Trash – A esperança vem do lixo: trio de protagonistas ofusca elenco competente em filme brasileiro dirigido por inglês

Imaginar um filme brasileiro sem o envolvimento do selo Globo Filmes é uma coisa difícil. Além de ter contrato com os melhores atores nacionais (e com os piores também!), o selo é um dos maiores contribuidores do nosso cinema, seja com meros caça-níqueis (como Até Que a Sorte nos Separe 2) ou com cinema de verdade (como Flores Raras). Daí que imaginar um filme nacional com padrões de Hollywood sem o envolvimento da produtora parecia impossível, ao menos até o envolvimento de um certo diretor inglês com três indicações ao Oscar.

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Trash – A Esperança Vem do Lixo chega ao circuito nacional como uma peça atípica dentro de nossa realidade cinematográfica, mostrando-se eficiente como cinema e, acima de tudo, como entretenimento. A trama gira em torno de Rafael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), três crianças pobres que tiram seu sustento de um lixão no Rio de Janeiro. Elas têm suas vidas modificadas ao se apossarem de uma carteira contendo uma informação codificada ligada a um importante político local. Após a chegada do policial Fred (Selton Mello de O Palhaço) ao lixão procurando a carteira, as crianças decidem decifrar o código em busca da verdade.

A primeira coisa que o público precisa entender  é que a história pede um pouco de suspensão de descrença. O principal arco dramático do filme soa bem improvável dadas as circunstâncias e os envolvidos. Porém, se o espectador vai disposto a aproveitar o filme, a sessão será muito agradável. Baseado no livro de Andy Mulligan, o roteiro de Richard Curtis (Questão de Tempo), com colaboração de brasileiro Felipe Braga (da série Mandrake), costura a trama sob a ótica das crianças. Dessa forma, o filme se mostra muito eficiente ao apresentar situações cômicas, dramáticas e emocionantes. Enquanto a obra original se passa num país qualquer da América Latina, o trabalho de Curtis adapta a história às terras tupiniquins.

Selton Mello é um dos destaques do filme
Selton Mello é um dos destaques do filme

Com pinceladas em problemas brasileiros como corrupção, miséria e violência, Trash causa impacto em algumas cenas, mas preza pela leveza por ser narrado sob a ótica dos protagonistas. Enquanto alguns poderão acusar o filme de não saber qual vertente seguir e de optar pelo entretenimento deixando de explorar a crítica ali contida, me sinto mais à vontade ao enxergar a obra como um entretenimento que traz conteúdo. Isso porque a película mescla uma “caça ao tesouro”, um olhar ameno com situação drástica de plano de fundo e crianças carismáticas, inteligentes e divertidas apesar da miséria, características semelhantes as dos filmes Os Goonies (de Richard Donner, 1985),  O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (de Cao Hamburger, 2006)  e Quem Quer Ser Um Milionário (de Danny Boyle, 2008), respectivamente. O sucesso do roteiro também passa pela direção de Stephen Daldry.

Assim como Wagner Mousa, Rooney Mara é subaproveitada em Trash
Assim como Wagner Mousa, Rooney Mara é subaproveitada em Trash

Com indicações ao Oscar de Melhor Direção por Billy Elliot (2000), As Horas (2002) e O Leitor (2008), Daldry investe aqui num tom mais aventureiro, bem menos intenso que o que lhe rendeu indicações ao maior prêmio do cinema norte-americano. Mas não por isso faz um trabalho menos competente. Fugindo da corriqueira “câmera de mão” do cinema brasileiro, o inglês consegue extrair “brasilidade” de suas lentes. Mesmo apontando problemas como miséria e corrupção, Daldry jamais cai no erro generalizado que os gringos têm do Brasil, sabendo extrair peculiaridades características do nosso povo.  A escolha da equipe que acompanha o diretor também contribui para o resultado final do projeto. Além do envolvimento da O2 Filmes (do diretor Fernando Meirelles, de 360), fotografia, trilha e montagem dão tom e ritmo à obra.

A fotografia do brasileiro Adriano Goldman (Álbum de Família) mostra um Rio de Janeiro bem menos convidativo que o das novelas de Manoel Carlos, mas que também consegue ser aconchegante pelo coração dos personagens que vivem numa miséria “não agressiva” ao público. Já a trilha, quando não recorre ao eficiente trabalho incidental do também brasileiro Antonio Pinto (O Senhor das Armas), traz peças conhecidas da plateia identificando o local onde se passa a história e as referências das personagens. Outro ponto positivo vem da montagem inteligente de Elliot Graham (Milk – A Voz da Igualdade), que traz cortes rápidos, transições elegantes e, em alguns momentos, costura presente e passado ligando-os por posicionamentos de câmera e cenários.

Rafael (Rickson Tevez) e Rato (Gabriel Weinstein)
Rafael (Rickson Tevez) e Rato (Gabriel Weinstein)

O elenco, em sua maior parte, se mostra bem. Selton Mello faz de Fred um policial corrupto de uma frieza cruel. Sua interpretação é eficiente e compenetrada. Quase sempre sem alterar seu temperamento, o ator consegue se impor não por uma persona ameaçadora, mas por seu cinismo e por seus gestos cruéis e inescrupulosos. Já Wagner Moura (Elysium) tem um papel muito pequeno, embora de muita importância. A contratação de um ator da qualidade de Moura para um papel tão modesto se mostra desnecessária, mas o ator precisou de apenas uma cena para demonstrar que grandes talentos podem oferecer mais, até em pequenas pontas. O mesmo não se aplica a Rooney Mara (Terapia de Risco). A atriz nova-iorquina interpreta, assim como Wagner Moura, uma personagem aquém de seus talentos, mostrando-se subaproveitada. O experiente Martin Sheen (O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro) se mostra à vontade no papel de um padre que realiza trabalhos comunitários. Talvez o coadjuvante que mais aparece no filme, Sheen demonstra carisma em cena além de dividir com Mara alguns diálogos em português.

Wagner Moura faz papel pequeno, mas importante, em Trash
Wagner Moura faz papel pequeno, mas importante, em Trash

Mesmo com tantos nomes expressivos, é o trio de protagonistas que realmente chama atenção em cena. Usando de coragem, a produção apostou em três crianças que nunca haviam tido experiência diante das câmeras. Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein foram selecionados dentre quase 200 crianças. O excesso de carisma, a postura diante das lentes e a sinceridade que passam são o ponto alto. Os três dominam o filme, transitando de cenas engraçadas para cenas dramáticas com propriedade.

Apesar das críticas negativas que vem recebendo, Trash – A Esperança Vem do Lixo despertou em mim a sensação nostálgica dos filmes das décadas de 1980 e 1990, que passam na Sessão da Tarde. Cinema também é entretenimento despretensioso, é diversão pelo simples ato de divertir e emocionar. A sétima arte é democrática o suficiente para que tramas mais elaboradas e mais críticas dividam espaço com obras mais amenas, que nos façam sentir prazer no simples ato de ver um filme legal!