Um Estranho no Lago: uma maneira particular de perturbar os espectadores

2013 foi um ano muito safadinho para o cinema francês. As principais produções do país europeu que chegaram ao Brasil tinham alguma referência ao sexo: desde polêmicas cenas de transa entre duas mulheres (como é o caso de “Azul é a Cor Mais Quente”) até quando o sexo, e sua comercialização, se tornam o principal tema a ser desenvolvido (é o caso de “Jovem e Bela”). Estava faltando um filme que mostrasse a volúpia entre dois homens, mas a lacuna começa a ser preenchida pelo longa “Um Estranho no Lago” (L’inconnu du Lac), dirigido pelo diretor Alain Guiraudie, que estreou nas salas das principais capitais do país em dezembro.

Direção soube aproveitar os efeitos de sombra para aumentar o clima de suspense na obra
Direção soube aproveitar os efeitos de sombra para aumentar o clima de suspense na obra

Um lago calmo e isolado é o cenário de uma colônia homossexual, utilizada como praia de nudismo. Ao lado, há um bosque onde os frequentadores transam sem nenhum pudor e sem nenhum medo de serem flagrados. É nessa paisagem em que Franck (Pierre Delandonchamps) inicia uma amizade com Henri (Patrick d’Assumção), um homem gordo recém-separado da esposa que busca a tranquilidade oferecida pelo local, sem demonstrar interesse sexual em nenhum homem. O longa se arrasta até o ponto em que o belo Michel (Christophe Paou) começa a frequentar o lago.

O misterioso Michel (esquerda) começa a frequentar o lago e desperta o interesse de Franck
O misterioso Michel (à esquerda) começa a frequentar o lago e desperta o interesse de Franck

Ao contrário dos suspenses americanos, nos quais o mistério reside em deixar oculta a identidade do assassino, em “Um Estranho no Lago”, somos testemunha da responsabilidade de Michel na morte. O jogo do belo rapaz é tão sedutor que nem o assassinato configura motivo para que Franck se afaste, mesmo sabendo que seu amado é o algoz. O ótimo suspense é construído sobre o que pode acontecer a Franck à medida que fortemente se entrega na destreza de Michel. A partir daí, o sexo passa a ser coadjuvante na trama da história, ainda que muitos nus – frontais, inclusive – e uma cena de sexo (na qual um plano detalhe mostra a ejaculação do ator Pierre Delandonchamps) possam perturbar os mais puritanos.

O longa de Alain Guiraudie contém muitas cenas de sexo explícito
O longa de Alain Guiraudie contém muitas cenas de sexo explícito

Para mim, a grande reflexão que Guiraudie quis passar por meio do filme é sobre o medo da solidão, que leva as pessoas a abrirem mão do amor próprio e, principalmente, do instinto de segurança. O medo da solidão é o motivo principal pelo qual Franck investe num “relacionamento” com Michel e passa a frequentar diariamente o lago. Embora um assassinato tenha acontecido, os mesmos frequentadores do local continuam a aparecer, como se nada tivesse se passado. As roupas do garoto morto permanecem jogadas próximo ao lago, assim como seu carro fica parado há dias num estacionamento improvisado próximo ao bosque. E ninguém se importa. Quando os pertences do falecido são recolhidos, é o sinal de que um policial à paisana passa a investigar o caso. Nesse momento, o longa adquire uma nuance de investigação mais tradicional mesmo. O investigador inquire todas as personagens, inclusive Franck, que lança uma frase fria e perturbadora ao responder que “Não se pode parar de viver”, quando questionado por que não deixou de ir ao lago depois do caso.

Cartaz oficial em português
Cartaz oficial em português

Quanto às características técnicas, “Um Estranho no Lago” é um filme que se sai muito bem. O som – como um típico filme francês – valoriza a captação direta e deixa de lado a utilização de trilha sonora, o que favorece o clima de suspense. A fotografia é muito bela e a direção de Guiraudie soube bem como trabalhar com a passagem do dia no local, obtendo o melhor clarão e a melhor escuridão das paisagens para, mais uma vez, favorecer o suspense.

Ainda sobre a direção, pode-se dizer que a escolha pela repetição de planos, como a chegada do carro de Franck ao estacionamento improvisado próximo ao lago, ganha um significado simbólico no filme e diz bastante sobre sua posição em relação àquele lugar. A cena final é a melhor de todo o longa, radicalizando a intenção de Guiraudie sobre o quanto se pode abrir mão do instinto de segurança em troca do desejo e do amor.

O voyeurismo presente na obra – comprovado em diversos planos nos quais as personagens parecem olhar para a câmera como que para o próprio espectador – faz uma alusão a “Janela Indiscreta”, um dos melhores e mais reconhecidos filmes do mestre do suspense, Alfred Hitchcock. O roteiro, no entanto, é que parece não estar muito bem costurado, principalmente em informar com precisão como o amigo de Franck, o afastado Henri, sempre soube que Michel era o assassino.

Henri (à direita), sempre calado e afastado, chama a atenção de Franck (à esquerda). Os dois acabam se tornando amigos.
Henri (à direita), sempre calado e afastado, chama a atenção de Franck (à esquerda). Os dois acabam se tornando amigos.

Se tudo que foi falado até agora não foi suficiente para chamar a sua atenção, eis os reconhecimentos de “Um Estranho no Lago”: o longa foi o ganhador da Palma Gay, prêmio destinado a filmes com temática homossexual no Festival de Cannes, e do prêmio de direção na Mostra Um Certo Olhar, do mesmo festival. Mas a principal consideração vem da famosa “Cahiers du Cinema”, tendo sido eleito pela revista francesa como o melhor filme de 2013.