A Travessia: Robert Zemeckis andando na corda bamba
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Nota do leitor: (1 Voto)
7.5

Quinze anos depois do seu último grande sucesso (Náufrago), Zemeckis está de volta com mais uma aposta. O diretor não esteve parado nestes 15 anos: passou por um período experimental com filmes de animação (Beowulf, Expresso Polar e Os Fantasmas de Scrooge) e fez o bom O voo, com Denzel Washignton. Mas nada que resgatasse os estrondos criados pela triologia De volta para o Futuro, Forrest Gump, Contato e o próprio Náufrago.

A Travessia conta a história real de Philippe Petit, um equilibrista francês que em 1974 decidiu viajar a Nova York e atravessar, apenas por um cabo, as recém-finalizadas torres do World Trade Center. A narrativa é pontuada de forma interessante, embora por vezes pouco eficiente. O protagonista surge em diversos momentos fazendo seus comentários sobre a história que ele próprio está contando. Esses momentos acabam tirando um pouco do foco da história, não deixando o espectador se envolver completamente, é como se a cada vez que você estivesse se esquecendo de que aquilo é um filme, alguém estalasse os dedos na sua frente. O recurso, que quebra a quarta parede imposta entre espectador e obra, e utilizado por diretores como Jean-Luc Godard, por exemplo, carece de prudência e seria válido se o filme fosse mais tenso e dramático, escolha que não foi feita pelo diretor.

Embora a tela do título deixe bem claro que se trata de uma história real, ela é contada de forma um tanto fantástica. Claro que o feito de Petit já é fantástico o suficiente para o mundo real, mas mesmo assim a produção pesa um pouco a mão no tom fabuloso, que por vezes nos lembra outros filmes como o francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Peixe Grande.

Os personagens que servem como alívio cômico também me parecem supérfluos para o desenvolvimento do roteiro. Não nos importamos com a maioria deles e mesmo aqueles por quem acabamos cultivando um pouco mais de carinho (Annie e Papa Rudy, por exemplo) acabam não tendo arcos conclusivos decentes. O elenco é atípico, composto em sua maioria por rostos desconhecidos, exceção feita ao protagonista Joseph Gordon-Levitt e Sir Ben Kingsley. O conjunto funciona bem, mas nenhuma atuação é realmente digna de grandes elogios.

Papa Rudy (Sir Ben Kingsley, right) teaches Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt) how to use a cable tensioner in TriStar Pictures' THE WALK.

A cena crucial do filme é construída cuidadosamente, de forma gradativa. O único problema é que tanta expectativa é criada no plano para subir as torres e passar o cabo que a travessia em si acaba perdendo o peso e mesmo quando surpresas acontecem durante/após a caminhada sobre o cabo, fica a sensação de que a parte mais difícil já passou há um bom tempo.

Algo que também pode incomodar os mais chatos (eu, em geral, não me incomodo com esse tipo de coisa) é que às vezes o filme parece muito mais uma ode à Nova York, à América, uma homenagem às torres gêmeas, do que realmente uma trova (já que o tom mais fabuloso foi escolhido) aos feitos de Philippe Petit. Essa mão pesada no americanismo fica clara especialmente na última cena do filme (com as torres esmaecendo aos poucos) e nas intervenções do protagonista durante a história, sempre feitas do alto da Estátua da Liberdade.

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Dito isso, A Travessia tem seus pontos positivos e acaba sendo uma experiência gratificante. O filme usa o 3D de forma mais eficiente e significativa do que, por exemplo, Perdido em Marte (para citar um filme atualmente no circuito) e tem toques de encanto que o tornam mais mágico do que a maioria dos artifícios que nos são empurrados goela abaixo. Um deles é o visitante misterioso na cobertura da torre sul, pouco antes do equilibrista iniciar sua travessia, um personagem sem explicação, mas que mistura realidade e fantasia, fertilizando o terreno onde o cinema e os sonhos nascem.

Mas talvez o grande trunfo do filme seja a mensagem da possibilidade, da vitória sobre os fracassos. Apesar de aspectos técnicos e narrativos que não sobressaem, A Travessia faz você sair da sala de cinema acreditando que nada é impossível.  E isso basta.

Uma dica que deixo é assistir também ao documentário sobre Petit e seus feitos: Man on Wire (2008).

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