Um bonde chamado Eva Wilma

Sem rodeios, vou logo ao ponto: Azul Resplendor é incrível!

Chego eu em casa, cansado de mais um dia exaustivo, ainda pensando em desmarcar – de tão enfadonho que me encontrava – o compromisso de ir assistir ao espetáculo Azul Resplendor no Teatro Riachuelo. Mas pensei melhor e acabei indo e por mim, teria permanecido por lá. Por que a gente tem que voltar pra casa, pra nossa rotina, depois de assistir a um espetáculo tão maravilhoso?

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Fotos: Diego Marcel

Quando cheguei ao teatro, dei uma volta no saguão onde se encontra uma breve exposição da carreira de Eva Wilma. Um jazz tocando ao fundo, instaurando um clima perfeito para a galeria, fui lendo os quadros que narram à trajetória da atriz no teatro, na televisão e no cinema.

Eva Wilma tem no currículo coisas como um teste para o filme Topázio de Alfred Hitchock, uma atuação na peça Esperando Godot de ninguém menos do que Samuel Beckett e ainda emplaca com nada mais do que Um Bonde Chamado Desejo, de Tennesse Williams, no teatro. Isso tudo além das inúmeras novelas que fez. Peguei minha passagem no bonde e embarquei!

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O que eu vi foi uma demonstração de como realmente se faz teatro na contemporaneidade.  Que espetáculo inteligente, de texto bem feito, de direção impecável, atuações que horas faziam meu queixo ir do céu ao chão.

Eva Wilma se mostra em cena de forma tão generosa e humilde, e sem qualquer tipo de estrelismo, que é impossível não se arrebatar pela atriz que é. É uma demonstração de profissionalismo tão intensa, que fiquei pasmo, ainda mais com a proposta moderna e inovadora que a obra nos traz. É um dialogo a todo instante das formas tradicionais do fazer teatral ao que é agora, o moderno, o pós-moderno, o pós-dramático, o que for.

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Vemos em cena atores incríveis que sabem como prender a plateia com sua presença. A voz, o corpo, tudo muito bem articulado, pensado, dito. Guilherme Weber, que marcou sua carreira fazendo par com Giovanna Antonelli em Da Cor do Pecado, nos surpreende com seu personagem excêntrico, o diretor Antônio Balaguer. E mais Genézio de Barros, Felipe Guerra, Luciana Borghi e Débora Veneziani, completam o time de feras.

O que vemos em cena é uma dramaturgia que satiriza até os próprios atores, que satiriza os grandes diretores que limitam a capacidade criativa do ator. Um texto que fala sobre a velhice de uma grande atriz esquecida, de um amor platônico, de atores fajutos e seus egos enormes. É um desnudamento do que sempre acontece por trás das coxias, mostrando os bastidores dos espetáculos.  É uma aula de teatro no teatro, metalinguístico.

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Azul Resplendor ainda permanece em cartaz hoje à noite às 21h, última sessão. Se não fosse uma viagem que preciso fazer, iria conferir novamente e ver outra vez Eva Wilma e grande elenco brilharem  no palco e mostrarem ao público como se faz teatro de verdade. E sobre o cansaço quando cheguei em casa? Acabei esquecendo e me renovando em plena quinta-feira no meio de uma semana louca. Teatro não é só para o final de semana. Deixemos dessa mania de ir prestigiar algo “artístico” só nos sábados e domingos. Happy hour também pode ser feito vendo espetáculos, conferindo a cena cultural da cidade e deixando de lado o chopp sem graça no bar barulhento.