Star Wars e Harry Potter: os mesmo valores para diferentes gerações

No auge dos meus 22 anos, após ter sobrevivido à geração Crepúsculo e Percy Jackson, não tenho qualquer constrangimento em dizer que sou da geração Harry Potter, com muito orgulho, sim senhor. Sim, fui Pottermaníaca, procurei capítulos clandestinos em fan sites na internet antes dos livros serem lançados, sonhei que participava das aventuras de Harry, Rony e Hermione, chorei com cada momento tocante dos sete livros e oito filmes da saga e me senti órfã ao assistir ao último filme, há pouco mais de três anos. Foram vários os valores e aprendizados morais que o bruxinho passou para uma geração, com criatividade, mas – descobri posteriormente – não tanta originalidade assim.

A verdade é que a história contada em Harry Potter, além de ter sido acusada de ser uma cópia do quadrinho “Os Livros da Magia”, de Neil Gaiman, também segue uma receita básica e bastante adaptada por quase toda saga heroica que intencione fazer sucesso. Muito se fala da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, uma espécie de manual de regras a serem seguidas para se ter sucesso em uma história de herói. É possível identificar essa organização de forma muito semelhante em sagas como O Senhor dos Anéis e Star Wars, além da já citada Harry Potter.

Sobre Star Wars, inclusive, depois de anos de bullying corretivo por ainda não conhecer a história de Luke, Leia e sua trupe, acabei me rendendo à pressão e, confesso, desinteressadamente, iniciei o trabalho árduo de assistir aos seis filmes, mais por obrigação que vontade. Fui forçada a começar, mas confesso que, ao fim, já nutria um apego pela história e meu atual status é: esperando ansiosamente pelo episódio VII, a ser lançado ainda este ano, sob a batuta de J. J. Abrams.

A questão é: durante o meu desvelamento da saga de seis filmes, que foram lançados entre a segunda metade dos anos 70 e a primeira década dos anos 2000, percebi várias semelhanças entre os filmes que marcaram uma (duas, três, cinco?) gerações e aqueles que, mais recentemente, também me marcaram. Muito além dos processos citados pela Jornada do Herói de Campbell, Star Wars e Harry Potter possuem particularidades e difundem valores muito semelhantes.

Para não devanear muito, organizei essa postagem em uma lista. Então, você, fã de Star Wars, Harry Potter, ou (como é, agora, o meu caso) dos dois, embarca comigo nessa viagem mágica sob a proteção da Força. Contudo, se você não conhece nenhuma das duas sagas, mas pretende conhecer, recomendo que não prossiga com a leitura do texto, pois não me responsabilizo por possíveis frustrações advindas de spoilers (se é que informações sobre qualquer uma das duas histórias, a essa altura da vida, podem ser consideradas spoilers).

1. Trio maravilha e o valor da amizade

A semelhança que, acredito, mais salta aos olhos entre as duas sagas é certamente a presença de um trio de protagonistas que se assemelham não apenas em sua constituição (dois rapazes e uma garota), mas também em suas características. Ora, quem não vê em Harry a coragem e o senso de justiça quase cego e burro de Luke? Rony Weasley também se aproxima bastante de Han Solo: o melhor amigo que parece ter medo de encarar o perigo, mas na hora do “vamos ver”, sempre surpreende. Ambos parecem ser um pouco insensíveis, mas na verdade possuem um coração de pêssego. E o que falar da arrogância, inteligência e senso estratégico de Leia e Hermione? As duas personagens são garotas desteminas, fortes, e que não se deixam ser passivas diante da maioria masculina. Ambas histórias difundem o valor da amizade e os heróis são sempre passionais quando se trata de seus amigos. Assim como Harry nunca deixa os amigos para trás e encontra neles a sua força, Luke abandona seu treinamento jedi para salvar Han e Leia quando sente que eles podem estar em perigo, apesar das recomendações contrárias de Yoda e Kenobi.

2. O mestre que ninguém entende, mas todo mundo confia

Não minta, você também já teve o impulso de mandar Dumbledore ou Yoda para algum lugar mais escuro que a floresta negra e mais distante que a galáxia mais afastada todas as vezes que eles recusavam responder perguntas dos protagonistas, Potter ou Skywalker. O baixinho verde e o velhinho barbudo confundem mais do que ajudam, mas passam uma serenidade que, ainda assim, nos permite confiar inteiramente neles. E como não gostar desses dois? Mestre Yoda e Professor Dumbledore certamente teriam muitos seguidores se, em algum momento, resolvessem fundar uma religião. Ambos morrem e se despedem do herói e do público deixando ainda algumas respostas por responder e missões a serem concluídas.

3. Lord Vader ou Darth Voldermort?

vader_voldemort

Muita calma nessa hora. A verdade é que Lord Voldermort, o poderoso vilão de Harry Potter, é de fato uma mistura de Darth Vader e do Imperador, Darth Sidious, de Star Wars. A preocupação em explicar o passado e as justificativas de Darth Vader (Anakin Skywalker) se aproximam do garoto de infância difícil que busca o poder como forma de autoproteção, caso de Tom Riddle (Lord Voldemort), em Harry Potter. Contudo, é bem verdade que Lord Voldermort consegue superar Vader a nível de crueldade, podendo ser comparado ao seu mestre, Darth Sidious, o Imperador. A comparação também se estende ao aspecto físico, artificializado e um tanto assustador depois da quase perca total dos poderes, e até mesmo a vestimenta: tanto Voldermort quanto Sidious usam uma capa com capuz.

4. O amigo mais velho protetor

Obi-Wan Kenobi pode ser tranquilamente comparado a Sirius Black, na saga do bruxinho. Ambos foram amigos próximos do pai do protagonista e tomaram para si a responsabilidade de orientá-lo depois de certa idade. Funcionam como aquele tio mais velho em que o protagonista confia plenamente e que sempre dá bons conselhos. Continuam perto do protagonista mesmo depois da morte.

5. A estrutura familiar do herói

Luke e Harry perderam os pais cedo e pouco lembram de sua família verdadeira. Ambos acabaram sendo criados pelos tios, na companhia de um primo, em um ambiente em que pouco se encaixam.

6. O fiel escudeiro engraçado e peludo

Outra semelhança das duas sagas é a presença de um personagem engraçado, fofo e peludo, não muito inteligente, mas bastante leal, que sempre está disposto a ajudar o herói. No caso de Harry Potter o posto é do meio-gigante Hagrid, e em Star Wars temos Chewbacca. Ambos são grandes, fortes, um tanto ingênuos, e sempre dispostos a comprar uma briga por seus amigos.

7. “O Escolhido”

Um discurso comum nas duas sagas é o da existência de uma profecia que prevê um “escolhido” que apaziguaria uma crise que o meio vive naquele momento. Os heróis ocupam a difícil posição de serem escolhidos para uma tarefa da qual pouco entendem, mas necessitam enfrentar ainda assim. E esse é o inevitável caminho a ser percorrido por Luke e Harry.

8. A habilidade de família

Outra semelhança bem específica das duas sagas é a habilidade de voar/pilotar passada de pai para filho. Em Star Wars, Anakin era capaz de vencer corridas em sua região desde criança. Luke herdou a habilidade do pai e se tornou um exímio piloto de veículos especiais. Já em Harry Potter, James Potter era um dos melhores jogadores de quadribol de sua época; Harry, ao chegar em Hogwarts, logo de destaca por conseguir conduzir uma vassoura de forma admirável e é escalado para o time de quadribol da sua “casa”.

9. O romance óbvio que demora a engatar

É bem comum a troca de farpas entre Han Solo e Leia, assim como entre Rony e Hermione (quem não lembra do episódio do “Vingadium Leviosáaaaaa” que custou uma briga com trasgo no primeiro livro?). Contudo, tudo isso nada mais é que uma demonstração equivocada do sentimento que os casais nutrem e que, com o desenrolar da história, acaba desabrochando nos momentos de maiores tensões. Assim como em Harry Potter, em algum momento Rony acha que Hermione está interessada por Harry, e não por ele, o mesmo acontece em Star Wars, em que Han Solo se sente ameaçado pelo sentimento de Leia por Luke (que logo ele descobre ser meramente fraternal). Mas no fim, tudo dá certo, e os pombinhos ficam juntos.

10. Aurores ou jedis? Siths ou comensais?

Por fim, não é possível existir uma guerra entre bem e mal sem combatentes. De um lado, temos os aurores, bruxos que usam a magia para o bem, que podem ser comparados aos jedis, guerreiros que usam a força para fins benéficos; do outro lado temos os comensais da morte (ou bruxos maus) e os siths, pertencentes ao “lado negro” da força e que estimulam seus poderes com sentimentos pouco nobres.