Em 1956 começou uma das paixões “intangíveis” de Moacy, como ele mesmo definiu. Não, nada que chegasse perto do sentimento que nutria pela esposa, pelas duas filhas e pelos amigos. Essas eram “outro patamar”. Mas quando, em meados da década de 50, o jovem Moacy da Costa Cirne, estudante do Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó, encantou-se pelas salas de cinema da capital do Seridó, não quis mais parar. Apesar de ter contato com o cinema desde os sete, Cirne tinha treze anos quando consolidou a sua paixão pela sétima arte. Durante a adolescência, frequentava as salas todos os dias, e invariavelmente anotava todos os filmes que via. Mas isso era mania de garoto. Nos últimos anos de sua vida, só anotava mesmo os que achava relevantes.

TCC 9

 Foi em meados de 2012 que conheci Moacy Cirne. A ocasião era um documentário que seria produzido para um trabalho da universidade. Eu estava no quinto período do curso de Jornalismo, ainda descobrindo a cultura local e seus personagens, e pouco sabia da vida do senhor simpático e falador que eu acabara de conhecer em sua própria casa, em Natal. Mas isso não foi problema: ele tratou de me contar. E contou muita coisa. Na época, estudante inexperiente, estava mais preocupada em memórias sobre a história do cinema da capital potiguar. O filme em questão nunca saiu do papel. O áudio estava ruim, a iluminação não era favorável, o manuseio da câmera filmadora ainda era um entrave. Sobraram os materiais brutos para editar e o roteiro escanteado em algum caderno cujo paradeiro, hoje em dia, desconheço. Quase dois anos depois, revendo a entrevista que realizei com Moacy, admito que talvez o maior mérito da jovem repórter de tenros 19 anos que eu era foi ter registrado os causos e paixões de Cirne, cujo falecimento hoje completa 3 dias.

TCC 22Cirne foi professor de Comunicação Social na UFF (Universidade Federal Fluminense). Também é considerado um dos maiores nomes no Brasil quando o assunto é quadrinhos, tendo publicado inúmeros livros sobre a temática. Além disso, era poeta, cinéfilo declarado, leitor de ficção científica e apaixonado pelo Fluminense. Não era por futebol. Era pelo Fluminense.

Em Natal, foi um dos fundadores de uma das instituições mais relevantes para o cinema do estado: o extinto Cineclube Tirol, que surgiu em julho de 1961, com sede no salão paroquial da Igreja Santa Terezinha. Moacy foi segundo secretário na primeira gestão da instituição. Os jovens da época (entre eles, Moacy) viam ser “por demais absurda a situação cinematográfica-cultural da cidade e resolveram então criar uma entidade que educasse uma mentalidade, servindo-se do mais atraente dos meios de educação e formação cultural: o cinema”, conta uma ata de uma das primeiras reuniões do Cineclube, cujos trechos foram publicados em uma edição do jornal O Poti de 1974.

As reuniões eram, geralmente, privadas ao grupo de membros da instituição, em torno de 12, que discutiam filmes que estavam em cartaz. Não havia, até então, o intuito de formação de público. Nessa época, Moacy via em torno de quatro a cinco filmes por semana – e em cinema de rua!, enfatiza. “Na época não tinha isso de DVD, então você não tinha acesso aos filmes se não no cinema. Eu lia sobre eles, e quando tinha a oportunidade de ver no cinema, era uma festa, literalmente!” Mas naquela época, isso não era problema: segundo Cirne, a programação de cinema em Natal era muito boa, munida de algumas várias salas de cinema de rua.

Cinema de Arte

CINECLUBE TIROL CARIMBOFoi em 1963 que uma das grandes ambições do Cineclube Tirol foi concretizada: implantar um cinema de arte em Natal. Firmadas as parcerias com os empresas Cinemas Reunidos (Cireda) e o Cine Rex, inaugurava-se uma nova programação matutina para os sábados em Natal: a sessão de arte. O primeiro filme a ser exibido foi “Glória Feita de Sangue” (1957), de Stanley Kubrick.

Desse período, Cirne guarda boas lembranças. Conta que algumas vezes precisava ir a Recife para fazer a programação do semestre. E não era fácil. “Era uma luta, porque tinha que ter cópias disponíveis e o filme vinha de trem.” O dito trem chegava geralmente na sexta à noite, às vezes no sábado de manhã.  E aí a aflição: a sessão era às 9h30, a fila já se alargava para ver o filme, e os responsáveis iam de táxi para a estação ferroviária na torcida para que o trem não atrasasse. “O cinema de arte sempre foi prestigiado, alguns filmes mais do que outros, mas raramente existiu um filme que teve menos da metade da lotação do cinema”, defendeu. Fica a dica para os novos exibidores.

No mesmo ano do lançamento do circuito de arte em Natal, Cirne fez uma viagem para Recife a fim de ver o filme “Eclipse”, de Michelangelo Antonioni. O filme datava de 1962, Em Recife seria exibido em 1964, em Natal só chegaria dois anos depois, em 66. Era virada de ano, entre 1963 e 1964, e Cirne, cinéfilo incurável que era, partiu para Recife, submetido ao percurso de ônibus que durou nove horas. Chegando lá, a notícia frustrante: o filme, excepcionalmente, não seria exibido. Restou ir a um bar com um amigo, onde foi acusado por um homem armado de dar em cima de sua companheira. Cirne jurou sua inocência de pé junto e saiu ileso da situação.

Moacy Cirne em 2012 | Foto: Andressa Vieira

Moacy Cirne em 2012 | Foto: Andressa Vieira

Cinema em Natal

Contudo, sobre o atual circuito da cidade, Cirne parecia desanimado. Concluiu a entrevista com os olhos miúdos menos brilhosos ao relatar a inexistência do cinema em Natal. “Eu digo isso até muito triste. Antigamente tínhamos filmes ótimos. Hoje também tem, mas é mais difícil de achar. São poucos os diretores bons. A proporção talvez seja de 10 para 2.” E complementou, saudoso do cinema das salas do Rio Grande, Rex e Nordeste: “É tudo muito explícito. Eu gosto de filmes em que você pode imaginar. Eu gosto muito da imaginação. Gosto de viajar. Filmes muito amarrados, com início, meio e fim muito presos, têm que ser muito bons, muito bem estruturados para me interessar. Eu gosto de filmes com finais abertos. É como um poema de Drummond, da pedra no meio do caminho, você viaja naquele poema.”

Ilustrações: Ana Clara Monteiro

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