Um papo com Nicolas Behr sobre o que der na telha

O Nicolas Behr tem 20 livros publicados. Vinte livros. Coisa pra chuchu, rapaz. O Nick é um poeta que me chama atenção porque ele é divertido e simples. E não só nos poemas.
Ele nasceu em Cuiabá em 1958. É dono de um viveiro chamado Pau Brasília. Seu primeiro livro ”Iogurte com farinha”, foi também seu best seller: 8 mil cópias, em mimeógrafo, vendidas de mão em mão.
Resolvi fazer uma entrevista com ele bem no clima dos poemas: leve, descontraído. Confiram logo abaixo:
Foto: Nilson Carvalho

Foto: Nilson Carvalho

O CHAPLIN: Com quantos anos começou a escrever poemas? E com quantos publicou? 
Comecei a escrever com uns 16 a 17 anos e publiquei o iogurte com farinha com 19 anos.
O CHAPLIN: E por que continuou a escrever os poemas? 
Porque preciso.
Roberto Castelo

Roberto Castelo

O CHAPLIN: Você tem muitos trabalhos publicados. Quando vem a certeza de publicar um livro de poemas? 

Quando acho que os poemas estão maduros, que já revisei o livro mil vezes, fiz um monte de versões, quando eu tenho certeza de que não me arrependerei de publicar o livro…
O CHAPLIN: Muitos críticos não gostam do seu trabalho, assim como também muitos outros elogiam muito. Pra você, qual a importância da crítica de poesia?
A critica é necessária –  quem tá na chuva é pra se molhar… Mas eu não escrevo pra críticos, não ligo, não dou a mínima… E sigo escrevendo, publicando… Mas não acho a crítica ruim, pior é a indiferença.
O CHAPLIN: Muitos dos seus poemas falam na Alcina [esposa do Nick], ou são dedicados a ela. Como se conheceram? Fala um pouco sobre a relação de vocês.
Somos casados há 29 anos… coisa rara para um poeta …. a gente se conhece há muito tempo, ela tinha 13 e eu 19… mas começamos a namorar mesmo quando ela fez 17 anos e nos casamos quando ela tinha 20. A relação (obviamente) é boa, com todos os altos e baixos que um casamento que já dura tanto tempo tem… Ela é muito crítica, não alisa, não elogia qualquer coisa, e é muito exigente nas leituras dela.
O CHAPLIN: E o “Iogurte com farinha”, seu best seller? Ainda se tem notícia?
Foi meu primeiro livrinho mimeografado, de 77. Na semana em que morreu Elvis Presley foi quando o imprimi. 32 páginas, bem tosco, bem barato, e gostei de um título nem um pouco poético. O sofisticado iogurte e a nossa farinha…
O CHAPLIN: O tal “material pornográfico” que lhe foi apreendido durante a ditadura e que te impediu de publicar durante algum tempo eram os seus livros? Como foi isso?
Fui preso pelo DOPS , a polícia política da ditadura, logo quando completei 20 anos (em 15 de agosto de 78, e eu sou de 5 de agosto de 58). Eles queriam o mimeógrafo, achavam que eu tinha em casa uma gráfica, uma central de impressão de livros… Como não acharam o mimeógrafo, tinham que justificar a ação e aí me processaram por porte de material pornográfico.
O CHAPLIN: Fala também da história de escrever poemas em telhas.
… Aí, como eu não podia publicar livros, comecei a escrever poemas em telhas frescas; eu escrevia o poema na telha, ela ia pro forno e depois eu tinha um poema escrito na telha. Era a série: o que me der na telha.
Foto: Ésio Macedo Ribeiro

Foto: Ésio Macedo Ribeiro

O CHAPLIN: A Pau Brasília é sucesso? E por que não é Pau Braxília, como nos seus poemas que falam da Brasília ideal?

Pau Brasília é o meu viveiro de plantas, sim, um sucesso, pois sobrevivo dele há 20 anos… A minha atividade comercial é o meu fio terra. Todo poeta tem que ter um fio terra, senão pira, se mata, essas coisas…. Não é Pau Braxília pois aí confundiria muito o pessoal.
O CHAPLIN: Você é um cara super simples, gente-como-a-gente. Gosta de ser chamado de Nick e que as pessoas te encontrem e entrem em contato contigo. Como é essa relação com os leitores que, claramente, é tão importante pra você?
Eu sou do tipo de poeta que quer ser encontrado. A atividade literária é muito solitária, e eu preciso do encontro, do outro, do leitor… De um retorno… Sem leitor não há escritor, sem leitor não há obra… É simples assim. E eu gosto de desmistificar esse lance do poeta ser um ser superior, antena da raça, essas coisas… Não gosto da entronização, gosto de circular no meio da rapaziada…. Eu gosto do contato. Gosto de gente.
 
O CHAPLIN: Quando veio a Natal, almoçamos salada. Você é uma pessoa que se preocupa muito com saúde, alimentação, essas coisas? Faz algum esporte?
Devia me preocupar mais com minha saúde, preciso sempre perder peso… Faço caminhadas, mas deveria fazer muito mais.
O CHAPLIN: Como é sua rotina aí em Brasília? O que você gosta de fazer?
De manhã vou ao viveiro, resolvo as coisas por lá. Almoço em casa. Quando posso tiro minha soneca depois do almoço e volto pra rua, algum trabalho externo (tipo visitar clientes) ou fico em casa lendo, escrevendo, organizando meus livros… olhando um texto ali, arrumando outro ali. À noite fico em casa lendo (leio muito romances, estou lendo agora ”O homem que amava os cachorros”, que é maravilhoso.. são 500 páginas e o livro te puxa). Sábado trabalho no viveiro o dia todo. Domingo gosto de ficar em casa, bom dia para escrever, quando todos saem… Dia para descansar escrevendo.
O CHAPLIN: Que poetas mais mexeram com você? Vale de todas as épocas e estilos.
Vamos lá. Drummond, li muito na juventude. Li Pessoa. E logo tomei contato com a minha turma, Chico Alvim, Chacal, Leminski, essa moçada… Gosto de Ferreira Gullar…
O CHAPLIN: Você gosta muito de música? Quais estilos, quais bandas?
Fui roqueiro. e gosto dos Beatles e dos Rolling Stones, Doors, os clássicos. Mas minhas preferências são bem ecléticas, ouço musica clássica (Chopin, Bach, Vivaldi… ) e gosto muito de MPB também, dos anos 70. Gil, Caetano, Gal, Elba Ramalho, Fagner… tanta gente.
O CHAPLIN: Qual poema, dos seus, é o seu preferido?
Ah, não posso falar, tem vários… Tem muitos… Uns 5.

O CHAPLIN: E qual poema dos outros é seu preferido? 

Os ombros suportam o mundo, do Drummond, um dos poucos poemas que sei de cor.
O CHAPLIN: Quando você começou a publicar os poemas e aparecer, algum poeta te ajudou?
Sim, muitos. Vários. Tive o apoio e incentivo de muita gente e hoje sempre que posso incentivo e ajudo o pessoal a publicar… Só nao gosto que me chamem de “tio”.
O CHAPLIN: Um conselho aos jovens poetas?

Ler muito, escrever muito e rasgar muito. Escrever é tirar. Quanto mais escrever mais você vai ter o que tirar… E procurar sempre a concisão. Não quer dizer que o poema curto é bom e o longo é ruim, nada disso… Concisão para encontrar o impacto.

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