Ao assistirmos a “Cinema Paradiso” pela primeira vez, o ideal que sobrevive em nossa percepção é o de que o filme é uma grande homenagem ao cinema e a todo o cortejo de sensações que essa arte evoca. Tal impressão não é errônea – visto a quantidade de odes à sétima arte imprimidas na tela; porém, se adentrarmos além dessa superfície, deparamo-nos com outras implicações, como a paixão, a força da amizade, e até com questões que advêm do seio da sociedade provinciana que era o interior da Itália, no período pós-Segunda Guerra. É justamente nessa conjuntura que desenvolve-se a trama da obra.

A sua sequência inicial nos apresenta um belo enquadramento do mar Mediterrâneo em sua tenra calmaria, que aliada a trilha sonora de Ennio Morricone, nos revela o caráter simplista e pacato daquele espaço geográfico, que logo é contrastado com a caótica e barulhenta urbanidade de uma grande cidade, em uma cena onde o personagem de Totó é hostilizado no trânsito por um grupo de jovens.

 

Quando somos transportados às memórias desse personagem, vemos uma comunidade que se mantém nos limites do ruralismo, e onde o cinema é a fonte de lazer, informação e o ambiente principal de socialização dos cidadãos; alguns desses últimos habitam uma divertida constelação de personagens, como o padre censor, o louco da praça e o homem que sempre dorme no cinema. A naturalidade na caracterização desses personagens nos faz associar essas personas ao sujeitos que ilustram o cotidiano e as anedotas de todas as pequenas cidades.

 

 

Analisando algumas das reações de determinados personagens que comparecem às sessões, compreendemos em parte como o cinema pode gerar diferentes catarses, dependendo da pessoa ao qual o filme alcança. O padre, ao assistir a uma película, mantém-se em uma imersão quase completa, apenas quebrada por uma histeria irascível provocada por cenas que ultrapassam os limites dos “bons costumes”. Os frequentadores do “Paradiso” variam entre aqueles que estão totalmente comprometidas com o que está sendo mostrado na tela, e outros que não têm a mesma relação com o cinema e se prestam a encarar os filmes como mero entretenimento destituído de qualquer outro emprego prático.

 

A relação entre cinema/indivíduo é mais veementemente enfatizada através da perspectiva de Totó, que vislumbrando a sétima arte como arcabouço de seu cotidiano infantil, busca não só a imaterialidade do cinema, mas a sua integração com o mesmo, mediante suas tentativas de adentrar na sala de projeção, tomar contato com o maquinário e convencer o projecionista Alfredo de que pode ser útil em alguma coisa.

O crescimento da paixão de Totó pelo cinema é intercalada por sua relação com Alfredo, que funciona como uma figura paterna para o menino, em contraste com a ausência de seu verdadeiro pai, morto na guerra, e que é lembrado de maneira um tanto heroica e idealizada pela mãe . É emblemático o trecho no qual, após sabermos do real destino do pai de Totó, a câmera enquadra um pôster de “E o vento levou” com Clark Gable, corroborando com o diálogo onde Alfredo diz ao menino que seu pai parecia com o ator.

 

 

O incêndio do cinema e sua posterior reconstrução faz uma analogia clara a emergência de novos tempos e de que o mundo ao redor da aldeia está crescendo e se desenvolvendo, através da inserção de determinados signos na trama que corroboram tal fato. O acidente no cinema também trouxe à cegueira para Alfredo, que mesmo destituído de sua visão, ainda mantém-se suficientemente sensível às variações dos maquinários da sala de projeção, a vida e sobretudo ao cinema, o que denota que a força motriz dessa arte reside não só nas imagens, mas sobretudo nas sensações delas derivadas.

 

Perto da conclusão da trama, vemos Totó frustrar-se com o amor, e com o incentivo de Alfredo, abandonar sua terra natal – o velho projecionista julga o lugar incompatível com a potencialidade do jovem, e o faz prometer não mais voltar. Com o retorno de Totó à aldeia percebemos a apatia em que se encontrava sua vida, em especial nos diálogos com sua mãe. Essa inércia é quebrada em dois momentos: no encontro com seu antigo amor, e na cena final, onde ele assiste a película deixada por Alfredo; essa passagem final testifica uma das grandes qualidades do cinema: a capacidade de nos tirar da letargia da vida e nos emergir para além de nosso imaginário. Essa é uma das muitas mensagens do filme que perpassa para além de seus créditos finais, atingindo-nos em nossa realidade e nos levando a valorizar a importância do cinema e do quanto precisamos dele.

 

Ficha técnica

 

Gênero: Drama

Direção: Giuseppe Tornatore

Roteiro: Giuseppe Tornatore, Vanna Paoli

Elenco: Agnese Nano, Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Jacques Perrin, Leo Gullotta, Leopoldo Trieste, Mario Leonardi, Philippe Noiret, Pupella Maggio, Salvatore Cascio

Produção: Franco Cristaldi, Giovanna Romagnoli, Mino Barbera

Fotografia: Blasco Giurato

Trilha Sonora: Andrea Morricone, Ennio Morricone

One Response

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    Ana

    Gostei da analise, mais gostei ainda mais da sua própria descrição, pois faço faculdade e em muitos momentos me vejo “amputada” das minhas vontades, e até menos inteligente ou criativa em relação ao que já fui. É tanta regra que você perde a vontade do fazer, perde a graça das coisas. Enfim parabéns pela atitude!

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