Em uma conversa breve com o cantor, ator e mais engraçado dublador de Dubsmash das terras potiguares, Dudu Galvão, há alguns dias, antes da estreia do espetáculo “Camarim”, na última quinta-feira (15) no Barracão dos Clowns de Shakespeare, ele mencionou que a montagem em questão estava sendo produzida “sem grandes pretensões, mas com muito amor”. Foi com essa declaração que tive a certeza que não poderia perder o meu lugar em um dos dois dias da curta primeira temporada do musical: costumo ter um apreço especial por qualquer coisa que tenha mais essência que pretensão.

“Camarim” é um musical que percorre a complicada relação familiar entre os irmãos Edite, Louis e Carmem e sua apaixonada ligação com a música. Apesar do belíssimo figurino e de alguns diálogos remeterem a um Brasil de meados do século XX, não fica claro o período temporal em que a história se passa. Edite é uma jovem e promissora cantora, que tem despontado como um grande talento, mas demonstra alguma arrogância e egocentrismo com seus méritos. No entanto, ao mesmo tempo, ela também se mostra um tanto receosa sobre seu futuro e os caminhos que deseja traçar em sua carreira. Louis, por sua vez, é um excêntrico, exagerado e inconformado artista, que, após alguns anos morando no exterior, apaixonou-se pelas alegorias e técnicas vocais da gringa e agora encontra dificuldade para encaixar-se em terras tupiniquins. Mas longe de resumir-se a isso, Louis também é um intérprete que emociona e um apaixonado pelas possibilidades da vida e da música. Já Carmem é a pacificadora da casa. Gentil, cuidadosa e amável, é uma diva reconhecida internacionalmente que já alcançou tudo o que almejava, mas que se inquieta com a iminente decadência de sua carreira.

Para dar vida e voz a essa intrigante tríade de irmãos, a montagem reúne três carismáticos e talentosos artistas: Camila Masiso, como a mais nova Edite; Dudu Galvão, como Louis; e a graciosa Lysia Condé, como a irmã mais velha, Carmem. Apesar de ser Dudu o mais experiente dos três no quesito atuação, tanto Camila quanto Lysia demonstram entrega e intimidade com suas personagens, e com os outros dois atores em cena, e suas experiências como atrizes foram uma grata surpresa. Acredito que o sucesso das performances fora facilitado pelo fato de que o propósito ali é basicamente o mesmo de todas as suas apresentações públicas: a música. E nisso, meus amigos, elas são impecáveis.

Camila é detentora de uma das vozes potiguares mais ímpares a que já tive a oportunidade de ouvir. Suave e com técnica apurada, a cantora consolidou definitivamente seu nome com seu último disco, Patuá, tendo recebido já alguns prêmios por ele. Com parcerias internacionais em seu currículo, a moça tem cacife pra colocar inveja em gente com mais estrada, e brilha com sua Edite em “Camarim”. Lysia Condé não fica atrás e tem uma voz suave e bem treinada. Ela é daquelas cantoras que dá prazer observar as interpretações, não só pela voz, como pela entrega e paixão que emana a cada nota. Dudu Galvão é um dos artistas mais ecléticos que conheço em Natal atualmente. Não só faz de quase tudo um pouco, como faz bem tudo em que resolve se meter. Seu Louis é cheio de graça e desenvoltura e, junto a Edite e Carmem, garantiu um show musical de alto nível para quem foi assistir à peça.

“Camarim” consegue satirizar ao mesmo tempo que presta homenagens e revela o valor de “tipos” do meio musical. Ora, como não encarar em Louis uma crítica aos artistas que se apegam ao exagero de suas performances, preterindo harmonia e a letra de uma composição? Mas como negar a emoção que algumas performances cheias de agudos e falsetes, quando realizadas com entrega e paixão, nos causam? Já na talentosa e comprometida Edite, pude visualizar a arrogância presente em vários talentos que brotam e que, por medo de se reciclarem, acabam presos ao sucesso de um tempo datado. Carmem, por sua vez, levou merecidamente uma vida de brilho e fama, mas agora parece entregue à síndrome de Norma Desmond em Crepúsculo dos Deuses, e inquieta-se com o fato de que a parábola do seu sucesso já alcançara o ponto decrescente e, como tantas outras divas da música, tem dificuldade de lidar com essa nova realidade.

Apesar do grande destaque do musical ser, obviamente, as apresentações musicais protagonizadas pelos três atores, é impossível não atrelar o sucesso aos instrumentistas em cena: Diogo Guanabara, que manuseia com maestria os instrumentos de corda; Marco França, responsável pelo piano; e o percussionista Sami Tarik, que como bem pontuou minha acompanhante (tive a sorte de estar acompanhada por alguém que “manja dos paranauês” musicais), fizeram a experiência valer ainda mais a pena. Destaque também para a cuidadosa escolha de faixas e arranjos. “Camarim” seguramente agrada desde o mais apegado dos fãs de MPB, até os amantes de pop bate-cabelo contemporâneo. E sem forçar a barra.

A verdade é que, dessa vez, fico devendo aos leitores deste espaço a nota do espetáculo. Isso porque é bem verdade que se a avaliação fosse meramente técnica, alguns décimos cairiam por terra por detalhes justificáveis pelo caráter simples e sem muitas pretensões da montagem, mas que se tornam irrisórios frente à grandiosidade da entrega e da reunião de talentos que presenciamos em “Camarim”. Meu coração, no entanto, não consegue dar menos que dez e uma calorosa salva de palmas – que é a forma mais honesta de agraciar verdadeiras estrelas.

Fotos: Andressa Vieira
Próximas apresentações

Para quem não conseguiu pegar os limitados ingressos para uma das duas apresentações iniciais a tempo, não precisa fazer a dramática. Dudu Galvão já garantiu que mais apresentações vêm aí, ainda sem datas definidas, mas fica a promessa para uma nova temporada ainda este ano. Oremos e aguardemos.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.