“Um Terço de Mim”: jogo de inquietações

Uma das coisas que mais me chamam atenção na letra de Construção é a elegância ao criar imagens diferentes com um simples jogo de palavras. A história da música é contada através da repetição de sua estrutura. Mas, a cada alteração ao fim das estrofes, Chico Buarque tem a felicidade de empregar novo sentido:

“Morreu na contramão, atrapalhando (o tráfego, o público ou o sábado)”

Pois bem, algo parecido acontece em Um Terço de Mim. Uma mulher senta-se à mesa com outras duas fisicamente idênticas e reflete, sob uma ótica amarga e dolorida, sobre a vida.

O roteiro aposta na subjetividade para provocar reflexões sobre os conflitos pessoais que nos inquietam. Uma protagonista visivelmente angustiada que inicia o papo com certa impaciência com suas “acompanhantes”. A partir daí, é a compreensão do púbico que trabalha em cima do que vê.

A competência narrativa abre a interpretações: trata-se de quem é, de quem gostaria e de quem aparenta ser; de três versões conflitantes de uma mesma personalidade; de uma mulher entre os tradicionais conceitos maniqueístas do que é bom e ruim; ou a representação do desequilíbrio entre impulsividade, racionalidade e moralidade. Id, Ego e Superego disputam o controle da protagonista.

A verdade é que não importa tanto se alguma dessas interpretações é mais apropriada. Todas elas dialogam e nos guiam para as inseguranças inerentes ao Homem. É justamente aí que entra a riqueza do texto, me remetendo a Construção. Enquanto a música brinca com suas versões ao alterar palavras, o curta apresenta diferentes sentidos ao colocar as mesmas palavras nas “diferentes” vozes em cena.

O que vemos é um texto dolorido de uma personagem que flerta com a morte, como visto no manuseio de uma faca e, principalmente, no monólogo final quando a intérprete Rosa Felix olha bem pra dentro da gente, cheia de pesar nos olhos avermelhados.

Aliás, a mise-en-scène precisa ser destacada pela precisão. Atuações, figurinos e enquadramentos estão em plena sintonia. Vinda do teatro, Rosa Felix evita a intensidade comum aos palcos, deixando a câmera captar a essência de sua personagem nos momentos menos enérgicos. A atriz entrega três composições diferentes: uma mais inquieta; outra de aparente sensatez; e a terceira mais indiferente e repleta de deboche.

Os figurinos são importantes nas composições das três versões. Com uma roupa mais próxima do azul, a razão; à sua frente, a cor vermelha identifica o impulso provocativo de uma atitude drástica, aquela voz do subconsciente que nos incita a tomar uma atitude definitiva; e a terceira figura usa um vestido de base clara que estampa cores próximas ao azul e ao vermelho, representando o estado conflituoso.

A fotografia de Laísa Trojaike é particularmente feliz quando consegue distanciar o enquadramento, colocando a protagonista “dividida” pelo cenário, ou quando se afasta, representando solidão e ainda revelando uma pintura abstrata repleta de um trágico vermelho.

Um Terço de Mim passa uma angústia incômoda de depressão, mas faz isso como quem nos convida a compreender esse sentimento complexo. Nos dá um vislumbre do vazio existencial que se alterna com o desejo forte de por fim no todo. Usa a arte para mostrar o quão difícil é lidar com nossos monstros interiores.