos e desestruturados. Oriundos de uma criação difícil e miserável, Bev e Violet se casaram e viveram juntos por 42 anos, tiveram três filhas: Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) que são alvos de cobranças, frustrações e desafetos.

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Ivy (Julianne Nicholson), Violet (Meryl Streep) e Mattie Fae (Margo Martindale)

Com o desaparecimento do patriarca da família Weston, as filhas se reúnem novamente para ajudar sua mãe, que piorou o seu vício após a descoberta de um câncer na boca. Violet é uma mulher amargurada, agressiva e não perdoa ninguém com seus comentários ácidos e grosseiros. A única filha que ficou pelas redondezas da cidade de Osange Ciy foi a do meio, Ivy, as demais foram morar em estados distantes e mantiveram pouco contato, uma das alegações de “abandono” por parte da matriarca. A mais velha das filhas, Barbara (Julia Roberts), está passando por um momento difícil, recém separada do marido e em constante atrito com sua filha,  Jean (Abigail Breslin), pra completar o inferno astral o seu ente querido da família encontra-se desaparecido e sua mãe a culpa por isso.

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Charles (Chris Cooper) e “Little” Charles (Benedict Cumberbatch)

Completando o núcleo familiar estão a tia Mattie Fae (Margo Martindale), seu marido, Charles (Chris Cooper) e seu filho “Little” Charles (Benedict Cumberbatch). Tão implicante e difícil de lidar quanto a irmã, Mattie Fae é dura e ridiculariza o filho que ao que parece tem algum problema cognitivo. Após o desaparecimento de Bev, a descoberta de seu corpo e a constatação de sua morte, essa ramificação da família vai ajudar os Weston a superar a perda (ou piorar ainda mais os ânimos na casa).

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Mãe (Streep) e filha (Roberts) se desentendem a ponto de chegar as vias de fato

Durante a reunião todo tipo de drama e conflitos de uma família acontece: disputas entre irmãos, revelações, decepções e cobranças surgem. O filme teria tudo para ser mais do mesmo, um dramalhão em família que não convence, mas para minha surpresa vai além. Uma das coisas mais interessantes no filme é a construção de cada personagem, há espaço para todos se mostrarem, mérito da direção de Wells e do roteirista Tracy Letts (autor da peça). Os atores tarimbados e de grande talento estão extremamente bem, todos eles deram o tom certo aos personagens sem cair no lugar comum. Benedict Cumberbatch fugiu aos personagens performáticos que estava acostumado e fez muito bem o sensível Little Charles. Margo Martindale é uma atriz excelente, embora seu nome não seja um dos mais badalados de Hollywood, ela sempre está em alguma produção interessante. Em “Álbum de Família”, Martindale faz uma implicante convincente.

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Dois ícones do cinema norte-americano atuando lado a lado, Meryl Streep e Julia Roberts

Ainda falando sobre as atuações, preciso de um parágrafo inteiro para descrever Meryl Streep (como não?). Violet Weston é um arremedo de frustrações, mágoas, ressentimento, orgulho, sofrimento e raiva, muita raiva. Raiva de sua infância pobre e sofrida, raiva da sua mãe insensível e perversa, raiva de suas filhas que não seguiram a vida que ela planejou. Violet cospe ofensas a torto e a direito em quem vê pela frente. Força e desespero partilham da mesma pessoa, força para sobreviver e seguir levando uma vida triste, e desespero de não conseguir a felicidade para acalmar sua alma inquieta. Sua boca queima constantemente devido ao câncer, mas mesmo assim ela continua fumando, falando e gritando. Meryl Streep ainda conseguiu achar alma e humanidade em meio ao monstro de seu personagem, tornado-a assim mais próxima do espectador que acaba, de certo modo, se afeiçoando a megera mostrada na telona. Por esta atuação Streep é  uma forte candidata ao prêmio de Melhor Atriz (de Drama) no Globo de Ouro.

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Julia Roberts sempre será lembrada como a atriz de comédias românticas, isto é fato, no entanto, quando a moça tem oportunidade de encarar um personagem intenso, com uma alta carga dramática, e o diretor responsável sabe fazer uso do magnetismo e charme naturais da atriz, Roberts se sai bem. Em “Álbum de Família”, ela não está nem perto de ser a mulher fatal ou sexy que já fora, muito pelo contrário. A composição de seu personagem não exalta sua beleza, Barbara tem fios de cabelo brancos a mostra, pouca maquiagem e usa roupas largas. A atriz ficou super feliz em poder atuar ao lado de um de seus ídolos, Meryl Streep, apesar de seus personagens brigarem e trocarem ofensas o filme inteiro. Em uma atuação honesta e íntegra, Julia Roberts novamente mostrou que é mais do que “Uma Linda Mulher”.

“Álbum de Família” é um filme indigesto, por vezes cômico, não fosse trágico. Sua força está no roteiro coeso e nas excelente atuações. Diferente dos filmes de finais de ano sobre família, união e natal, o longa explora um outro lado, quando os pais não são a base, nem o exemplo de tudo. Partindo dessa premissa, o autor da peça que assina o roteiro, Tracy Letts, nos dá uma visão de uma família que não está bem no comercial de margarina, mas que não é assim tão diferente de outras tantas no seu país. Quem tiver a oportunidade de conferir o longa, e estiver disposto a sair um pouco da zona de conforto de filmes comerciais que nos encantam ou fazem rir, certamente não irá se desapontar.

2 Responses

  1. Avatar
    Maria da Gloria

    belo filme mostrando o carma/espinho na carne das famílias…

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